Ir ao MIUT e voltar para contar

Ir ao MIUT e voltar para contar

Novembro 2014. Estava delineada a minha época desportiva 2015 com a ilusão de participar no UTMB e, fosse ou não fosse positivo o resultado do sorteio para o UTMB, o MIUT faria parte das provas a realizar em 2015.

Fevereiro de 2015, Hora do Esquilo, treino rolante e suave, em vésperas do Ultra Trail de Sicó onde iria fazer o meu treino longo de preparação para o MIUT. Um estalido na madrugada, uma dor no tornozelo e o treino terminou ali, mal tinha começado.

MIUT 1

Faltavam seis semanas e uns dias para o MIUT e o primeiro grande objectivo para 2015 estava agora em risco. Dois ligamentos internos do tornozelo tinham saído do sítio. No Instituto de Medicina Tradicional recoloquei os ligamentos no sítio certo, mas a recuperação avizinhava-se morosa. Duas semanas passaram e já podia recomeçar a correr, em terreno plano e sem um ritmo elevado. Não houve mais Hora do Esquilo, Treino da Salamandra, ou Serra da Arrábida, e foram quatro semanas a treinar devagarinho, em pisos com pouco declive e sempre em ritmos lentos, sem esforçar o tornozelo. Todo o plano de treinos delineado para preparação do MIUT foi comprometido, e o objectivo passou a ser treinar para iniciar o MIUT ao invés de treinar para terminar o MIUT. E assim fiz, como não conseguia cumprir o meu plano de treinos de corrida, ia para o Kalorias Fitness Club e fiz muito reforço muscular, fiz quilómetros e quilómetros de elíptica/crossramp, e subi degraus sem conta na passadeira de escadas, exercícios que não forçavam o movimento do meu tornozelo.

Quinta-feira, dia 9/4 – Chego assim a Machico para levantar o meu dorsal, em condições mínimas para iniciar a minha maior aventura até à data. Objectivo iniciar, muito próximo de concretizar. Segundo objectivo: ir o mais longe possível sem forçar o tornozelo a algum movimento extemporâneo que pudesse comprometer a participação na prova e a recuperação total. Secretamente, estava convencido de que com um pouco de sorte, chegaria pelo menos ao ponto de controlo dos Estanquinhos, aos 30 quilómetros de prova.

Sexta-feira, dia 10/4, Funchal – Contava já as horas para a partida que seria às 24h00 em Porto Moniz. Passei a tarde deitado a descansar mas sem conseguir dormir uma sesta, o que poderia ser perigoso caso a prova fosse correndo bem e conseguisse progredir.

Sexta-feira, dia 10/4, Porto Moniz – Faltava agora pouco mais de uma hora para a partida. Muitos atletas já estavam nos arredores da partida e os autocarros com atletas vindos de Machico estavam agora a chegar. Muitos amigos e muitas caras conhecidas, muita motivação e muita adrenalina no ar, e muita vontade de começar. Eram cerca de 400 os atletas que iriam começar os 115Km do MIUT.

Sábado, 11/4, 00h00, Porto Moniz – Soa o tiro de partida. Curiosamente sentia-me muito leve e despreocupado. Estava consciente de que tinha feito o possível para começar o MIUT, e após cruzar a linha da partida cada metro que conseguisse progredir e que conseguisse vencer seria uma pequena vitória.

Os primeiros 2 quilómetros tinham cerca de 400 metros de desnível positivo, bons para aquecer e entrar no ritmo/espirito da prova. Sentia-me bem a subir. Com o cuidado devido de ver bem onde punha os pés, subir não seria um problema para o meu tornozelo. Já descer era toda a minha fonte de preocupação. O desconforto de um tornozelo ainda a 75%, um movimento mal feito ou o pé colocado no sítio errado, poderiam significar o fim do meu MIUT. A subida e a descida correspondente sempre aos “esses” serviu mesmo para aquecer e vislumbrar as bonitas luzes de um pelotão cada vez mais alongado. A passagem pela Ribeira da Janela foi, talvez, um dos pontos mais memoráveis no que ao público diz respeito. Muitas pessoas na rua a fazer barulho e a apoiar os atletas que passavam, o que ajudou a dar um boost extra para a primeira subida a sério em direcção ao Fanal. Foi ali que iniciámos o primeiro quilómetro vertical da prova, com uma subida de 11 quilómetros e cerca de 1100 metros de D+. Os primeiros quilómetros da subida foram tranquilos, a sair da povoação da Ribeira da Janela. Pouco menos de dois quilómetros e apareceram as primeiras escadas, as primeiras entre milhares e milhares que o MIUT nos oferece, de todas as formas e feitios e que todas juntas, penso que dariam para subir daqui até à Lua! Muito cuidadinho nestes degraus de terra delimitados por troncos, sempre escorregadios e propícios a um belo trambolhão caso não se assentasse o pé no melhor sítio do degrau. Foram assim 4 Km onde subimos perto de 800 metros de D+, e entrámos numa levada que durou mais uns bons 5Km. Aqui corria-se em comboio, com o pelotão ainda algo junto, e com a adrenalina de sentir a água a descer pela levada à nossa esquerda e de sentir o precipício brutal à nossa direita, e digo sentir porque não se conseguia ver o precipício no breu da escuridão, mas de certeza que ele estava lá. Chegado o fim da levada e surge mais uma ingreme subida que levaria finalmente até ao Fanal. Foram mais 2 quilómetros a subir e os primeiros 16Km estavam feitos. Aqui surgiu o frio pela primeira vez. Estávamos a uma cota de cerca de 800 metros, mas as nuvens baixas e o vento movimentavam uma cacimba gelada que recomendavam o vestir do corta-vento. Assim fiz e os dois quilómetros até ao Fanal passaram num instante. Fiz o check point, roubei uns biscoitos e dois pedaços de chocolate no abastecimento e fiz-me novamente ao caminho. Estava a 1200 metros de altitude e a descida seguinte poderia mudar toda a história. Eram cerca de 5 quilómetros com um desnível de quase 900 metros D-. O piso em terra mole poderia parecer bom para uma descida tranquila e segura, mas o seu tom castanho-escuro era exactamente da mesma cor das pedras, rochas e raízes que completavam o percurso. Para “ajudar” a humidade que se sentia tornava o piso completamente escorregadio, como manteiga em focinho de cão, como se costuma dizer. Sempre apoiado nos bastões, desci em passada ainda inferior a baby steps, muito lentamente e quase sempre com a certeza absoluta de onde colocava os pés. Ainda assim não consegui evitar três trambolhões durante a descida, que felizmente não me machucaram mais do que o ego. Sentia-me impotente para descer mais depressa, mas se quisesse chegar mais longe teria de ter muita paciência e concentração, e era esse o objectivo. Não arrisquei andar depressa nem tão pouco correr durante a descida, descidas onde geralmente acelero e ganho muito tempo nas provas. Desta vez tudo teria de ser diferente. Com algum esforço cheguei ao final da descida inteiro, no Chão da Ribeira, onde fiz o check point, atestei de água e parti rumo ao segundo quilómetro vertical da noite. Os primeiros quatro quilómetros da subida presenteavam logo com 1100 metros de D+, a serpentear por entre trilhos, degraus, vegetação e rochas. Passei muitos atletas que passaram por mim na descida. Esta era uma prova completamente atípica para mim. Faltavam agora dois quilómetros para os 30, estava a uma altitude de mais de 1400 metros, e um erro de rookie poderia ter deitado tudo a perder. Sentia as mãos frias, geladas mesmo, e a preguiça de tirar as luvas da mochila estava a falar mais alto, afinal só faltavam 2 quilómetros para o ponto de controlo. É este tipo de pensamento que pode arruinar qualquer prova, nunca podemos subestimar a natureza. Fiz mais um quilómetro sem luvas, mas a 1 km do ponto de controlo tive mesmo de as calçar, e terá sido mesmo no limite da hipotermia, já tinha as pontas dos dedos dormentes e não conseguia aquecer as mãos de maneira nenhuma. Chego a Estanquinhos, ao Km 30, às 7 horas. Uma hora antes do tempo limite para chegar a este ponto de controlo, muito melhor que as minhas expectativas iniciais. Ali vivia-se uma grande confusão com muitos atletas a chegarem e poucos colaboradores disponíveis, e muita gente a assistir à partida da prova de 85Km que começava precisamente ali e aquela hora. Comi uma fatia de bolo de mel e um caldinho de canja frio, aproveito para aquecer as mãos, calçar as luvas convenientemente, e faço-me de novo ao caminho. Espera-me agora uma descida de 9 Km e 1000 metros de D-. Não tenho muitas memórias deste troço. Tal como na descida anterior, a concentração para escolher onde punha os pés tinha de estar ao máximo e o facto de ter de descer em baby steps também não ajudava a grande dispersão visual pela paisagem. Recordo-me de constatar alguma vegetação diferente do habitual a envolver o trilho, o que me indicava que estaria a cruzar a famosa floresta de Laurissilva, floresta húmida subtropical, classificada como património da humanidade pela Unesco.

Entretanto nasce o dia e a luz do Sol começa a vislumbrar-se por cima dos picos, num jogo de luzes azul e vermelho que me ficou na memória. Assim cheguei ao ponto de controlo no Rosário, a perder (muito) tempo face ao expectável. Paragem técnica rápida apenas para reabastecer os líquidos e parto rumo à Encumeada, onde lá cheguei subindo uma escadaria quase contínua de cerca de 7 quilómetros. Curiosamente e após subir milhares de degraus de todos os tamanhos e feitios, cheguei à Encumeada sem grandes problemas nas pernas. Não tinha muita fome e nem comi da sopa que ofereciam no abastecimento. Arranquei rumo ao Km 60 no Curral das Freiras, onde haveria um bloqueio às 15h00. Eram pouco mais de 13 Km até lá, mas o início foi logo brutal: uma descida de 2 Km para digerir do abastecimento e uma interminável subida que acompanhava uma conduta de água que descia a encosta, composta por mais degraus de todos os formatos e alturas. Como não comi no abastecimento tive de parar a meio da escadaria para meter alguma energia. Aproveitei um local da conduta onde me podia encostar e desfrutei a vista da encosta enquanto digeria uma barra. Subi o que faltavam das escadas e percorri o trilho que me levaria ao início da descida para Curral das Freiras. Mais ou menos dois quilómetros de distância e 800 metros de D- separavam-me de Curral das Freiras. Mais uma descida mais um inferno, concentração de novo a 200% e baby steps até ao limite do impossível. Mais tempo perdido e muitos atletas que tinha passado a subir, voltaram a passar por mim na descida. Ainda assim consegui chegar ao Curral das Freiras 45 minutos antes do tempo limite. A hora ganha nos primeiros 30 Km estava a revelar-se muito útil, mas ainda assim não podia facilitar, portanto 15 minutos foi o tempo necessário para trocar de roupa e de ténis, atestar de líquidos, comer qualquer coisa enquanto bebi uma cervejola preta que me deu um alento enorme e partir rumo à conquista do Pico Ruivo, a 9 quilómetros de distância com 1300 metros de D+ ou seja, o terceiro quilómetro vertical do dia. Os primeiros quatro quilómetros desta subida passaram num instante. Voltei novamente a passar por muitos atletas que me passaram na descida anterior, e como quem não dá por ela 800 metros já estavam escalados. Faltavam agora cerca de 5 Km para chegar ao Pico Ruivo com cerca de 500 metros de D+. Parecia que iria ser suave, mas uma lição que o MIUT nos ensina é que ali nada é suave ou fácil, e assim foi mais uma vez. Foram 5 quilómetros de escadas até ao pico, a maior parte a subir mas também algumas vezes a descer, o que que causou uma verdadeira dança altimétrica no meu relógio, ora nos 1500 metros ora nos 1700 metros de altura. Tal como na escadaria anterior cheguei ao final sem grandes problemas nas pernas. Fiz o checkin no ponto de controlo, reabasteci de líquidos, sentei-me enquanto comi uma barra, e fiz-me de novo ao caminho rumo ao Pico do Areeiro.

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Pico Ruivo – Foto de Marlene Pereira

Ia já com quase 18 horas de caminhada nas pernas e aqui consciencializei pela primeira vez que se já tinha feito 70 quilómetros sem nenhum azar, se mantivesse a mesma concentração e frieza de certeza que iria chegar a Machico sem problemas. Este pensamento deu-me uma energia extra e toca a subir escadas até ao Pico do Areeiro. Este troço entre os picos é, talvez, pela sua rudeza e espectacularidade, dos mais bonitos de todo o percurso. Escadas e mais escadas, umas vezes a subir outras vezes a descer, ora esculpidas na pedra, ora em troncos de madeira, ora escadas metálicas tão inclinadas que mais pareciam escorregas, túneis escuros que cruzam as montanhas de um lado para o outro, à nossa esquerda a rocha da montanha, à nossa direita um precipício sem fundo, os picos a beijarem literalmente o azul do céu. Volta e meio olhava para cima e vislumbrava pontinhos de cores brilhantes a serpentearem um qualquer caminho mais acima, antecipando-me o quanto ainda teria de subir para ali chegar. Essa visão motivava-me ainda mais para continuar e para subir com mais força e velocidade. E assim subi o último grande lanço de escadas até ao Pico do Areeiro, onde cheguei por volta das 19h28, 32 minutos antes do tempo limite. Rapidamente comi uma canja, fruta, uma barra energética e fiz-me ao trilho. Tinha 6 horas para fazer cerca de 23 quilómetros até ao ponto de controlo na Portela. Nos três troços que me separavam da Portela, um tinha uma subida com quase 500 metros de D+, mas o que verdadeiramente me preocupava eram os outros dois, um com 1000 e pouco e outro com quase 800 metros de D-. Saí do Pico do Areeiro e pude sentir de novo a magia do vermelho e azul no ar, desta vez as cores mágicas misturavam-se na dança do lusco-fusco, enquanto o sol desaparecia atrás dos picos, agora nas minhas costas. A paisagem era agora muito aberta e, não fosse a minha necessidade de continuar a olhar para o chão para escolher onde punha os pés, aposto que poderia vislumbrar o horizonte. Duas horas e meia foi o tempo que demorei a fazer os 10 quilómetros do Pico do Areeiro até ao Ribeiro Frio, ultrapassando os primeiros 1020 metros de D+. Mais uma descida muito técnica, com terra húmida de cor castanha, que se confundia com as rochas e com as raízes tal como no início da prova. Troço concluído e foi altura de recuperar posições nos 4 quilómetros com 500 metro de D+ até ao Poiso. Foi uma subida rápida onde mais vez recuperei alguns lugares. Checkin feito, líquidos reabastecidos, comi um caldo de canja (porque já não havia massa nem frango), e sigo para o trilho que a Portela está já ali. O Poiso era o último ponto de controlo antes do controlo na Portela onde era obrigatório passar antes das 2h00 da manhã. Quando ia a sair estava a chegar um casal que estava também a fazer o MIUT pela primeira vez, e que algo desanimado estava na perspectiva de ficar ali, pois não se sentiam com forças para chegar à Portela antes das 2h00 da manhã. Eu que coxo, e que desde a descida para Curral das Freiras andava a trocar de posições com eles, ora fosse o percurso a subir ora fosse a descer, sabia perfeitamente que eles eram capazes de ir até à Portela dentro do tempo limite, afinal tinham/tínhamos 2 horas e meia para fazer 9 quilómetros quase sempre suaves e a descer. Dei-lhes umas palavras fortes de motivação, disse-lhes que tinham 5 minutos para comer qualquer coisa e arrancarem, e foi com satisfação que os vi chegarem-se a mim a meio caminho da Portela, todos satisfeitos por os ter motivado a continuarem. Este também é o espirito do trail, não deixar os companheiros de corrida irem abaixo em qualquer momento de dúvida. E assim segui mais satisfeito até à Portela, onde cheguei por volta da 1h30 da manhã, 30 minutos antes do tempo limite. Aqui permiti sentar-me um pouco e recuperar do stress provocado pela segunda noite de prova e pelo facto da atenção necessária a ver onde colocava os pés. O ambiente na Portela era quase de celebração. Apesar de faltarem um pouco mais de 16 quilómetros para a chegada, quem ali estava e quem ali ia chegando, tinha a certeza (quase absoluta) de que agora já nada ia impedir de chegar ao final. Sentia-se alegria e boas vibrações no ar, e quase todos brindámos com uma canja quentinha, desta vez com tudo a que tínhamos direito: caldo, massa e galinha.

Pico do Areeiro – Foto do Madeira Island Ultra Trail

Dos cinco troços com tempo delimitado para chegar este, que acabava na meta, era o que permitia o ritmo mais folgado, o que me deixava algo desconfiado pois o troço era curto e seria quase sempre a descer. Parti da Portela com toda a vontade do mundo para terminar o MIUT, e dirigi-me com convicção em direcção às Funduras onde seria o próximo ponto de controlo. Os quilómetros ou melhor os metros, teimosamente passavam devagar. Passo após passo, curva após curva, descida após descida, olhava para o relógio e aquilo que aquela hora me pareciam quilómetros, não eram mais que poucas centenas de metros. Eram quatro da manhã e há cerca de 43 horas que estava acordado, (lembram-se de ter dito que a sesta antes da partida ia fazer muita falta?), e o sono começava a querer manifestar-se. Nunca tinha feito uma prova onde necessitasse de duas noites consecutivas e estava algo curioso para perceber como se iria manifestar o efeito da Privação de Sono. Entre estes e outros pensamentos chego a Funduras de onde sigo imediatamente para o ponto de controlo seguinte em Ribeira Seca. Esperava-me agora um segmento de pouco mais de 6 quilómetros e 450 metros de D-, o que tinha tudo para ser tranquilo até ao final, mas como já disse no MIUT não há coisas fáceis. Vou controlando os quilómetros que passam, um, dois, três, quatro, cinco, e… descer que é bom, nada que se veja, nem nada perto dos 450 metros de D- anunciados… Quase seis quilómetros do segmento, quase o final do segmento e toma lá uma descida com 450 metros de desnível negativo, daquelas sem muitos pontos de apoio, boa para ir largos metros em slide, pular para outro ponto e ir em slide de novo até rebentar a sola das sapatilhas. É claro que para quem ia como eu ia, sem poder esforçar o tornozelo e obrigatoriamente a descer em passada mais curta que baby steps, esta foi apenas a última descida aos infernos que o MIUT teve para me oferecer, tendo sido mesmo celebrada com uma espectacular bolha na lateral traseira do pé direito, que controlava a navegação e o escorregar descida abaixo. Feita a descida, continuei a viagem nocturna por um trilho que deveria ser muito perto da arriba, pois já se ouvia o mar ali mesmo ao lado. E aqui quase sem dar pelo tempo passar cheguei ao inicio da levada que iria levar quase quase a Machico. Estes últimos quatro quilómetros foram aqueles em que a privação do sono se manifestou, pelo menos de maneira que eu percebesse. Iniciei o percurso na levada, já com vista para os arredores de Machico à nossa direita, e estava convicto de que já tinha corrido ali. Cada passo que dava, cada ponto de referência que passava, cada sombra no chão, cada movimento das plantas, eram pequenos déjà-vu que tinha a certeza que já tinha vivido ou presenciado. Continuava a percorrer a levada e não me conseguia recordar de quando ali já tinha passado, mas tinha a certeza de que já o tinha feito. Quase que podia antecipar cada um dos meus passos e cada uma das sombras que via no chão que percorria ao lado da levada. A determinado momento fez-se luz e pensei a brilhante conclusão: “esta é a levada que percorremos na partida, mas agora em sentido contrário, não faz sentido nenhum repetir esta parte do percurso”. E assim, feliz por ter percebido de onde conhecia já o percurso, devo ter percorrido mais umas centenas de metros quando um dos pouco neurónios ainda semi acordados, se deve ter espreguiçado e clicado em algum botão que me fez agora pensar: “ó estupido, a levada da partida está a mais de 100 quilómetros do outro lado da Ilha, como é possível que a levada seja a mesma?!”. E pronto, com este pensamento parece que acordei de novo, tinham passado talvez uns quatro quilómetros desde o início da levada, e aquilo que me parecia tudo um enorme déjà-vu voltou a parecer-se com um percurso perfeitamente normal e desconhecido para mim. Entretanto chego ao último trilho a descer até Machico. O cheiro a meta era cada vez mais forte e agora, mesmo que torcesse os dois tornozelos, era só rebolar até lá abaixo. Termino o trilho e é claro que ainda teria de passar por uma dezena de degraus a descer, não fosse eu esquecer-me, por algum motivo extraordinário, dos vários milhares de degraus subidos e descidos nas horas anteriores. Passei por um atleta espanhol que mesmo com bastões já não conseguia andar direito e ofereci-me para o ajudar a ir até à meta, que distaria uns 200 metros dali. Gentilmente disse-me para seguir que ele iria devagarinho e assim fiz. Segui até à meta que cruzei com 30h44 de prova, feliz e satisfeito por ter conseguido cumprir tal empreitada em condições tão frágeis, mas insatisfeito por não ter podido correr durante o percurso e convicto que em condições normais iria demorar umas boas menos seis ou sete horas a concluir o percurso. Quem sabe se em 2016 não volto de novo ao MIUT para tirar esta dúvida.

O MIUT é uma prova classificada como Future do Ultra-Trail World Tour, e provavelmente para o próximo ano irá mesmo entrar neste calendário, o que aumentará em muito a exigência à organização da prova. Este ano a prova de 115 Km do MIUT contou com 375 atletas à partida, numero que possivelmente duplicará se a prova entrar mesmo no calendário do Ultra-Trail World Tour. A prova é bonita, espectacular, dura e muito bem organizada, e merece por si só a oportunidade de fazer parte de tão privilegiado calendário, mas há sempre aspectos que podem ser melhorados e optimizados, sobretudo se forem esperados o dobro dos participantes.

Pré-prova

O secretariado foi rápido e eficiente. Tenho por hábito estudar os pormenores todos das provas, de maneira que não tinha grandes dúvidas quando lá cheguei, mas daquilo que pude observar tenho a certeza de que só ficaria com dúvidas sobre algum tema quem quisesse ou quem não perguntasse.

Não existia uma grande feira de Expositores, estava limitada a quatro empresas que apresentavam algum material, sem grandes novidades, e que à falta de alternativas terão feito alguns negócios.

O local de refeições e onde decorreu a Pasta Party era contiguo ao secretariado, e foi suficiente para albergar todos os que optaram por esta refeição. Massa bem confeccionada, com várias alternativas de molhos e possibilidade de repetir, gostei bastante. Eventualmente se para o ano forem o dobro das pessoas, terão de considerar dois turnos de refeições ou outro local para este fim.

Durante a Prova

Há três pontos a realçar durante a prova: os pontos de controlo, os abastecimentos e as marcações.

Os pontos de controlo foram muito e quase sempre efectuados de forma electrónica. Outras vezes eram efectuados de forma manual, por voluntários ou membros da Guarda Florestal, que se encontravam à entrada e saída de troços de dificuldade acrescida. Houve alguns pontos de controlo electrónico que não funcionaram correctamente devido à falha de energia. Umas baterias extra deverão solucionar esse problema em edições futuras.

Os abastecimentos do MIUT não sendo maus também não foram bons. É claro que em 10 abastecimentos há sempre uns melhores que outros, e a experiência vai sempre variar de atleta para atleta, também com o número de pessoas que encontram em determinado momento num determinado abastecimento. Não posso apontar a falta de alimentos em massa como já assisti noutras provas, sendo a distribuição equilibrada entre fruta, salgados, bolos e bebidas. O pior foi nos abastecimentos onde supostamente haveria sopa, e onde na realidade esta faltou muitas vezes. E o motivo para mim é óbvio: numa prova onde esperam 400 participantes de uma prova, que a partir de determinados pontos de controlo esperam o dobro e o triplo dos atletas, à medida que os pontos de controlo absorvem os atletas dos 115, 85 e 42 quilómetros, não se pode fazer sopa numa panela que a minha Mãe utilizaria para fazer sopa para 6 ou 8 pessoas no máximo. Deveriam sim, ter um panelão de sopa sempre pronto a sair. Apenas a partir da Portela vi panelões de sopa nos pontos de abastecimento, até lá foram sempre panelinhas, com o auge no ponto de abastecimento do Poiso, onde só já havia mesmo caldo para comer.

As marcações do MIUT são simplesmente irrepreensíveis. É impossível perdermo-nos, apesar de ter visto alguns atletas perderem-se à saída do ponto de controlo do Rosário e irem em sentido contrário ao da prova. Seguiram um atleta que foi tirar umas fotos e não repararam nas marcações do trilho. Voltando às marcações, estas são fantásticas, de dia ou de noite sempre brilhantes e visíveis com reflector, e ainda com luz pisca-pisca sempre que necessário.

Pós Prova

A prova terminou em Machico e tive direito a uma espécie de refeição, um prego, com duas fatias de pão enormes e meio bife que não acompanhava a grandeza das fatias de pão. Não tinha muita fome e como era o meu pequeno-almoço foi suficiente. Mas penso que poderia estar algo mais reconfortante à espera dos atletas.

O processo de levantar o saco com roupa lavada foi rápido e expedito. Já o local para banhos e duches deixa algo a desejar, de tão pequeno e limitado. É certo que talvez 80% ou mais dos atletas tenha ficado em hotéis da zona de Machico, mas quem não ficou merece tomar um duche em condições antes de se fazer à estrada para outro ponto da Ilha.

Precisamente por estar fora de Machico, não tive oportunidade de assistir à entrega dos prémios, mas dos relatos que me fizeram terá sido uma cerimónia bastante bonita e interessante de se assistir.

Os atletas, os trilhos e o lixo

O ponto que marcou mais negativamente o meu MIUT foram os atletas, mais precisamente o lixo que estes deixaram ao longo de todo o percurso. Esta foi a primeira prova onde me senti triste por constatar que há muitos atletas que participam em provas de trilhos e não respeitam minimamente a natureza. O volume de lixo de embalagens de géis, barras energéticas, e outras coisas tais, não biodegradáveis, deixados ao longo do percurso é indescritível e dará certamente para encher dois ou três sacos de lixo dos grandes. Onde está o espírito de deixar apenas a pegada no trilho? Onde está o bom senso de levar o próprio lixo até ao próximo ponto de controlo? E sim as pontinhas de cima das embalagens de gel também são lixo, muitas pontinhas no chão fazem quilos e quilos de lixo como os que foram espalhados na Madeira. Este é um problema que precisa ser solucionado rapidamente em todas as provas, e que precisa da colaboração e bom senso de todos os que participam em provas de natureza.

Em resumo, o Madeira Island Ultra Trail é de facto uma prova 5 estrelas, diferente, difícil e divertida, que recomendo como experiência a todos aqueles que gostam de correr na natureza. Com a preparação devida é uma prova que se consegue fazer até ao final e as paisagens e os locais que cruzamos valem bem cada minuto do nosso esforço.

Um agradecimento final ao Instituto de Medicina Tradicional e o Kalorias LAV que me permitiram recuperar e treinar para atingir as condições mínimas a fazer o MIUT que vos descrevi, e um abraço especial a todos os amigos que me foram acompanhando ao longo do percurso e mandaram mensagens de apoio e carinho, que foram sem dúvida uma motivação extra para dar mais um passo rumo à meta.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Published byNuno Gião

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km… Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

13 Comments

  • Sérgio Pontes

    23/04/2015 at 15:47 Responder

    Muitos parabéns! Que grande aventura

  • Filipe Torres

    23/04/2015 at 21:04 Responder

    Muito bom! Vemo-nos lá em 2016? 🙂 Ah, já agora, aquele Mitic. Apraz-me dizer uma coisa: FONIX!!!!!

    • Nuno Gião

      23/04/2015 at 22:22 Responder

      🙂 Lá mais para o final do ano, quando pensar quais vão ser os objectivos para 2016, veremos se o MIUT entra ou não no calendário. 🙂 O que sei é que fiquei com vontade de repetir; desde que não tenha limitações como este ano será sempre uma boa hipótese. 😉 Quanto ao MITIC é uma espécie de MIUT mas com mais 3000m D+. É quase a mesma coisa mas um bocadinho mais inclinado e sem degraus 😀

  • lourencobray

    24/04/2015 at 21:53 Responder

    Belíssimo relato. Eu estou fisgado em fazer o MIUT em 2016 e este relato apenas aguçou a vontade. Parabéns pela superação das dificuldades e ser finisher e força para passar essa lesão.

    • Nuno Gião

      24/04/2015 at 21:56 Responder

      Obrigado 🙂 é uma prova muito bonita e diferente, vai sem medos para o ano 😉

  • Sandra

    30/04/2015 at 00:22 Responder

    Amigalhaço Gião, grande aventura. Depois deste relato gostaria de dizer que, em 2016, lá estaria a ver o nascer do sol, no Pico do Areeiro. Mas tantas escadas deixaram-me tonta. Mas será sempre uma experiência inesquecível, com recordações únicas e satisfação da vitória pessoal. E isso, no fundo, é o que mais importa. PARABÉNS mais uma vez e onde é que anda o resto da Poncha? 😉

    • Nuno Gião

      30/04/2015 at 12:22 Responder

      Treina com convicção e em 2016 o MIUT espera-te para algumas horas de animação 5 estrelas 😉

  • […] maneira possível é tentar gerir os limites mínimos da forma actual e esperar que, tal como no MIUT, tudo corra pelo […]

  • […] Trail, deitou abaixo o meu objectivo de completar três ultras de três dígitos no ano de 2015. MIUT, MITIC e UTCAM eram os objectivos, e o azar no MITIC “ia” deitando tudo a perder. E agora digo […]

  • […] foi o de completar três provas acima de 100 Km em 2015. Escolhi para concretizar esse objectivo o MIUT (a amarelo na imagem), o Andorra Ultra Trail Mitic (a castanho) e o Ultra Trail Côte d’Azur […]

  • […] pontualmente obrigam a trocar o ar livre pela sala do Kalorias. Foi assim o ano passado antes do MIUT e é assim agora antes dos 101 […]

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