Tróia – Sagres 2015

Há cerca de dois meses atrás decidi embarcar na aventura de fazer os 200 Km do evento Tróia – Sagres em bicicleta. Este é um evento não organizado em que participam alguns milhares de ciclistas e que é, talvez, um dos maiores eventos populares do ciclismo nacional.

Num evento em que participa uma massa tão grande de pessoas, porque considero que isto para mim é uma aventura? Por três factores simples:

  • Nunca fui ciclista e nunca tinha dado voltas maiores que talvez 10 a 15 Km;
  • Há cerca de 8 anos que não andava de bicicleta;
  • Não percebo nada de bicicletas e há dois meses atrás nem bicicleta tinha.

A meu favor tinha a consciência de que o kit de pernas é bom e a certeza de que não seria este que iria por em causa esta aventura.

Quando partilhei a ideia da participação no Tróia – Sagres o ruido foi o do costume, uns chamaram-me maluco, outros disseram que seria impossível, outros acharam piada e alguns até se quiseram juntar à aventura. Nos menos optimistas retive sobretudo as palavras sábias do Miguel Pisco, que me disse que esta ideia tinha tudo para correr menos bem, mas que me apontou vários caminhos para que pudesse mitigar a falta de experiencia nas duas rodas, os quais lhe agradeço e me foram bastante úteis para a aventura de ontem.

A cerca de um mês do evento, quis o destino que no passatempo de aniversário da Decathlon Portugal, fosse presenteado com uma bicicleta. Uma bicicleta de BTT de entrada de gama, com dois pedais e duas rodas, os requisitos mínimos para me lançar até Sagres. Se tivesse de baptizar esta bicicleta como muitos dos meus amigos fazem, teria de lhe chamar o “Chaço”. Não tenho a mínima dúvida de que tive de dar ao pedal muito mais do que outros companheiros de jornada com bicicletas um pouco melhores, já para não falar daqueles que têm máquinas todas artilhadas, que até parece que não precisam de ninguém a pedalar para voarem pelo alcatrão fora.

Tinha agora três semanas para treinar no “Chaço”, adaptar-me a passar algumas horas no selim da bicicleta e tentar treinar ritmos superiores a 20Km/h, porque o objectivo do Tróia – Sagres é também chegar a Sagres antes do sol-pôr. Nestas três semanas rolei 540Km e não tive dificuldades de adaptação ao Chaço. Fiz treinos mais longos, alguns em condições adversas, e tudo correu da melhor maneira, pelo que estava optimista para o dia de ontem.

O ponto de encontro para Tróia foi o parque de estacionamento do ferry em Setúbal, às 5h30 da manhã para apanhar o ferry das 6h15. Para facilitar a logística aderi ao grupo da Bike & Nutrition Shop, que organizou tudo para que a viagem de regresso e o apoio durante o evento corresse do melhor modo para todos os que se juntaram a esta organização.

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6h00 e foi a entrada para o ferry. Nunca tinha visto tantas bicicletas juntas. O pessoal estava animado e entusiasmado como em muitas outras provas de corrida em que já participei. Para variar há sempre amigos que não preparam em condições as suas participações e, ainda antes de tudo começar, cedi a camara de ar que levava para qualquer eventualidade a uma mente menos preparada. Valeu-lhe a sorte de estar num grupo de engenheiros/mecânicos que durante a travessia de Setúbal para Tróia desmontaram pneu, trocaram camara de ar e voltaram a montar tudo em condições. Todos se queixavam do frio da madrugada, mas eu não notei nenhuma diferença para os outros dias em que treino aquela hora, apesar de estar fresquinho para mim estava tudo normal.

A minha estratégia para esta aventura estava definida desde há dois meses atrás: sair de Tróia por volta das 7h e chegar a Sagres ante do sol-pôr, o que equivale a dizer entre as 17h00 e as 18h00, sendo que o autocarro de regresso a Setúbal sairia de Sagres às 18h30. Pareceu-me exequível e desde há dois meses quando partilhei esta ideia e foram vários os que se juntaram com a intenção de participar nestas condições, à medida que não foram treinando foram abandonando a ideia ou definindo outros objectivos, pelo que acabei, mais uma vez, por ficar com Nelson Marques para partilhar o percurso. Já no ferry a Marta e o Taboas juntaram-se a nós e manifestaram intenção de fazer um ritmo parecido ao meu objectivo, pelo que acabámos por arrancar os quatro.

A saída do ferry foi, mais uma vez, em ambiente de festa. Eram centenas ou milhares de bicicletas a rolar do ferry para a estrada, milhares de luzinha a piscar na escuridão da madrugada. Chegados à estrada era muita a confusão. Centenas de carros, muitas outras centenas de ciclistas, tudo pronto para pedalar em direcção a Sagres. Eram tantas pessoas e bicicletas, que falhámos a foto de grupo da Bike & Nutrition e por sorte não nos perdemos uns dos outros. Não havia tempo a perder, estava fresquinho e era começar a pedalar rumo a sul. Partimos.

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Os primeiros quilómetros queriam-se tranquilos, para aquecer as pernas e habituar o corpo a um ritmo que iria aumentar nas horas seguintes. A multidão que estava concentrada em Tróia ia partindo dispersa em grupos mais pequenos e com ritmos variáveis. Os milhares de luzinhas brancas e vermelhas a circular eram um espectáculo dentro do espectáculo. Ao fim de três quilómetros já se conseguia rolar tranquilamente sem receio de nos misturarmos noutro pelotão e o Taboas propôs seguirmos em fila indiana para facilitar a pedalada. A intenção foi boa, mas arrancou logo para ritmos na ordem dos 30Km/h e ninguém estava quente o suficiente para aguentar aquele ritmo apenas com três quilómetros nas pernas. Por outro lado também não me sentia confortável o suficiente para seguir tão colado na roda de outro ciclista, faltam-me ainda muitas horas de prática e claro uma bike que permita pedalar a esses ritmos e que dê mais confiança. Rapidamente o nosso mini pelotão de quatro ficou partido e após meia dúzia de quilómetros o Taboas recuou para rebocar a Marta e eu e o Nelson seguimos nos nosso ritmo. Pouco antes de chegarmos à Comporta o sol começava a despontar no horizonte. Foi uma viagem tranquila onde deu para desfrutar uma paisagem em locais onde só costumo passar de carro. Comporta, Pinheiro da Cruz, Melides, Santo André e Sines ficaram para trás e chegámos ao quilómetro 70, onde estaria o carro de apoio à nossa espera para a primeira paragem. Aqui encontrámos o Luis Parro que também seguia nesta aventura no grupo da Bike & Nutrition. Depois de 3 horas a pedalar estávamos com fome e aproveitei para comer uma banana, um pão com passas e nozes e, o meu doping habitual, a famosa sandes de presunto. Hidratos recarregados e toca a partir rumo à próxima paragem programada em Rogil ao quilometro 140.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
10:43:05 09:18:37 200.64 21.55 51.12 1,531.40
hours hours km km/h km/h meters

Partimos de novo em bom ritmo. Vários pelotões passavam por nós a ritmos alucinantes enquanto nós íamos rolando ao nosso ritmo, ora sozinhos ora extemporaneamente na companhia de pequenos grupos de outros ciclistas que seguiam num ritmo parecido ao nosso. Depois de passar Porto Covo dei conta de que tinha perdido o Nelson. Decidiu parar para beber café e outras necessidades e não me avisou, pelo que no meio de tantos ciclistas, todo o ruido do vento e da velocidade, é difícil perceber se quem vem atrás de nós fica para trás se não nos avisar. Entretanto apanho novamente o Parro, que tinha parado para reabastecer, e parei também para ver se o Nelson aparecia. Esperei uns minutos, passaram centenas de ciclistas e nem sinal dele. Arranquei com o Parro e seguimos os dois até Vila Nova de Mil Fontes, onde o Parro se atrasou um pouco na subida seguinte à ponte que atravessa o Rio Mira. Entretanto continuava preocupado com o desaparecimento do Nelson e à passagem do Almograve decidi parar para lhe ligar, estava no quilómetro 106. Entretanto passa o Parro e mandei-o seguir que já o apanhava. Sabendo agora que o Nelson estava 3 quilómetros atrás de mim, segui num ritmo mais moderado na esperança que ele recolasse. Foi então que cheguei ao fatídico quilómetro 109.

Seguia a rolar calmamente junto à berma da estrada, quando um pelotão com alguma dezena de ciclistas vai a passar a alta velocidade por mim. Num piscar de olhos, um dos ciclistas desse pelotão cai e gera-se o caos. Só tinha assistido a quedas destas na televisão e para ser sincero foi uma experiência brutal num sentido menos positivo. Tinha bem presentes as palavras do Pisco acerca da falta de experiência de rolar em pelotão, e por esse motivo tentei sempre seguir ou com o Nelson ou em pequenos grupos de 3 ou 4 ciclistas. Ia ali eu sozinho com os meus pensamentos e de repente vem um ciclista a rebolar no chão do meio da faixa de rodagem para a minha frente. O barulho das bicicletas no chão e do trambolhão de mais 3 ou 4 ciclistas que não conseguiram evitar a queda por cima do ciclista que caiu primeiro parecia um trovão a irromper o céu. Nem tive tempo de exclamar um FO..-… Num segundo tinha o ciclista à minha frente e apesar de travar violentamente e me desviar o mais que pude, acertei-lhe em cheio com a roda da frente no capacete. Nem percebi como consegui não cair também e felizmente ninguém mais veio para cima de mim. Isto pensei eu, porque o “Chaço” deve ter levado uma pancada bem forte que não percebi. O grupo em que seguia o ciclista acidentado ficou a cuidar dele, e depois de garantir que estava tudo controlado dei seguimento à minha jornada. Recoloco a corrente nos carretos, pedalo uns metros, e sou abordado por outro ciclista que tinha assistido a tudo a questionar-me se também tinha caído. Disse-lhe que não e ele relatou-me o que originou a queda e avisou-me que devia ter um problema na bike, pois ele vinha atrás de mim e antes do acidente a roda estava boa e agora estava toda empenada. Desta vez tive tempo para exclamar um Fo..-..! Desmonto o Chaço e constato efectivamente que a roda de trás estava agora em modo “bailarina” completamente empenada. Pior ainda verifico que a da frente estava em igual estado. Verifiquei que apesar do empeno as rodas não batiam nos travões e decidi prosseguir viagem.

Mais uns quilómetros rolados e constato que as mudanças também ficaram desafinadas e que os travões fazem agora uns barulhos esquisitos. O que até ali tinha sido um passeio requeria agora cuidados redobrados para chegar ao fim. Muitas vezes pensei se o Chaço se iria aguentar até Sagres, em cada descida que fazia pensava se os travões não iriam falhar ou se a corrente não iria saltar, mas o Chaço acabou por se portar bem e resistir como um bravo até ao fim. O que acabou mesmo foi o conforto. Se já não era muito, a partir do quilómetro 109 passei a sentir cada imperfeição da estrada nos braço e infelizmente os 90 quilómetros que faltavam eram talvez aqueles com pior piso. Cada 10 ou 15 quilómetros que andava, tinha agora de parar para descansar e relaxar braços e mãos que teimavam em ir ficando dormentes. Parava cinco minutos, ficava tudo ok e retomava a jornada.

Entretanto o Nelson apanha-me pouco antes da subida de Odeceixe. Aqui a falha da Bike & Nutrition que indicou que o carro de apoio estaria no quilómetro 140, antes desta subida, e erro meu que não validei que o Rogil era ao quilómetro 145 depois desta subida. Felizmente tinha a alimentação controlada e não houve stress para fazer esta subida. Bem, não houve quase stress, porque a meio da subida saltou a corrente e lá tive de parar para recolocar tudo no lugar e retomar a subida a meio, situação que seja de carro ou de bicicleta nunca é a melhor. Mais um esforço e lá avistamos o Rogil já ao quilómetro 145. Paramos e lá estava o Parro também a reabastecer. Se na paragem anterior chegámos com 1h30 de avanço, aqui chegámos com 1h00 de atraso. Ponto positivo para a Bike & Nutrition que esperou por nós. Entretanto avisaram-nos de que o Taboas e a Marta iriam abandonar e ficar pelo Rogil quando lá chegassem.

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O Parro sai, eu e o Nelson ainda reabastecemos e recuperamos mais um pouco mas saímos pouco depois. Passados uns metros vem o Parro em sentido contrário a dizer que estava com cãibras e que iria ficar por ali. Seguimos eu e o Nelson rumo a Sagres. Faltavam 50 quilómetros e já sentíamos que só um grande azar nos faria não chegar a Sagres ainda de dia. Desta vez o Nelson seguiu à frente e eu ia parando de 15 em 15 quilómetros para relaxar os braços. Também não tinha todas as mudanças e não conseguia rolar à velocidade máxima que o Chaço permitia, pelo que ia resignado ao meu destino e rolava conforme a bike deixava. Uma palavra de apreço para outros carros de apoio que esperavam pelos seus atletas e que me atestaram o bidon de água sempre que foi necessário. Passei Aljezur, a Carrapateira e a Vila do Bispo e alguns quilómetros à frente lá estava o Nelson à minha espera para seguirmos juntos até Sagres. Foi rolar até ao Posto de Turismo de Sagres e chagar ao fim feliz por mais uma aventura conquistada. Tiradas as fotos da praxe, ainda pedalámos até ao Parque de Campismo da Orbitur, para tomar um duche, comer uma bolonhesa que muito bem nos soube e onde a restante comitiva nos esperava para o regresso a Setúbal.

No total foram 200 quilómetros a pedalar em 9h18 (paragens não contabilizadas), numa experiência inolvidável e que será certamente para repetir.

Obrigado à Bike & Nutrition pela organização dos carros de apoio e pela viagem de regresso.

Uma bjoka especial para a Filipa Vilar que sofreu um acidente, infelizmente com algumas consequências físicas, mas que ainda assim prosseguiu estoicamente até Sagres. Votos de rápida recuperação Filipa.

E um agradecimento especial ao Kalorias de Linda-a-Velha e ao IMT Instituto de Medicina Tracional que proporcionam que afine a forma para concretizar com sucesso estes desafios.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

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Agradeço desde já a vossa participação. 😉

Sobre mim…

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km... Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

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