The Coastal Challenge 2016

The Coastal Challenge 2016

Tomei a liberdade de partilhar aqui no blog o texto do Carlos Sá sobre a sua participação na The Coastal Challenge 2016, uma prova que se realiza na Costa Rica e repleta de paisagens deslumbrantes.

Sem dúvida uma das provas que está na minha “to do list”, mas cujo custo de participação se encontra num nível pouco acessível aos comuns mortais.

The Coastal Challenge, Rainforest Run. Official Video. © Tim Holmstrom from The Coastal Challenge. TCC on Vimeo.

Quando muitos pensariam que o Carlos Sá já estava morto e enterrado, com uma época de 2015 menos conseguida, fruto talvez das lesões que o apoquentaram, e também porque já não vai para novo e cada vez será mais difícil competir com o pessoal mais jovem e no auge da disponibilidade física, eis que este surge aqui na The Coastal Challenge com um excelente 3ºlugar, numa competição masculina repleta de nomes sonantes do trail, e a prometer uma Maratona des Sables de grande nível.

Além de ser um atleta de grande nível, o que mais admiro no Carlos Sá é a sua simplicidade e prazer de competir para desfrutar dos locais onde se encontra. Revejo-me completamente no seu espírito de competição e de aventura. Diria mesmo que a única coisa que nos separa é estarmos nos extremos opostos do pelotão. 🙂

cs3

Na minha modesta opinião, apesar dos atletas de grande qualidade e de elevado nível que vão surgindo em Portugal, o Carlos Sá continua e vai continuar a ser por muito tempo e por todos aqueles que correm os trilhos por puro prazer, a maior referência entre todos nós.

Partilho então as palavras que o Carlos Sá escreveu na sua página sobre a sua participação na The Coastal Challenge 2016.

The Coastal Challenge 2016

Participei nesta aventura tropical em 2014 pela primeira vez. A Costa Rica é um país fantástico para quem gosta de natureza e aventura. Essa minha participação começou da pior maneira uma vez que ao chegar à meta da primeira etapa encontro sempre marcações sem ver a dita meta, corri mais 30km`s sem água, exposto a um clima muito difícil, cerca de 40º e mais de 80% de humidade. Já custava a raciocinar e achava ter a informação que a meta seria junto a um rio. Percebi realmente o que me aconteceu só 15km depois, ao chegar a uma povoação. Tinha entrada na etapa seguinte que estava continuamente marcada com a primeira. O que falhou? Um voluntário ou deixarem 200m por marcar da etapa nº2.

Continuei em prova mesmo terminando em último e com mais de 4 horas de diferença, completamente desidratado. Quando a organização me disse que não sabia o que fazer eu disse que não deveriam fazer nada. Somos desportistas, gostamos de competir, é verdade, mas essa nunca poderá ser a prioridade. Toda a gente ficou admirada com a minha reação, mas acho que é desta forma que devemos estar no desporto e na vida.

Nesse mesmo ano de 2014 tive a minha melhor participação de sempre na Marathon des Sables (MDS), mesmo que tenha igualado o 4º posto de 2012, consegui correr a uma velocidade muito maior e só não fiz melhor porque os Africanos eram muitos e estavam todos muito fortes.

Este ano tive novamente o convite para participar na The Coastal Challenge. Inicialmente recusei. Estava com muita vontade de conhecer a Patagónia e, nesta altura temos muita oferta de grandes provas. Mas, depois da insistência da Ester Alves que foi também convidada, da insistência também por parte da organização e, sobretudo, por querer sair bem da minha, mais que provável, última participação da maratona das areias, decidi voltar à Costa Rica.

Esta prova é muito rápida. Corremos cerca de 70% do percurso por caminhos de terra e praia, com algumas variações técnicas por rios e trilhos de pura selva, com um clima ainda mais extremo que no Saara, devido à humidade, mas com a facilidade de correr sem mochila, com abastecimentos a cada 10km e com comida com fartura depois da corrida. Portanto, um excelente estágio para a Maratona das Areias, a 7 semanas de distância.

Habitualmente vêm corredores muito rápidos. Este ano não foi exceção, com a presença de um bom leque de especialistas como: Iain Don-Wauchope, da África do Sul, vencedor do ano passado; Gonzalo Calisto, 5º no UTMB 2015, um jovem do Equador que vive a 3000m de altitude; Ashur Youseffi da Costa Rica, 2º classificado no ano passado e seu amigo Neruda Cespedes; Chema Martinez, um dos melhores de sempre em Espanha; Miquel Capo Soler, 3º a MDS; Damian Hall do Reino Unido, e muitos outros… Devido ao meu atual momento de forma, fazer melhor que o 6º da última participação e sair sem mazelas já ficaria muito satisfeito!

A primeira etapa saiu às 10h da manhã. Como sempre saí muito cauteloso e avisei os meus colegas que ao fim de 1 hora iriam sentir um choque brutal de calor. Esta etapa é percorrida praticamente toda por caminhos de terra, que convida os atletas a acelerarem, e um grupo embalou logo abaixo de 3:40min/km. Ao fim de uma hora, como previa, já o Miguel Capo sofria de grande desidratação e fadiga e por aí continuava. Chema, também habituado a estas andanças, mas a correr muito com o coração, foi outra vitima. Terminei bem e com boas sensações.

Nas etapas seguintes percebi que o Iain da África do Sul estava muito melhor preparado que nós e seria uma competição à parte caso não cometesse erros. Percebi também que este jovem do Equador que vi passar por mim no Grand Col Ferrer no UTMB, e que não conhecia, afinal era o mesmo que dois anos antes me pedia para tirar uma foto junto com Marco Olmo em Chamonix. Gonzalo vive em Quito, a 3000m de altitude, sai da porta de sua casa e tem trilhos até aos 4700m. Brinquei com ele que eu tenho apenas menos um zero, o ponto mais alto de Barcelos são 400 e poucos metros… Gonzalo tornou-se uma boa companhia, partilhamos praticamente toda a aventura e sabíamos que se nos ajudássemos mutuamente, dificilmente o pódio nos fugia. As duas últimas etapas eram praticamente todas em estradão, portanto, bem ao jeito dos roladores, e perder 1h aqui é muito fácil se tivermos algum problema físico. Quando estávamos em sofrimento só pensava nos milhares de amigos que têm limitações ou estão “presos” num escritório ou numa fábrica e certamente não se importariam de estar no nosso lugar a descobrir e viver este nosso Mundo fantástico. Somos de facto uns privilegiados!

Felizmente tudo me saiu como planeado ao fim da primeira etapa e vibrava com a crescente evolução da Ester. Ela teve uma grande aprendizagem nestas andanças e se continuar com esta raça e a ter mais oportunidades, pode fazer uma muito boa carreira.

Penso que foi uma aposta ganha. Esta aventura continua na “maratona das areias” (MDS). Vai ser muito duro, depois do desastre do ano passado, onde tudo me correu mal, mas acredito que posso, mais uma vez, conseguir um bom resultado na minha sexta participação.

Obrigado aos meus patrocinadores e a todos vós que me dão força desse lado!!!

Abraço amigo
Carlos Sá”

CS1

É por tudo isto que digo que o Carlos Sá continua a ser o maior, um verdadeiro campeão e uma inspiração para todos nós, e lhe desejo a maior das sortes para a Maratona des Sables.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

Nota: Fotos do fotógrafo e jornalista Ian Corless

 

Published byNuno Gião

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km… Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

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