A descida ao inferno

A descida ao inferno

MIUT 2015, Estanquinhos, 7h00 da manhã. O meu estado de espirito era de satisfação. Afinal tinha chegado ao primeiro ponto de bloqueio da prova uma hora do previsto.

Mal sabia eu que iria começar ali, aquela que intimamente apelidei, “a descida ao inferno”.

Para vos enquadrar de novo no meu MIUT, recordo que estava algo condicionado num dos meus tornozelos, o que me impediu de treinar convenientemente para a prova e que à data da mesma, apesar de seguir relativamente tranquilo, não tinha a confiança necessária para abusar em movimentos de pés mais bruscos, o que invariavelmente me levou a cumprir todas as descidas com o máximo cuidado possível na tentativa de evitar qualquer imprevisto que obrigasse a abandonar a prova.

O troço é o Estanquinhos – Rosário. São pouco mais de 9 quilómetros sempre a descer com pouco mais de 1000 metros de desnível negativo.

7h00 da manhã e ainda é de noite. Assim que entro na descida percebi imediatamente que não ia ser fácil. Por um lado o solo era macio, parecia que convidava a uma descida rápida… Por outro lado estava muito húmido da cacimba matinal e de alguns aguaceiros nocturnos. Seria necessária prudência.

À medida que ia progredindo ia descobrindo novas “armadilhas”, ao melhor estilo de um jogo de arcada, em que a dificuldade vai aumentando com a nossa progressão.

Percebia agora que esta descida ia dar água pela barba. Seria necessária muita prudência.

Àquela hora a cor castanha do solo escondia muitas raízes e pedras de tonalidade que se confundiam com o solo, o que a juntar ao declive do terreno tornavam cada passo uma verdadeira aventura.

Frontal ajustado numa potência que me permitia ver o chão o melhor possível, bastões sempre à frente a apalpar terreno, descida muito controlada em passinhos pequenos (para não dizer pequeníssimos), e uma dose de concentração extra, focada apenas no solo que estava imediatamente à minha frente, foram a receita para chegar ao Rosário são e salvo.

Ainda assim não me livrei de três trambolhões, felizmente sem consequência, mas onde num deles ainda deslizei uns bons metros em “sku” pela serra abaixo.

Da paisagem em si não tenho memória, mas lembro-me perfeitamente quase de cada um dos novecentos mil centímetros desta descida. Lembro-me também de ser passado por muitos atletas e de passar outros tantos. Muitos foram atraiçoados pelo apelo à velocidade desta descida e acabaram por dar uns valentes trambolhões. Recordo-me perfeitamente de uma atleta que após uma queda não ficou em condições de prosseguir em prova.

A minha “descida ao inferno” demorou quase 1h50. Em condições normais, físicas, diurnas e atmosféricas, diria que era coisa para ser feita tranquilamente em menos de 1 hora.

Muita prudência é o que recomendo aos amigos que vão passar por lá daqui a uns dias.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

 

Published byNuno Gião

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km… Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

2 Comments

  • Filipe Torres

    12/04/2016 at 10:27 Responder

    Para mim, as descidas podem ser bastante mais complicadas que as subidas. É muito dificil explicar isto a alguém que não faz trail, ou pelo menos trail com descidas de 2 ou mais quilómetros, mas quem passa por isso concorda imediatamente. No MIUT há duas descidas que são uma brutalidade, esta que falas e a anterior, do Fanal para o Chão da Ribeira. É muito difícil para nós, continentais que não vivemos junto a uma grande Serra, treinar descidas a sério, e quando nos aparece pela frente um monstro daqueles é que nos apercebemos. Ah, e no UTMB vamos apanhar pelo menos duas descidas com mais que 1200 metros verticais!

    • Nuno Gião

      12/04/2016 at 11:39 Responder

      As descidas podem ser complicadas por vários factores, aqui neste caso particular, tendo a consciência de que tinha o tornozelo condicionado não quis arriscar nem um mm que pudesse comprometer o terminar a prova. Felizmente consegui 🙂 Este foi o factor miúfa 😉 Mas há outros. Muito pessoal não treina as descidas, talvez por não ter consciência de que há um trabalho muscular muito diferente a descer e a subir, e de que as descidas danificam muito mais a massa muscular do que as subidas. Acontece muito o pessoal sentir-se bem e esticar a descer e as pernas darem o “berro” quando se recomeça a subir ou mesmo em plano. Este é o factor abuso e falta de treino nas descidas. Se se treinar tanto as descidas como as subidas e se se fizer o devido reforço muscular, este factor pode ser muito mitigado.
      Para o UTMB hajam pés e tornozelos e as descidas serão +- tranquilas 🙂 NO UTCAM fiz quatro descidas dessas, uma das quais com mais de 1400m D- e devido aos factores envolventes foram todas mais tranquilas que no MIUT. Bem houve uma, a penúltima já ao km 120, em que se desciam cerca de 1000m em 9Km, em que o trilho apesar de simpático era recheado de erva húmida, o que “obrigou” a meia dúzia de “skus” até chegar lá abaixo. Felizmente todos sem consequências.

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