Alcains Trail Camp – Dia 1

Alcains Trail Camp – Dia 1

O primeiro dia do Alcains Trail Camp foi brutal.

O menu era apelativo: ponto de partida em Alvoco da Serra, subir o 1,5 Km vertical até à Torre, descer até à Loriga, mais 1 Km vertical até à Torre e descer 1 Km vertical até Alvoco da Serra. O total, cerca de 50Km e 3500m de desnível positivo pela Serra da Estrela.

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A alvorada foi às 5h00. A partida seria às 7h00, mas os mais de 30 bravos do pelotão foram-se atrasando aqui e ali, e acabámos por começar já depois da 8h00.

O grupo era de meter medo, tal o número de tubarões ali presentes, Miguel Batista, José Serrano, Bruno Fernandes, Didier Valente… só para citar alguns. Não iria ser fácil, ou melhor, não seria possível de todo segui-los, pelo que tinha o track bem estudado pois já previa que iria andar muito tempo sozinho na serra.

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Os primeiros 4km foram de aquecimento a descer em direcção ao ponto de início do 1,5Km vertical. O pelotão seguiu compacto apesar do ritmo já vivaço. Afinal a descer todos os santos ajudam e de certeza que ali ainda iam muitos santos a acompanhar-nos.

O pior foi depois.

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Começa a subida, os tubarões mantiveram o ritmo vivaço, e o pelotão lá se foi partindo aqui e ali formando-se diversos grupos a diversos ritmos. O quilómetro e meio vertical tem pouco menos de 12Km de distância, e dizem as más-línguas que os tubarões subiram em cerca de duas horas. As mentes, pernas e/ou pulmões menos preparados, demoraram quase três. (Treinasses!…)

O troço da Torre até Loriga foi talvez o mais confuso. O track disponibilizado não tinha muitos pontos e quase deixava à imaginação de cada um a direcção a seguir, pelo que aqui houve enumeras variantes seguidas por cada um dos pequenos pelotões que se formaram.

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Eu ia ao meu ritmo e acabei seguindo sozinho neste troço. Segui as “minhas” regras básicas de orientação: tentar seguir o rumo que o GPS me dava entre pontos, seguir as marcações da rota do Vale Glaciar da Loriga, e seguir as mariolas para perceber e/ou descobrir o trilho, e assim consegui nunca me perder, consequência que muitos outros amigos tiveram talvez por efectuarem uma orientação menos atenta.

O reverso da medalha foi o de que com tanta orientação não conseguia manter um ritmo de corrida consistente, mas nesta altura do campeonato o que me interessa é chegar inteiro a Chamonix.

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O Vale Glaciar da Loriga é espectacular. Apesar de estar no programa há muito tempo, nos últimos dois anos os fogos andaram lá perto e impediram sempre que fizesse este percurso por altura dos meus Trail Camps. Trilhos técnicos qb, algumas partes rolantes, cães a guardar rebanhos aqui e ali, alguns turistas a fazerem caminhadas, cruzei-me com um pouco de tudo neste troço. Cheguei à Loriga e o grupo dos tubarões já tinha almoçado e iniciava o percurso de regresso. Deixei-os ir e aproveitei para comer qualquer coisa também.

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Fiz-me ao caminho de volta que não queria chegar muito atrasado

A subida de Loriga para a Torre, pela hora do calor, custou bem mais que a descida da Torre à Loriga. Na subida inicial do troço Loriga – Torre, cruzo-me de novo com um grupo de caminheiros com quem já me tinha cruzado perto da central hidroeléctrica enquanto fotografavam um rebanho, os cães da serra e o pastor que os guardava. Cinco ou seis homens já barrigudos, equipados com máquinas fotográficas e objectivas quase proporcionais às suas barrigas. A caminho da Loriga passei por eles a correr, cumprimentei-os com um “bom dia”, que eles simpaticamente retribuíram enquanto pensavam “olha para este maluco aqui a correr”. Não comentaram mas de certeza que o pensaram. No regresso à Torre, antes de mim passou por eles o grupo dos Tubarões e quando se cruzaram de novo comigo não resistiram a comentar entre gargalhadas: “Você tenha juízo!!! Vai aí um grupo de malucos a correr serra acima… são doidos!!!” Desmanchei-me a rir enquanto visualizava tão bem esta imagem e só consegui responder: “não se preocupem que quem tem a chave do carro sou eu”.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
11:04:22 08:42:03 45.85 5.27 16.56 3,103.30
hours hours km km/h km/h meters

Enquanto subi à Torre fui-me cruzando com outros amigos que seguiam em direcção à Loriga. Uns porque se perderam, outros porque iam mais devagar, e afinal só sobrava eu para além dos tubarões a fazer o percurso inverso até Alvoco da Serra. Apesar da subida dura e do calor, segui tranquilo até à Torre, onde me aguardavam umas nuvens e vento fresco que me acompanharam na descida até ao Alvoco. Desci o quilómetro vertical tranquilamente para não danificar o material, e quando cheguei ao Alvoco já os tubarões tinham desfrutado da piscina e iam partir rumo à base em Alcains. Não tive outro remédio senão continuar a “correr”, enquanto mudei de roupa e me coloquei no encalço dos tubarões. Só vos posso dizer que de carro é bem mais fácil ir atrás deles, ou não fosse o meu apelido Gião.

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O repasto na Tasca do Manel foi mais uma vez muito bom, já na recepção de 6ªfeira o tinha sido também, e recuperámos as calorias entre um rolo de carne e uns tentáculos de polvo, com diversas guarnições à mistura. O recolher aconteceu já depois da meia-noite e muitos foram dormir com um ratinho no estômago com o desejo de ter comido uma fartura, que não havia na festa de Escalos de Cima.

Até o dormir foi a correr pois a alvorada para o segundo dia seria às 6h00.

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Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

 

Published byNuno Gião

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km… Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

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