The show must go on…

The show must go on…

Ter de desistir no Ultra Trail Mont Blanc foi como falhar o último penálti na final da Liga dos Campeões.

Foi sentir a festa, sentir todo o ambiente à volta da prova, partilhar momentos com muitos outras atletas, sentir as dificuldades e desfrutar das paisagens fantásticas do Monte Branco, e chegar ao fim e ver os outros levantarem a taça.

Não me sinto desiludido pois sei que fiz o melhor que consegui. Sinto-me chateado e irritado comigo próprio porque um erro estúpido, de rookie, mas de qual apenas sou o único responsável, comprometeu tudo o que ficou para trás.

E para trás não ficaram apenas os quase 100Km que corri no UTMB, ficaram também, os 1400 Km de treino específico para esta prova, os 150 Km do Ultra Trail Cotê d’Azur, os 115 Km do MIUT, os 82 Km do Arrábida Ultra Trail, e os mais de 3500Km com que preparei estas provas que me permitiram qualificar e participar no UTMB.

Sabia bem ao que ia, daquilo que fiz deu para perceber que o UTMB não é mais duro que o Ultra Trail Cotê d’Azur. Estava relativamente bem preparado (para o meu nível) e, nos 100Km que percorri, não cheguei a conhecer o homem da marreta. Muscularmente estava bem e tinha a percepção que podia ir mais longe sem problemas.

Literalmente, eu tinha a marreta nas mãos e deixei-a cair nos meus pés.

Decisão de última hora antes da partida, decidi calçar umas meias mais grossas do que aquelas com que treinei nos últimos meses. Pior do que isso, apesar das centenas de quilómetros que já corri com aquelas meias, nunca tinha experimentado o binómio meias + ténis com que iniciei o UTMB. O muito calor que se fez sentir e o acumular de quilómetros, fez com que os meus pés inchassem mais que o normal. Em conjunto com umas meias mais grossas que o habitual e os pensos que levava nos dedos, criei uma mistura explosiva que começou a surtir efeito logo a partir do Km 16 quando se iniciou a descida para Saint-Gervais. Não sentia os pés confortáveis, os dedos queriam sistematicamente ultrapassar a frente dos ténis, e ou os encolhia ou os deixava roçar na malha. Cheguei a Saint-Gervais com essa sensação de desconforto, mas os longos quilómetros seguintes sempre a subir atenuaram essa sensação de desconforto. O pior veio a seguir com a descida para Les Chapieux. Sem perceber bem porquê cheguei lá em baixo com os pés desfeitos e os dedos dos pés quase mortos. A subida seguinte atenuou novamente a dor, mas a descida até Lac Compal foi novamente demolidora e, sei agora, acabou com o que restava dos meus dedinhos. Cheguei a Lac Combal e fiz aquilo que já deveria ter feito há mais tempo, descalçar-me e trocar as meias. Too late. A unha de meu dedo grande do pé direito estava completamente em sangue e a cada passo a descer era como se me espetassem um prego quente na parte da frente do pé. Subi até ao Col du Mont-Favre a pensar no que seria a descida até Courmayeur  e quando comecei a descer foi simplesmente brutal, o misto de sentimentos entre a força para continuar e o sacrifício para descer eram contraditórios, e claro correr era impossível, e tive de me arrastar descida abaixo.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
22:38:45 18:24:28 96.94 5.27 34.92 6,060.20
hours hours km km/h km/h meters

Chegado a Courmayeur a queimar o tempo limite, apenas tive tempo para tomar um duche rápido e tratar dos pés o melhor que pude. A hora era de decisões: parar ou continuar. Decidi continuar. Tinha esperança que a subida que se seguia me animasse e animou. A subir não tinha dores por aí além e até ao refúgio Bertone ultrapassei umas boas dezenas de outros atletas. A triste realidade veio depois a caminho do refúgio Bonatti, num terreno relativamente rolante, as dores no dedo do pé aumentaram e impediam-me mesmo de correr. Comecei a fazer contas aos tempos e aos quilómetros e achei que o melhor era parar já que a situação do dedo do pé só iria piorar e dificilmente iria conseguir recuperar algum tempo naquelas condições.

Deitei-me na relva a observar as montanhas e decidi dormitar 30 minutos. Não consegui dormir mas a beleza da paisagem valeu cada segundo ali dispensado. Prossegui em direcção ao Refúgio Bonatti lentamente e a desfrutar a montanha. Cheguei ao refúgio e abandonei a prova. Falhei o penálti mas a vida continua.

Hoje foi dia de regressar às corridas. O dedo do pé direito continua em recuperação, meio dormente, ainda não totalmente recuperado da aventura, mas já aguentou 10 quilómetros sem problemas.

The show must go on!

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

Published byNuno Gião

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km… Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

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