Portugal Divide – Dia 5

Acordar sabendo que se vai pedalar até à Torre dá sempre aquele friozinho no estomago.

Por isso decidi sair assim que acordei e depois de arrumar toda a tralha e fazer o check-up à bicicleta. O tempo continuava nebulado mas agora sem sinais de chuva.

Cheguei a Celorico da Beira depois de pedalar 45 quilómetros, onde tomei o pequeno-almoço e ingeri mais algumas calorias antes de iniciar a grande subida. Cruzei-me novamente com um bikepacker espanhol que também pernoitou, dois dias antes, na Lagoaça. É giro perceber como todas as rotas se cruzam num ponto ou noutro, apesar de todos os percursos e objectivos serem diferente.

Já se percebe que há muito para subir e ainda nem se vê a Torre.

Os primeiros 65 quilómetros desta jornada foram bastante rolantes, dissipando o friozinho no estomago com que tinha acordado.

Num pulinho chego a Vila Cortês da Serra, onde pouco depois começam mais de 21 quilómetros sempre a subir, com uma média de 4,7% de inclinação. Excluindo as paragens, foram precisas duas horas e quinze minutos para subir este troço, onde cruzei Gouveia e Mangualde.

Depois atalhei até ao Sabugueiro pela estrada/caminho municipal 125 que intercala pequenos troços de bom alcatrão com outros de enormes buracos e pedras soltas na via. Ano após ano este troço não vê melhoras e sempre o conheci assim, pelo que todo o cuidado foi pouco nestes 4,5 quilómetros sempre a descer, com quase 7% de inclinação, onde os travões são testados em todos os momentos. Se a subir foram duas horas, para descer este troço 10 minutos foram suficientes, ficando sempre aquela sensação de que todo o percurso deveria descer sempre mais um bocadinho.

Repor energias e abastecer de água no Sabugueiro, antes da última e mais dura subida.

Chegado ao Sabugueiro encostei para repor energia antes da subida final. Faltavam agora 18 quilómetros até à Torre, com 7% de inclinação média, e onde se sobem dos 980 m para os quase 2000 m de altitude.

Conhecia bem o que me esperava e pedalei certinho até à Torre, não sendo enganado pelo constante serpentear da estrada até ao ponto mais alto, tendo demorado excluindo as paragens, pouco mais de 2 horas para completar esta subida.

Já se vê a Torre lá ao longe…

O ritmo de passeio que coloquei nestas dura subidas, deu-me a sensação que afinal não tinham custado tanto.

Chegar à Torre é sempre uma boa sensação. A hora do por do sol já se estava a aproximar e a beleza que vislumbramos do topo da serra é particularmente indescritível ao final da tarde.

Foi hora de honrar a subida com a tradicional sande de presunto e queijo da serra e a bela cervejola.

Ponto mais alto de Portugal continental: Conquistado.

Mas o dia ainda não tinha terminado. O ponto mais alto de Portugal Continental estava conquistado, mas agora havia que procurar um local onde ficar, de preferência que ficasse em caminho com a etapa do dia seguinte. Descobri a Casa da Almoinha em Unhais da Serra e siga para bingo, toca a começar a descer que já se faz tarde.

Nenhuma subida à Torre é completa sem a mítica sande de presunto e queijo da serra.

Fiz a descia da Torre a Unhais da Serra pela Estrada da Nave de Santo António. Foi também uma estreia neste trajecto e é uma experiência… para dar cabo dos travões!

São pouco mais de 21 quilómetros, desta vez sempre a descer, com uma média de 5,5% de inclinação, onde descemos dos quase 2000 m para cerca dos 700 m de altitude. Em comparação com os 21 quilómetros que demorei 2h15 para subir, agora 40 minutos, sempre com a mão no travão, foram o bastante para percorrer a mesma distância.

A Estrada da Nave de Santo António não está concluída, e se o seu início e fim é em alcatrão em relativo bom estado, lá pelo meio há um troço de 2 a 3 quilómetros em terra batida com buracos e pedras, com um muro de um lado e todo um declive para o vale do outro, que forneceu uma dose de adrenalina extra a este final de tarde.

Também há hora de ponta na Estrada da Nave de Santo António

Chegado a Unhais da Serra, dirigi-me à Casa da Almoinha onde fui muito bem recebido e pude descansar depois desta jornada épica. Não sem antes é claro, ter reposto (quase) todas as energias despendidas em tanta subida, no restaurante temático Lenda Viriato, onde degustei alguns dos belos petiscos da Lusitânia.

Os Lusitanos não se tratavam mal!

Diz a tradição que Viriato, pastor, mais tarde guerreiro e herói na luta contra o invasor romano, por aqui terá passado ou mesmo nascido, mas o melhor é mesmo ouvirem a história enquanto degustam uma bela refeição.

Resumo do dia:

Distância 132,3 km

Elevação + 2.758 m / -2.858 m

Desnível Máximo 10,6%

Desnível Médio 2,6%

Velocidade média 15,1 km/h

Sobre mim…

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km... Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *