Calcanhar de Aquiles

Há coisas que só lembram ao diabo!

Julho foi o mês de meter carga nas pernas rumo ao UTMB, o que já de si implicava um esforço adicional à minha rotina diária. Mas, nada na minha vida é feito da maneira mais fácil, e eis que algures a meio de Julho me surge uma malfadada “dorzinha” no meu calcanhar esquerdo.

Uma “cena” esquisita, já que apenas sentia essa dor quando treinava a ao fim de alguns quilómetros a rolar. Naqueles momentos de introspeção que me acompanham nos treinos mais longos, aquela espécie de dor acompanhava também os meus pensamentos. Não era uma dor suficiente forte para ter que parar, mas era uma moinha persistente que não desaparecia e teimava em acompanhar-me até final do treino.

Terminado o treino, essa moinha desaparecia tão depressa quanto surgia, e só me voltava a lembrar dela no treino do dia seguinte.

calcanhar de aquiles

Não sentia nada no exterior do pé e do calcanhar, e confesso que com o passar dos dias a persistência dessa dor durante os treinos começava a fazer-me pensar cada vez mais. Tudo isto culminou no Alcains Trail Camp. 80 Quilómetros de treino e o raio da dor parecia agudizar-se à passagem de cada quilómetro, mas assim que parava, como que por magia, a dor atenuava-se e desaparecia. Lá fiz os 80 quilómetros neste registo, mas chegado a casa resolveu-se o mistério.

Passadas mais de duas semanas e mais de 250 quilómetros de treino, conseguia ver agora uma pequena entumecência na sola do pé, quase ali mesmo na dobra do calcanhar. Espremi, espremi, e não é que extraí dali uma espécie de um pequeno espigão de vidro com uns bons 5 ou 6 milímetros de comprimento?!

Como é que foi lá parar e onde o terei pisado é que não faço ideia, não dei conta em momento algum de ter pisado algo que em causasse alguma dor. Pode ter sido na praia ou a andar descalço em qualquer lugar. Não sei.

Sei que após extrair aquele espigão, andei mais uns dias a assentar o calo que causou, e que agora está tudo fino e pronto para outra. É o tipo de coisas estúpidas que tenho o condão de atrair, desta vez e felizmente, sem muitas consequências.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

O Ultra Trail Mont Blanc está mesmo à porta!

 

Desta já te safaste…

Quem participa regularmente em provas de ultras distâncias, será sempre na minha opinião, alguém que tem uma força de vontade, capacidade de sofrimento e resiliência acima do considerado “normal”. Apesar destas qualidades, a maior parte das vezes, serem positivas no desenvolvimento pessoal, muitas vezes se conjuntas com cansaço físico, muitas horas sem dormir, e alguma teimosia, podem reunir um cocktail perfeito para as coisas correrem menos bem.

Congratulo o meu amigo Paulo Martins por se ter safado desta, uma desidratação forte e feia que lhe valeu 10 dias no hospital, no seguimento da sua participação no Ultra Trail Mont Blanc. Dentro do menos bom as coisas acabaram por correr bem, mas podia não ter sido assim. Espero que recupere totalmente depressa para podermos fazer mais uns treinos pela Arrábida.

PM

Quem corre em montanha, seja ela qual for, mais alta ou mais baixa, menos perigosa ou mais perigosa, com mais assistência ou menos assistência, terá de ter ser sempre uma grande dose de auto critica e de auto avaliação, e perceber quando se deve parar por estar a colocar outras coisas mais valiosas em risco como a nossa saúde ou mesmo a nossa vida. Não há corrida que valha isso.

E já agora nunca esquecer que não somos imortais, como em tempos escrevi aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Os Imortais

Quantos de nós, que corremos em trilhos e montanha, que já ultrapassámos desafios inimagináveis para muitos e para nós próprios, que corremos distâncias absurdas de 50, 100, 200 e mais quilómetros, que subimos a picos gelados e corremos na areia quente do deserto, quantos de nós nunca ultrapassámos os limites da segurança por uma vez que fosse, ou nunca apanhámos um susto – maior ou mais pequeno, ou nunca reflectimos após uma qualquer acção mais tresloucada: desta vez até correu bem…

Vem esta pequena reflexão a propósito do João Marinho se encontrar desaparecido nos Picos da Europa, atleta que não conheço pessoalmente, mas que a julgar pelas palavras de amigos que o conhecem, só pode ser uma excelente pessoa e um excelente atleta.

Não sei se o João Marinho teve um qualquer percalço ou não, nem de que modo planeou e preparou a sua aventura.

A reflexão que pretendo fazer é que todos nós já arriscámos aqui e ali, seja num trilho urbano à porta de casa, na serra que corremos todas as semanas, ou no estrangeiro num local desconhecido. Já todos tivemos percalços, acidentes, azares e sorte, muitas vezes sem consequências, outras com pequenas mazelas, e por vezes com resultados menos felizes.

Estudem bem e preparem ainda melhor as vossas aventuras. Invistam na vossa própria segurança como fazem no restante equipamento; hoje é muito fácil poder ser localizado em tempo real em quase todo o mundo.

E quando tiverem que se aventurar aventurem, quando tiverem de arriscar arrisquem, mas nunca que se esqueçam que não somos imortais…

“Nothing is as important as passion. No matter what you want to do with your life, be passionate”, o pessoal espera-te de volta João.