Preparar um Gran Fondo

Para quem como eu apenas corre (ou corria) e a experiência com bicicletas é zero, a primeira pergunta que surge é: o que raio é um Gran Fondo?

Aproveito a boleia do blogue Custois Cycling para o citar nesta resposta: Existem vários significados para Gran Fondo, provavelmente grande distância ou grande endurance sejam a definição mais correta. Alguns ciclistas participam simplesmente pelo orgulho de chegarem ao final, outros pretendem melhorar os seus registos desafiando-se a si próprios ou desafiando os seus amigos ou colegas de equipa. Resumindo, Gran Fondo é uma maratona de cicloturismo onde todos podem participar independentemente da idade e habilidade.

(Recomendo a leitura do artigo completo do Custois Cycling sobre o Gran Fondo para saberem também um pouco da história destas competições.)

Esta definição de Gran Fondo é muito similar ao espírito com que encaro as corridas de endurance em que participo, e entusiasmou-me ainda mais a participar.

Mas nem tudo eram rosas, o treino era zero, o conhecimento da bicicleta era zero, a data da partida aproximava-se, e a única coisa que me dava alento era saber que tinha feito o Tróia – Sagres há três anos, num chaço e com treino básico.

Três dias antes da partida a chuva lá deu tréguas e fiz-me à estrada para um treino de cerca de 27 Km. Foram quilómetros apenas para conhecer a bicicleta, tentar perceber como funcionavam as mudanças, perceber como travar, sentir se bicicleta se adaptava ao corpo.

As sensações foram boas, mas o tempo para aprender foi curto, ilacção que só vim a perceber no Domingo.

Sexta-feira, dois dias antes da partida, consigo um rolo para treinar. O tempo de treino foi passado a montar e a configurar o rolo, não pedalando mais que 12 ou 13 Km.

Sábado de manhã acordei mais ou menos à hora em que a prova iria começar no dia seguinte. A chuva continuava lá fora pelo que não tive alternativa senão pedalar nos rolos. Fiz dois treinos básicos que totalizaram pouco mais de 65 Km. Deu para sentir as pernas e esperar que no dia seguinte estas não vacilassem ao dobrar com uns pozinhos esta distância.

Um gajo saber andar de bicicleta mas não saber andar de bicicleta é tramado.

Eram muitos os receios que vagueavam pela minha cabeça: o equipamento a vestir, os pedais de encaixe, a relação de mudanças a utilizar, o beber ou comer a pedalar, nunca ter pedalado no meio de um pelotão enorme de atletas, a sinalização e a segurança do percurso, a eventualidade de poder ter um acidente, a falta de treino, o tempo chuvoso que era previsto para Domingo, só para relembrar alguma das coisas que me inquietavam.

Sábado de tarde fui até Belém, à Praça do Império, levantar o meu dorsal e os brindes. Aí vim a saber que a prova contava com mais de 1200 inscritos, o que me pareceu um número bem apreciável. A primeira impressão com que fiquei da organização foi bastante positiva, com um processo de recolha de dorsal simples e eficiente.

Juntamente com o dorsal era oferecida uma bolsa impermeável para o telemóvel, outra bolsa de braço também para o telefone, uma lata de atum, uma garrafa de vinho tinto, uma luz traseira para a bicicleta, um bidão para a água, e um jersey da marca Gobik, muito bonito e de muito boa qualidade. Ficou ali decidido que era aquele jersey que iria levar vestido, até porque também não tinha outro mais apropriado.

Dei uma volta na feira e talvez por não estar comprador de nada ou pelos preços de qualquer equipamento ou acessório ser bem mais elevado que o material para a corrida, a feira pareceu-me algo modesta para o número de participantes.

Regressei a casa, preparei o equipamento, a alimentação, as ferramentas, testei tudo no jersey, e pareceu-me que conseguia levar o kit de sobrevivência base sem ir com mochila às costas.

Preparei a bicicleta e tentei descansar e relaxar até à madrugada seguinte para a partida.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

Fim de semana a rolar

Fim-de-semana sempre a rolar, Sábado com 31 Km de bicicleta para descontrair, Domingo com 32 Km a correr de Cascais a Lisboa para ajudar o Pedro a preparar a sua estreia na Maratona, em Sevilha já no próximo dia 19.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
01:48:52 01:43:02 31.91 18.58 52.56 390.10
hours hours km km/h km/h meters

Desde o UTAX, isto é desde Outubro, que não corria uma distância tão “grande”, e se pensar quando corri pela última vez mais de 30 Km em estrada, então já nem me lembro quando foi, pelo que o corpinho já estava a desabituar-se a estas desventuras. No entanto tudo correu bem. Deu para puxar pelo Pedro, para fazer uns quilómetros mais rápidos enquanto ia encher os bidons com água, e deu para esticar um pouco no fim para apertar com ele, mas afinal de contas quem acabou apertado fui eu, que com uma inesperada dor de barriga não consegui manter o ritmo nos dois quilómetros finais.DSC00121

Foi um bom treino que deu para testar a máquina e constatar que mais umas semanas de treino e volta tudo ao lugar, basta continuar com o empenho habitual.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
03:04:52 03:03:44 32.11 10.49 32.40 174.70
hours hours km km/h km/h meters

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

2015 – O ano desportivo em revista

Fazendo uma retrospectiva do ano desportivo, 2015 foi um ano de altos e baixos, bem diferente do que tinha desejado no final de 2014. Sendo um optimista por natureza, tinha desejado um ano de 2015 cheio de conquistas épicas, à minha dimensão é claro, mas quis o destino que andasse o ano com as voltas trocadas.

Eram três os objectivos a realizar em 2015:

– O Madeira Island Ultra Trail – 115Km 6900m D+

– O Mitic Andorra Ultra Trail – 112Km 9700m D+

– O Ultra Trail Côte d’Azur Mercantour – 140Km 10000m D+.

Concretizei dois dos objectivos a que me propus, não da maneira tranquila que desejava no início do ano mas, fruto das circunstâncias, sempre em condições de forma física mínimas. O positivo é que foi um ano de grande aprendizagem, não só de conhecimento prático do Ultra Trail em si, mas também de um grande auto conhecimento, que de certeza vai tornar 2016 um ano bem mais tranquilo nos desafios em que irei participar.

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A Hora do Esquilo, é um dos treinos em que mais gosto de participar, mas em 2015 foi para esquecer. Em Fevereiro num dos treinos mais tranquilos do ano, fiz por lá uma lesão no tornozelo que condicionou toda a preparação para o MIUT e, em boa verdade, acabou por condicionar todo o ano desportivo. Consegui terminar o MIUT, mas este foi feito com um nível de concentração altíssimo, sempre com muito cuidado a ver onde punha os pés, sobretudo nas descidas, que passaram de meu ponto forte em 2014 para ponto fraco em 2015. É uma prova a repetir, não já em 2016, de uma beleza impar e com um percurso fantástico. Adorei.

Feito o MIUT, tentei preparar o melhor que pude o MITIC. Estava em condições um pouco melhores para o MITIC do que quando iniciei o MIUT, mas torci o tornozelo ao quilómetro 28, e faltando ainda 84 Km com pouco menos de 7000m de desnível positivo para fazer, decidi tomar a decisão de abandonar e não por em risco a minha integridade física. Abandonar um objectivo é uma decisão muito difícil de se tomar, mas tento ser o mais consciente possível e tomar as decisões que penso serem as mais correctas. Foi um momento duro, mas que me permitiu subir alguns níveis na minha cognição.

Daqui ao Mercantour foi um pulinho. Foi a prova mais dura em que participei. No total foram 155Km com 10000m D+, num percurso fantástico e muito bonito pelos cumes dos Alpes Marítimos, mas impróprio para tornozelos mais frágeis. Foi igualmente uma prova de grande aprendizagem e de superação, onde chegar ao fim foi uma alegria imensa.

Depois vieram os disparates. Tentei fazer os 112Km do UTAX para compensar o tornozelo torcido em Andorra, mas depois do Mercantour não treinei nem recuperei em condições, pelo que apesar de sentir que com mais ou menos dificuldade poderia chegar ao fim, decidi abandonar ao quilómetro 50.

Depois de umas semanas de recuperação, regresso aos treinos e à Hora do Esquilo, mas continuo com algum “mau-olhado” nestes treinos, e acabei por dar lá o meu primeiro trambolhão em 4 anos de corridas, que me condicionou de novo o físico para os treinos de corrida.

Acabei por completar o ano de treinos em bicicleta, onde acabei por embarcar em mais uma aventura e completar os 200 Km de Tróia a Sagres em bicicleta de BTT, uma “missão” preparada em pouco mais de três semanas e que me deu muito gosto em concretizar.

Em resumo, em 2015 corri quase menos 800 quilómetros que em 2014, sem nunca conseguir atingir uma forma física consistente como cheguei a atingir em 2014. Por outro lado adicionei cerca de 700 Km em bicicleta o que acabou por compensar um pouco.

Principais lições do ano: definir objectivos é muito importante, treinar convenientemente para os objectivos definidos é fundamental, e descansar e recuperar entre desafios é indispensável.

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Grato por me ter cruzado com pessoas fantásticas em todos estes desafios, e pelas horas de treinos passadas em Monsanto, em Sintra, na Serra da Estrela, nos Alpes, nos Pirenéus, com novos e antigos amigos. Grato pelo apoio prestado pelo IMT Instituto de Medicina Tradicional e pelo Kalorias Club de Linda-a-Velha que tornaram este ano difícil bem mais fácil de transpor.

Venha agora 2016, com novos desafios e novas superações.

Um bom ano para todos vós!

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Agradeço desde já a vossa participação.;)

Tróia – Sagres 2015

Há cerca de dois meses atrás decidi embarcar na aventura de fazer os 200 Km do evento Tróia – Sagres em bicicleta. Este é um evento não organizado em que participam alguns milhares de ciclistas e que é, talvez, um dos maiores eventos populares do ciclismo nacional.

Num evento em que participa uma massa tão grande de pessoas, porque considero que isto para mim é uma aventura? Por três factores simples:

  • Nunca fui ciclista e nunca tinha dado voltas maiores que talvez 10 a 15 Km;
  • Há cerca de 8 anos que não andava de bicicleta;
  • Não percebo nada de bicicletas e há dois meses atrás nem bicicleta tinha.

A meu favor tinha a consciência de que o kit de pernas é bom e a certeza de que não seria este que iria por em causa esta aventura.

Quando partilhei a ideia da participação no Tróia – Sagres o ruido foi o do costume, uns chamaram-me maluco, outros disseram que seria impossível, outros acharam piada e alguns até se quiseram juntar à aventura. Nos menos optimistas retive sobretudo as palavras sábias do Miguel Pisco, que me disse que esta ideia tinha tudo para correr menos bem, mas que me apontou vários caminhos para que pudesse mitigar a falta de experiencia nas duas rodas, os quais lhe agradeço e me foram bastante úteis para a aventura de ontem.

A cerca de um mês do evento, quis o destino que no passatempo de aniversário da Decathlon Portugal, fosse presenteado com uma bicicleta. Uma bicicleta de BTT de entrada de gama, com dois pedais e duas rodas, os requisitos mínimos para me lançar até Sagres. Se tivesse de baptizar esta bicicleta como muitos dos meus amigos fazem, teria de lhe chamar o “Chaço”. Não tenho a mínima dúvida de que tive de dar ao pedal muito mais do que outros companheiros de jornada com bicicletas um pouco melhores, já para não falar daqueles que têm máquinas todas artilhadas, que até parece que não precisam de ninguém a pedalar para voarem pelo alcatrão fora.

Tinha agora três semanas para treinar no “Chaço”, adaptar-me a passar algumas horas no selim da bicicleta e tentar treinar ritmos superiores a 20Km/h, porque o objectivo do Tróia – Sagres é também chegar a Sagres antes do sol-pôr. Nestas três semanas rolei 540Km e não tive dificuldades de adaptação ao Chaço. Fiz treinos mais longos, alguns em condições adversas, e tudo correu da melhor maneira, pelo que estava optimista para o dia de ontem.

O ponto de encontro para Tróia foi o parque de estacionamento do ferry em Setúbal, às 5h30 da manhã para apanhar o ferry das 6h15. Para facilitar a logística aderi ao grupo da Bike & Nutrition Shop, que organizou tudo para que a viagem de regresso e o apoio durante o evento corresse do melhor modo para todos os que se juntaram a esta organização.

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6h00 e foi a entrada para o ferry. Nunca tinha visto tantas bicicletas juntas. O pessoal estava animado e entusiasmado como em muitas outras provas de corrida em que já participei. Para variar há sempre amigos que não preparam em condições as suas participações e, ainda antes de tudo começar, cedi a camara de ar que levava para qualquer eventualidade a uma mente menos preparada. Valeu-lhe a sorte de estar num grupo de engenheiros/mecânicos que durante a travessia de Setúbal para Tróia desmontaram pneu, trocaram camara de ar e voltaram a montar tudo em condições. Todos se queixavam do frio da madrugada, mas eu não notei nenhuma diferença para os outros dias em que treino aquela hora, apesar de estar fresquinho para mim estava tudo normal.

A minha estratégia para esta aventura estava definida desde há dois meses atrás: sair de Tróia por volta das 7h e chegar a Sagres ante do sol-pôr, o que equivale a dizer entre as 17h00 e as 18h00, sendo que o autocarro de regresso a Setúbal sairia de Sagres às 18h30. Pareceu-me exequível e desde há dois meses quando partilhei esta ideia e foram vários os que se juntaram com a intenção de participar nestas condições, à medida que não foram treinando foram abandonando a ideia ou definindo outros objectivos, pelo que acabei, mais uma vez, por ficar com Nelson Marques para partilhar o percurso. Já no ferry a Marta e o Taboas juntaram-se a nós e manifestaram intenção de fazer um ritmo parecido ao meu objectivo, pelo que acabámos por arrancar os quatro.

A saída do ferry foi, mais uma vez, em ambiente de festa. Eram centenas ou milhares de bicicletas a rolar do ferry para a estrada, milhares de luzinha a piscar na escuridão da madrugada. Chegados à estrada era muita a confusão. Centenas de carros, muitas outras centenas de ciclistas, tudo pronto para pedalar em direcção a Sagres. Eram tantas pessoas e bicicletas, que falhámos a foto de grupo da Bike & Nutrition e por sorte não nos perdemos uns dos outros. Não havia tempo a perder, estava fresquinho e era começar a pedalar rumo a sul. Partimos.

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Os primeiros quilómetros queriam-se tranquilos, para aquecer as pernas e habituar o corpo a um ritmo que iria aumentar nas horas seguintes. A multidão que estava concentrada em Tróia ia partindo dispersa em grupos mais pequenos e com ritmos variáveis. Os milhares de luzinhas brancas e vermelhas a circular eram um espectáculo dentro do espectáculo. Ao fim de três quilómetros já se conseguia rolar tranquilamente sem receio de nos misturarmos noutro pelotão e o Taboas propôs seguirmos em fila indiana para facilitar a pedalada. A intenção foi boa, mas arrancou logo para ritmos na ordem dos 30Km/h e ninguém estava quente o suficiente para aguentar aquele ritmo apenas com três quilómetros nas pernas. Por outro lado também não me sentia confortável o suficiente para seguir tão colado na roda de outro ciclista, faltam-me ainda muitas horas de prática e claro uma bike que permita pedalar a esses ritmos e que dê mais confiança. Rapidamente o nosso mini pelotão de quatro ficou partido e após meia dúzia de quilómetros o Taboas recuou para rebocar a Marta e eu e o Nelson seguimos nos nosso ritmo. Pouco antes de chegarmos à Comporta o sol começava a despontar no horizonte. Foi uma viagem tranquila onde deu para desfrutar uma paisagem em locais onde só costumo passar de carro. Comporta, Pinheiro da Cruz, Melides, Santo André e Sines ficaram para trás e chegámos ao quilómetro 70, onde estaria o carro de apoio à nossa espera para a primeira paragem. Aqui encontrámos o Luis Parro que também seguia nesta aventura no grupo da Bike & Nutrition. Depois de 3 horas a pedalar estávamos com fome e aproveitei para comer uma banana, um pão com passas e nozes e, o meu doping habitual, a famosa sandes de presunto. Hidratos recarregados e toca a partir rumo à próxima paragem programada em Rogil ao quilometro 140.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
10:43:05 09:18:37 200.64 21.55 51.12 1,531.40
hours hours km km/h km/h meters

Partimos de novo em bom ritmo. Vários pelotões passavam por nós a ritmos alucinantes enquanto nós íamos rolando ao nosso ritmo, ora sozinhos ora extemporaneamente na companhia de pequenos grupos de outros ciclistas que seguiam num ritmo parecido ao nosso. Depois de passar Porto Covo dei conta de que tinha perdido o Nelson. Decidiu parar para beber café e outras necessidades e não me avisou, pelo que no meio de tantos ciclistas, todo o ruido do vento e da velocidade, é difícil perceber se quem vem atrás de nós fica para trás se não nos avisar. Entretanto apanho novamente o Parro, que tinha parado para reabastecer, e parei também para ver se o Nelson aparecia. Esperei uns minutos, passaram centenas de ciclistas e nem sinal dele. Arranquei com o Parro e seguimos os dois até Vila Nova de Mil Fontes, onde o Parro se atrasou um pouco na subida seguinte à ponte que atravessa o Rio Mira. Entretanto continuava preocupado com o desaparecimento do Nelson e à passagem do Almograve decidi parar para lhe ligar, estava no quilómetro 106. Entretanto passa o Parro e mandei-o seguir que já o apanhava. Sabendo agora que o Nelson estava 3 quilómetros atrás de mim, segui num ritmo mais moderado na esperança que ele recolasse. Foi então que cheguei ao fatídico quilómetro 109.

Seguia a rolar calmamente junto à berma da estrada, quando um pelotão com alguma dezena de ciclistas vai a passar a alta velocidade por mim. Num piscar de olhos, um dos ciclistas desse pelotão cai e gera-se o caos. Só tinha assistido a quedas destas na televisão e para ser sincero foi uma experiência brutal num sentido menos positivo. Tinha bem presentes as palavras do Pisco acerca da falta de experiência de rolar em pelotão, e por esse motivo tentei sempre seguir ou com o Nelson ou em pequenos grupos de 3 ou 4 ciclistas. Ia ali eu sozinho com os meus pensamentos e de repente vem um ciclista a rebolar no chão do meio da faixa de rodagem para a minha frente. O barulho das bicicletas no chão e do trambolhão de mais 3 ou 4 ciclistas que não conseguiram evitar a queda por cima do ciclista que caiu primeiro parecia um trovão a irromper o céu. Nem tive tempo de exclamar um FO..-… Num segundo tinha o ciclista à minha frente e apesar de travar violentamente e me desviar o mais que pude, acertei-lhe em cheio com a roda da frente no capacete. Nem percebi como consegui não cair também e felizmente ninguém mais veio para cima de mim. Isto pensei eu, porque o “Chaço” deve ter levado uma pancada bem forte que não percebi. O grupo em que seguia o ciclista acidentado ficou a cuidar dele, e depois de garantir que estava tudo controlado dei seguimento à minha jornada. Recoloco a corrente nos carretos, pedalo uns metros, e sou abordado por outro ciclista que tinha assistido a tudo a questionar-me se também tinha caído. Disse-lhe que não e ele relatou-me o que originou a queda e avisou-me que devia ter um problema na bike, pois ele vinha atrás de mim e antes do acidente a roda estava boa e agora estava toda empenada. Desta vez tive tempo para exclamar um Fo..-..! Desmonto o Chaço e constato efectivamente que a roda de trás estava agora em modo “bailarina” completamente empenada. Pior ainda verifico que a da frente estava em igual estado. Verifiquei que apesar do empeno as rodas não batiam nos travões e decidi prosseguir viagem.

Mais uns quilómetros rolados e constato que as mudanças também ficaram desafinadas e que os travões fazem agora uns barulhos esquisitos. O que até ali tinha sido um passeio requeria agora cuidados redobrados para chegar ao fim. Muitas vezes pensei se o Chaço se iria aguentar até Sagres, em cada descida que fazia pensava se os travões não iriam falhar ou se a corrente não iria saltar, mas o Chaço acabou por se portar bem e resistir como um bravo até ao fim. O que acabou mesmo foi o conforto. Se já não era muito, a partir do quilómetro 109 passei a sentir cada imperfeição da estrada nos braço e infelizmente os 90 quilómetros que faltavam eram talvez aqueles com pior piso. Cada 10 ou 15 quilómetros que andava, tinha agora de parar para descansar e relaxar braços e mãos que teimavam em ir ficando dormentes. Parava cinco minutos, ficava tudo ok e retomava a jornada.

Entretanto o Nelson apanha-me pouco antes da subida de Odeceixe. Aqui a falha da Bike & Nutrition que indicou que o carro de apoio estaria no quilómetro 140, antes desta subida, e erro meu que não validei que o Rogil era ao quilómetro 145 depois desta subida. Felizmente tinha a alimentação controlada e não houve stress para fazer esta subida. Bem, não houve quase stress, porque a meio da subida saltou a corrente e lá tive de parar para recolocar tudo no lugar e retomar a subida a meio, situação que seja de carro ou de bicicleta nunca é a melhor. Mais um esforço e lá avistamos o Rogil já ao quilómetro 145. Paramos e lá estava o Parro também a reabastecer. Se na paragem anterior chegámos com 1h30 de avanço, aqui chegámos com 1h00 de atraso. Ponto positivo para a Bike & Nutrition que esperou por nós. Entretanto avisaram-nos de que o Taboas e a Marta iriam abandonar e ficar pelo Rogil quando lá chegassem.

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O Parro sai, eu e o Nelson ainda reabastecemos e recuperamos mais um pouco mas saímos pouco depois. Passados uns metros vem o Parro em sentido contrário a dizer que estava com cãibras e que iria ficar por ali. Seguimos eu e o Nelson rumo a Sagres. Faltavam 50 quilómetros e já sentíamos que só um grande azar nos faria não chegar a Sagres ainda de dia. Desta vez o Nelson seguiu à frente e eu ia parando de 15 em 15 quilómetros para relaxar os braços. Também não tinha todas as mudanças e não conseguia rolar à velocidade máxima que o Chaço permitia, pelo que ia resignado ao meu destino e rolava conforme a bike deixava. Uma palavra de apreço para outros carros de apoio que esperavam pelos seus atletas e que me atestaram o bidon de água sempre que foi necessário. Passei Aljezur, a Carrapateira e a Vila do Bispo e alguns quilómetros à frente lá estava o Nelson à minha espera para seguirmos juntos até Sagres. Foi rolar até ao Posto de Turismo de Sagres e chagar ao fim feliz por mais uma aventura conquistada. Tiradas as fotos da praxe, ainda pedalámos até ao Parque de Campismo da Orbitur, para tomar um duche, comer uma bolonhesa que muito bem nos soube e onde a restante comitiva nos esperava para o regresso a Setúbal.

No total foram 200 quilómetros a pedalar em 9h18 (paragens não contabilizadas), numa experiência inolvidável e que será certamente para repetir.

Obrigado à Bike & Nutrition pela organização dos carros de apoio e pela viagem de regresso.

Uma bjoka especial para a Filipa Vilar que sofreu um acidente, infelizmente com algumas consequências físicas, mas que ainda assim prosseguiu estoicamente até Sagres. Votos de rápida recuperação Filipa.

E um agradecimento especial ao Kalorias de Linda-a-Velha e ao IMT Instituto de Medicina Tracional que proporcionam que afine a forma para concretizar com sucesso estes desafios.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

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Agradeço desde já a vossa participação. 😉

Chegar antes do Pôr-do-Sol

A uma semana do Tróia – Sagres, hoje foi dia de rumar até Cascais para experimentar uns pneus de estrada na bicicleta.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
02:02:17 01:57:51 46.35 23.60 55.44 457.60
hours hours km km/h km/h meters

Constatei que o conselho de diversos amigos no sentido de utilizar este tipo de pneus foi muito muito útil. É extraordinária a diferença de atrito entre os pneus de estrada e de BTT, permitindo rolar em estrada com um menor esforço e maior eficiência, o que se traduziu num aumento da média do treino de hoje.

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O objectivo de chegar a Sagres antes do pôr-do-sol parece-me cada vez mais exequível.

Continuação de bons treinos e boas provas!!!

Semana de pedaladas

A contagem decrescente para o raid Tróia – Sagres continua. Fazer 200 Km de bicicleta assim num clique, depois de cerca de 8 anos sem pedalar, não é fácil, e portanto tenho aproveitado o tempo de treino para rolar na bicicleta e tenho corrido menos.

Esta semana foi dedicada a aprender a andar de bicicleta. Não a andar no sentido de equilibrar-me e pedalar, mas a reaprender alguns truques.

Lição nº1 – Andar com pedais de encaixe. Os pedais de encaixe são um benefício enorme, já que permitem aproveitar a força da pedalada nos movimentos descendente e ascendente. Por outro lado, como os pés vão encaixados, parar é sempre uma aventura, até se a apanhar a “manha” e começar a desencaixar os pés naturalmente. Após três treinos já consigo desencaixar os pés quase naturalmente, mais umas voltas e já não há stresses.

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Lição nº2 – Aprender a subir e a usar as mudanças. Tinha o mau hábito de andar sempre em “força”. No segundo treino tive oportunidade de treinar umas subiditas e aprender a manejar de forma mais correcta as mudanças da bicicleta, poupando assim muita energia que desperdiçava em vão a durante as subidas.

Lição nº3 – Rolar “muitos” quilómetros. Não foram assim tantos quilómetros, pelo menos já fiz estas distâncias a correr diversas vezes, mas dois treinos de 40 e poucos quilómetros e outro de 70, sem qualquer impacto negativo no que ao físico diz respeito, deixam-me bem menos preocupado para a ida a Sagres.

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Lição nº4 – Rolar no meio do trânsito. Tenho tentado usar sobretudo as ciclovias disponíveis, mas obviamente não é 100% possível pedalar apenas em ciclovia. No entanto a experiência de pedalar no meio do trânsito não tem sido tão má como inicialmente preconizava. Até agora “zero stresses” e tudo muito tranquilo. E hoje até fiz a Marginal duas vezes.

Lição nº5 – Rolar com vento e chuva. O objectivo do treino de hoje era fazer 70 quilómetros e para tal optei por ir até ao Guincho. Escusado será dizer que fui fustigado por vento forte e alguma chuva. Após tirar as fotos deste artigo e já no regresso, levei com umas jarradas de vento lateral a bater chuva e areia, que foi um bom teste extremo a pedalar nestas condições.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
03:31:59 03:29:49 70.69 20.22 44.28 642.80
hours hours km km/h km/h meters

Penso estar tudo no bom caminho para uma jornada épica até Sagres, mas ainda faltam três semanas para continuar a treinar e a aprender.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

A estreia nas duas rodas

Ganhei uma bicicleta num passatempo que a Decathlon lançou para celebrar os seus 15 anos em Portugal. Não é nenhum topo de gama, bem pelo contrário, mas vai servir para dar umas voltas e recuperar activamente dos treinos de corrida.

Como gosto de desafios, vai dar também para tentar completar o raid Tróia – Sagres daqui a umas semanas. (Leiam a história desta viagem que é muito interessante.)

bike

Sábado foi-me entregue a bicicleta mas só ontem foi dia de ir experimentar o material.

Já há uns 6 anos que não andava de bicicleta e que tinha algum equipamento escondido no armário.

Desencarcerei as luvas, o capacete, os sapatos, as calças de ciclismo, equipei-me e lá fui eu dar uma volta por Lisboa.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
02:19:27 02:16:29 39.30 17.28 46.44 465.60
hours hours km km/h km/h meters

Foram 39 quilómetros em ritmo passeio, onde o material se portou bem a este ritmo, mas que tenho sérias dúvidas que aguente consistentemente um ritmo mais forte. Os próximos treinos o dirão.

De restou soube muito bem esta nova experiência, circular por Lisboa, circular pelas ciclovias, sentir o fresco na cara, espairecer do stress e ir pensando em novas aventuras.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

O Ciclista

O que fazer quando se apanha um ciclista desprevenido a subir devagarinho por Monsanto?

Tenta-se apanhá-lo é claro!

Corria tranquilo no meu treino por Monsanto, em plena Estrada da Serafina, a preparar-me mentalmente para enfrentar a subida da Estrada da Belavista, e a equacionar se pararia para beber um golo de água no Parque da Pedra antes de tal subida. Estava calor, contava já com cerca de 8 quilómetros de sobe e desce, mas queria fazer os 13 quilómetros definidos no plano de treino a rolar sem parar. Como não sentia sede segui sem paragens. Corro os primeiros metros da Estrada da Belavista, faço a primeira curva à esquerda, e vislumbro um ciclista montado numa fininha, uns bons 150 metros à minha frente. A primeira subida tem cerca de 500 metros e já levava uns 150 de atraso, mas o ciclista pedalava num registo tão leve e monótono, quase que parecia em dificuldade, que me pareceu perfeitamente possível alcança-lo. E aí parti eu, tal galgo atrás de um coelho, atrás do ciclista desprevenido. Baixei uma mudança para a subida e acelerei. Corria e aproximava-me do ciclista. Não era uma aproximação brutal, daquelas rápidas que permitiria fazer uma ultrapassagem sem o ciclista perceber o que tinha acontecido, mas antes ia aproximando-me em modo stealth, para me chegar a ele e ganhar aquela corrida injusta, eu a pé ele na bike, que só eu sabia que acontecia. Corri e recuperei, ganhei metros, muitos metros, aproximei-me a uns curtos 20 metros do ciclista. Aí chegado a estrada faz uma pequena inflexão no seu desnível e desce durante uns bons 80 ou 100 metros, tendo o ciclista aproveitado para pedalar mais vigorosamente, ganhando uma velocidade que seria impossível de acompanhar e afastou-se de mim novamente. Tinha perdido esta corrida pensava eu, convencido de que não mais veria o ciclista até ao final do meu treino. Mas afinal estava enganado! Termino a curva à direita, já em nova subida rumo ao Restaurante Panorâmico, e lá estava o ciclista de novo naquele ritmo de quem vai cair da bicicleta a qualquer momento. Faltavam agora uns 600 metros a subir até ao Panorâmico e pensei: Desta não me escapas! Subi, subi, corri, corri, e aproximei-me. Aproximei-me tanto que o modo stealth tinha passado a modo motor a gasóleo (e daqueles antigos) a subir em primeira. A minha expiração bufava ruidosamente e fazia-se ouvir num bom raio de acção. Agora a um metro do ciclista, de certeza que ele a ouviria muito bem. Ele olha para trás e talvez pensasse que quem o perseguia era outro igual, montado numa bicicleta e a esforçar-se por subir a Belavista a pedalar. Mas não, viu-me e surpreendeu-se, e percebeu naquele instante que aquilo era uma corrida, e não a quis perder também. Tarde de mais. Estávamos à porta do Panorâmico. Três raparigas que talvez tenham ido ver a paisagem desde aquele edifício, olhavam para nós como quem via a final Olímpica dos 100 metros. Haveriam mais uns nove ou dez metros para subir, o ciclista levanta-se e lança a mão ao manípulo das mudanças. Ouço o estalar do carreto na bicicleta e preparo-me para acelerar até ao limite. Para sorte minha o “crack” do carreto foi um “crack crack crack”. O ciclista falhou a mudança, atrapalhou-se e eu venci a corrida com uma ultrapassagem no último momento, sem necessidade de recurso ao photofinish. Não levantei os braços em sinal de vitória, mas ria-me muito por dentro, pela reacção que o ciclista teve quando me viu a apanhá-lo. Nisto o ciclista passa por mim, encosta e bebe um golo do bidon que seguia no quadro da bicicleta, enquanto me observava a passar por ele de novo. Disfarçou bem esta derrota. Continuei o meu treino a correr a descida final da Estrada da Belavista. Entretanto, o ciclista passa por mim a alta velocidade e nunca mais o vi.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!