Não se pode correr, pedala-se!

Já há umas semanas que não escrevia no blogue.

Andava eu a cumprir o meu plano de treinos dos “100 Kg aos 100 Km”, quando o “azar” bateu de novo à porta com uma arreliadora lesão: uma fasceíte plantar.

Lá se foram os planos de regressar às ultras para o primeiro semestre de 2018 e, muito possivelmente, para o segundo semestre também.

A minha fasceíte, sim porque esta é só minha, já se manifestava há alguns meses por via de uma moinha ligeira no calcanhar, que sempre pensei que fosse mais um fenómeno estranho como este que me aconteceu há dois anos. Mas não, desta vez a moinha foi aumentando, aumentando, até ao ponto de considerar dor e de ser impeditiva de correr. Lá cumpri o ritual de ir ao médico, fazer exames, e o veredito foi esse, da tal fasceíte plantar. Consequência: 2 a 4 meses sem correr, sem caminhar e sem fazer esforços a pé.

Desde então já vou em 8 semanas sem correr, e os planos para o Ultra Trilhos da Gardunha, Estrela Grande Trail e Canfranc Canfranc foram desmobilizados.

O remédio mais apropriado para curar a fasceíte é a fisioterapia, o repouso do pé e o tempo, e ando a cumprir estes três requisitos o mais que posso.

Entretanto aguardo pacientemente que o tempo ajude a curar a fasceíte e possa recomeçar a correr em breve.

Como nem tudo pode ser mau, o médico sugeriu que passasse a andar de bicicleta, já que assim não tinha de apoiar o pé no chão e não causaria nenhum atraso na recuperação da lesão.

Foi assim que acabei por comprar uma bicicleta e que acabei por fazer o meu primeiro Granfondo há uma semana atrás, no Granfondo de Lisboa. Mas essa já é outra história para contar.

Quem quiser saber algo mais sobre as fasceítes e o procedimento para a sua recuperação pode ler este site (em português) ou este (em inglês) ambos com informação muito útil.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

O minuto 92

Nas últimas épocas do mundo da bola, o minuto 92 ficou famoso pela má sorte do Benfica, ao perder a conquista de alguns troféus com derrotas no minuto 92 de alguns jogos que disputou.

Ontem a má sorte coube-me a mim, não ao minuto 92, mas ao Km 28, sendo que o Km 28 começa a ser o meu minuto 92.

Depois de uma primeira parte de corrida, nos Trilhos do Paleozóico, bastante tranquila, não obstante alguns troços de lama e água que já tinha atravessado, eis que num troço relativamente inócuo e, quando nada o fazia prever, o tornozelo esquerdo fez das suas e arranjou para aqui uma nova entorse.

Seguia tranquilo e não estava a controlar tempo nem distância com regularidade, pelo que no momento do acidente não fazia ideia do quilómetro de prova em que me encontrava.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
04:28:18 04:04:08 29.56 7.26 20.16 1,129.00
hours hours km km/h km/h meters

Quando me sentei no chão para aferir os estragos, olho para o relógio, e o número sorridente que de lá saltava era 28,34 Km!

Curioso facto.

No Ultra Trail de Andorra do ano passado, como relatei aqui, tive de abandonar igualmente por ter feito uma entorse, quando percorria o quilómetro 28…

Coincidência? Curiosidade? Devo começar a dedicar-me a provas com menos de 28Km?…

Aceitam-se teorias e recomendações!

ready

Curiosamente, ontem mesmo ao final do dia, o minuto 92 serviu para o Benfica obter uma vitória difícil, quem sabe rumo à conquista de mais um campeonato. Independentemente da sua conquista ou não, seguramente serviu como reviravolta no karma do minuto 92.

Espero ansiosamente que o meu karma dê também a sua volta e os Km 28 das provas futuras sejam de novo um passeio tranquilo e sem coincidências curiosas.

Mais pedra menos pedra no caminho, o rumo ao UTMB mantém-se bem firme e definido.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

 

Fear of the Dark

Este é um artigo com banda sonora. Um bom Heavy Metal, anos 80 no seu melhor, para acompanhar um artigo também ele algo pesado para os atletas, ou não fosse abordar o tema das lesões.

Seja para os desportistas profissionais, seja para estes “malucos” que correm, acontecer uma lesão, por mais pequena que ela seja, é sempre um contratempo com uma dimensão estratosférica. Se para os desportistas profissionais é um contratempo porque não podem exercer a sua profissão e eventualmente ganhar auferir menos por isso, para os “malucos” que correm é um contratempo porque mexe com o seu bem-estar físico e psíquico, com a sua agenda social, e não raras vezes com o investimento que se fez, para ir correr em turismo num lugar distante do local de treinos habitual. Os “malucos” que correm costumam por isso ficar rezingões, chatos e implicativos quando não podem correr. Ao fim de dois dias sem correr parecem crianças com sarampo, quando não podem sair de casa nem brincar com os amigos.

Depois uns dias, semanas, ou meses depois, recupera-se da lesão e volta-se a poder correr, mas aí… surge (quase sempre) a fase do medo. Uma espécie de, como diz a canção, medo do escuro, de não olhar para o lado porque sentimos algo a observar-nos. É um pouco, um tipo torce o tornozelo, recomeça a correr nos trilhos, mas não dá a passada forte que dava anteriormente, não pula para aqui e para ali porque parece que ainda sente qualquer coisa…

E se calhar até sente, porque os “malucos” que correm recomeçam quase todos a treinar antes de curar a 100% as lesões…

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Aproveito para desejar boa sorte a todos os amigos que vão participar este fim-de-semana no Gerês Trail Adventure. É com muita pena que este ano não posso participar, mas a experiência do ano passado, na primeira edição do GTA, foi brutal. Divirtam-se e boa prova para todos.

Ir ao MIUT e voltar para contar

Novembro 2014. Estava delineada a minha época desportiva 2015 com a ilusão de participar no UTMB e, fosse ou não fosse positivo o resultado do sorteio para o UTMB, o MIUT faria parte das provas a realizar em 2015.

Fevereiro de 2015, Hora do Esquilo, treino rolante e suave, em vésperas do Ultra Trail de Sicó onde iria fazer o meu treino longo de preparação para o MIUT. Um estalido na madrugada, uma dor no tornozelo e o treino terminou ali, mal tinha começado.

MIUT 1

Faltavam seis semanas e uns dias para o MIUT e o primeiro grande objectivo para 2015 estava agora em risco. Dois ligamentos internos do tornozelo tinham saído do sítio. No Instituto de Medicina Tradicional recoloquei os ligamentos no sítio certo, mas a recuperação avizinhava-se morosa. Duas semanas passaram e já podia recomeçar a correr, em terreno plano e sem um ritmo elevado. Não houve mais Hora do Esquilo, Treino da Salamandra, ou Serra da Arrábida, e foram quatro semanas a treinar devagarinho, em pisos com pouco declive e sempre em ritmos lentos, sem esforçar o tornozelo. Todo o plano de treinos delineado para preparação do MIUT foi comprometido, e o objectivo passou a ser treinar para iniciar o MIUT ao invés de treinar para terminar o MIUT. E assim fiz, como não conseguia cumprir o meu plano de treinos de corrida, ia para o Kalorias Fitness Club e fiz muito reforço muscular, fiz quilómetros e quilómetros de elíptica/crossramp, e subi degraus sem conta na passadeira de escadas, exercícios que não forçavam o movimento do meu tornozelo.

Quinta-feira, dia 9/4 – Chego assim a Machico para levantar o meu dorsal, em condições mínimas para iniciar a minha maior aventura até à data. Objectivo iniciar, muito próximo de concretizar. Segundo objectivo: ir o mais longe possível sem forçar o tornozelo a algum movimento extemporâneo que pudesse comprometer a participação na prova e a recuperação total. Secretamente, estava convencido de que com um pouco de sorte, chegaria pelo menos ao ponto de controlo dos Estanquinhos, aos 30 quilómetros de prova.

Sexta-feira, dia 10/4, Funchal – Contava já as horas para a partida que seria às 24h00 em Porto Moniz. Passei a tarde deitado a descansar mas sem conseguir dormir uma sesta, o que poderia ser perigoso caso a prova fosse correndo bem e conseguisse progredir.

Sexta-feira, dia 10/4, Porto Moniz – Faltava agora pouco mais de uma hora para a partida. Muitos atletas já estavam nos arredores da partida e os autocarros com atletas vindos de Machico estavam agora a chegar. Muitos amigos e muitas caras conhecidas, muita motivação e muita adrenalina no ar, e muita vontade de começar. Eram cerca de 400 os atletas que iriam começar os 115Km do MIUT.

Sábado, 11/4, 00h00, Porto Moniz – Soa o tiro de partida. Curiosamente sentia-me muito leve e despreocupado. Estava consciente de que tinha feito o possível para começar o MIUT, e após cruzar a linha da partida cada metro que conseguisse progredir e que conseguisse vencer seria uma pequena vitória.

Os primeiros 2 quilómetros tinham cerca de 400 metros de desnível positivo, bons para aquecer e entrar no ritmo/espirito da prova. Sentia-me bem a subir. Com o cuidado devido de ver bem onde punha os pés, subir não seria um problema para o meu tornozelo. Já descer era toda a minha fonte de preocupação. O desconforto de um tornozelo ainda a 75%, um movimento mal feito ou o pé colocado no sítio errado, poderiam significar o fim do meu MIUT. A subida e a descida correspondente sempre aos “esses” serviu mesmo para aquecer e vislumbrar as bonitas luzes de um pelotão cada vez mais alongado. A passagem pela Ribeira da Janela foi, talvez, um dos pontos mais memoráveis no que ao público diz respeito. Muitas pessoas na rua a fazer barulho e a apoiar os atletas que passavam, o que ajudou a dar um boost extra para a primeira subida a sério em direcção ao Fanal. Foi ali que iniciámos o primeiro quilómetro vertical da prova, com uma subida de 11 quilómetros e cerca de 1100 metros de D+. Os primeiros quilómetros da subida foram tranquilos, a sair da povoação da Ribeira da Janela. Pouco menos de dois quilómetros e apareceram as primeiras escadas, as primeiras entre milhares e milhares que o MIUT nos oferece, de todas as formas e feitios e que todas juntas, penso que dariam para subir daqui até à Lua! Muito cuidadinho nestes degraus de terra delimitados por troncos, sempre escorregadios e propícios a um belo trambolhão caso não se assentasse o pé no melhor sítio do degrau. Foram assim 4 Km onde subimos perto de 800 metros de D+, e entrámos numa levada que durou mais uns bons 5Km. Aqui corria-se em comboio, com o pelotão ainda algo junto, e com a adrenalina de sentir a água a descer pela levada à nossa esquerda e de sentir o precipício brutal à nossa direita, e digo sentir porque não se conseguia ver o precipício no breu da escuridão, mas de certeza que ele estava lá. Chegado o fim da levada e surge mais uma ingreme subida que levaria finalmente até ao Fanal. Foram mais 2 quilómetros a subir e os primeiros 16Km estavam feitos. Aqui surgiu o frio pela primeira vez. Estávamos a uma cota de cerca de 800 metros, mas as nuvens baixas e o vento movimentavam uma cacimba gelada que recomendavam o vestir do corta-vento. Assim fiz e os dois quilómetros até ao Fanal passaram num instante. Fiz o check point, roubei uns biscoitos e dois pedaços de chocolate no abastecimento e fiz-me novamente ao caminho. Estava a 1200 metros de altitude e a descida seguinte poderia mudar toda a história. Eram cerca de 5 quilómetros com um desnível de quase 900 metros D-. O piso em terra mole poderia parecer bom para uma descida tranquila e segura, mas o seu tom castanho-escuro era exactamente da mesma cor das pedras, rochas e raízes que completavam o percurso. Para “ajudar” a humidade que se sentia tornava o piso completamente escorregadio, como manteiga em focinho de cão, como se costuma dizer. Sempre apoiado nos bastões, desci em passada ainda inferior a baby steps, muito lentamente e quase sempre com a certeza absoluta de onde colocava os pés. Ainda assim não consegui evitar três trambolhões durante a descida, que felizmente não me machucaram mais do que o ego. Sentia-me impotente para descer mais depressa, mas se quisesse chegar mais longe teria de ter muita paciência e concentração, e era esse o objectivo. Não arrisquei andar depressa nem tão pouco correr durante a descida, descidas onde geralmente acelero e ganho muito tempo nas provas. Desta vez tudo teria de ser diferente. Com algum esforço cheguei ao final da descida inteiro, no Chão da Ribeira, onde fiz o check point, atestei de água e parti rumo ao segundo quilómetro vertical da noite. Os primeiros quatro quilómetros da subida presenteavam logo com 1100 metros de D+, a serpentear por entre trilhos, degraus, vegetação e rochas. Passei muitos atletas que passaram por mim na descida. Esta era uma prova completamente atípica para mim. Faltavam agora dois quilómetros para os 30, estava a uma altitude de mais de 1400 metros, e um erro de rookie poderia ter deitado tudo a perder. Sentia as mãos frias, geladas mesmo, e a preguiça de tirar as luvas da mochila estava a falar mais alto, afinal só faltavam 2 quilómetros para o ponto de controlo. É este tipo de pensamento que pode arruinar qualquer prova, nunca podemos subestimar a natureza. Fiz mais um quilómetro sem luvas, mas a 1 km do ponto de controlo tive mesmo de as calçar, e terá sido mesmo no limite da hipotermia, já tinha as pontas dos dedos dormentes e não conseguia aquecer as mãos de maneira nenhuma. Chego a Estanquinhos, ao Km 30, às 7 horas. Uma hora antes do tempo limite para chegar a este ponto de controlo, muito melhor que as minhas expectativas iniciais. Ali vivia-se uma grande confusão com muitos atletas a chegarem e poucos colaboradores disponíveis, e muita gente a assistir à partida da prova de 85Km que começava precisamente ali e aquela hora. Comi uma fatia de bolo de mel e um caldinho de canja frio, aproveito para aquecer as mãos, calçar as luvas convenientemente, e faço-me de novo ao caminho. Espera-me agora uma descida de 9 Km e 1000 metros de D-. Não tenho muitas memórias deste troço. Tal como na descida anterior, a concentração para escolher onde punha os pés tinha de estar ao máximo e o facto de ter de descer em baby steps também não ajudava a grande dispersão visual pela paisagem. Recordo-me de constatar alguma vegetação diferente do habitual a envolver o trilho, o que me indicava que estaria a cruzar a famosa floresta de Laurissilva, floresta húmida subtropical, classificada como património da humanidade pela Unesco.

Entretanto nasce o dia e a luz do Sol começa a vislumbrar-se por cima dos picos, num jogo de luzes azul e vermelho que me ficou na memória. Assim cheguei ao ponto de controlo no Rosário, a perder (muito) tempo face ao expectável. Paragem técnica rápida apenas para reabastecer os líquidos e parto rumo à Encumeada, onde lá cheguei subindo uma escadaria quase contínua de cerca de 7 quilómetros. Curiosamente e após subir milhares de degraus de todos os tamanhos e feitios, cheguei à Encumeada sem grandes problemas nas pernas. Não tinha muita fome e nem comi da sopa que ofereciam no abastecimento. Arranquei rumo ao Km 60 no Curral das Freiras, onde haveria um bloqueio às 15h00. Eram pouco mais de 13 Km até lá, mas o início foi logo brutal: uma descida de 2 Km para digerir do abastecimento e uma interminável subida que acompanhava uma conduta de água que descia a encosta, composta por mais degraus de todos os formatos e alturas. Como não comi no abastecimento tive de parar a meio da escadaria para meter alguma energia. Aproveitei um local da conduta onde me podia encostar e desfrutei a vista da encosta enquanto digeria uma barra. Subi o que faltavam das escadas e percorri o trilho que me levaria ao início da descida para Curral das Freiras. Mais ou menos dois quilómetros de distância e 800 metros de D- separavam-me de Curral das Freiras. Mais uma descida mais um inferno, concentração de novo a 200% e baby steps até ao limite do impossível. Mais tempo perdido e muitos atletas que tinha passado a subir, voltaram a passar por mim na descida. Ainda assim consegui chegar ao Curral das Freiras 45 minutos antes do tempo limite. A hora ganha nos primeiros 30 Km estava a revelar-se muito útil, mas ainda assim não podia facilitar, portanto 15 minutos foi o tempo necessário para trocar de roupa e de ténis, atestar de líquidos, comer qualquer coisa enquanto bebi uma cervejola preta que me deu um alento enorme e partir rumo à conquista do Pico Ruivo, a 9 quilómetros de distância com 1300 metros de D+ ou seja, o terceiro quilómetro vertical do dia. Os primeiros quatro quilómetros desta subida passaram num instante. Voltei novamente a passar por muitos atletas que me passaram na descida anterior, e como quem não dá por ela 800 metros já estavam escalados. Faltavam agora cerca de 5 Km para chegar ao Pico Ruivo com cerca de 500 metros de D+. Parecia que iria ser suave, mas uma lição que o MIUT nos ensina é que ali nada é suave ou fácil, e assim foi mais uma vez. Foram 5 quilómetros de escadas até ao pico, a maior parte a subir mas também algumas vezes a descer, o que que causou uma verdadeira dança altimétrica no meu relógio, ora nos 1500 metros ora nos 1700 metros de altura. Tal como na escadaria anterior cheguei ao final sem grandes problemas nas pernas. Fiz o checkin no ponto de controlo, reabasteci de líquidos, sentei-me enquanto comi uma barra, e fiz-me de novo ao caminho rumo ao Pico do Areeiro.

picoruivo
Pico Ruivo – Foto de Marlene Pereira

Ia já com quase 18 horas de caminhada nas pernas e aqui consciencializei pela primeira vez que se já tinha feito 70 quilómetros sem nenhum azar, se mantivesse a mesma concentração e frieza de certeza que iria chegar a Machico sem problemas. Este pensamento deu-me uma energia extra e toca a subir escadas até ao Pico do Areeiro. Este troço entre os picos é, talvez, pela sua rudeza e espectacularidade, dos mais bonitos de todo o percurso. Escadas e mais escadas, umas vezes a subir outras vezes a descer, ora esculpidas na pedra, ora em troncos de madeira, ora escadas metálicas tão inclinadas que mais pareciam escorregas, túneis escuros que cruzam as montanhas de um lado para o outro, à nossa esquerda a rocha da montanha, à nossa direita um precipício sem fundo, os picos a beijarem literalmente o azul do céu. Volta e meio olhava para cima e vislumbrava pontinhos de cores brilhantes a serpentearem um qualquer caminho mais acima, antecipando-me o quanto ainda teria de subir para ali chegar. Essa visão motivava-me ainda mais para continuar e para subir com mais força e velocidade. E assim subi o último grande lanço de escadas até ao Pico do Areeiro, onde cheguei por volta das 19h28, 32 minutos antes do tempo limite. Rapidamente comi uma canja, fruta, uma barra energética e fiz-me ao trilho. Tinha 6 horas para fazer cerca de 23 quilómetros até ao ponto de controlo na Portela. Nos três troços que me separavam da Portela, um tinha uma subida com quase 500 metros de D+, mas o que verdadeiramente me preocupava eram os outros dois, um com 1000 e pouco e outro com quase 800 metros de D-. Saí do Pico do Areeiro e pude sentir de novo a magia do vermelho e azul no ar, desta vez as cores mágicas misturavam-se na dança do lusco-fusco, enquanto o sol desaparecia atrás dos picos, agora nas minhas costas. A paisagem era agora muito aberta e, não fosse a minha necessidade de continuar a olhar para o chão para escolher onde punha os pés, aposto que poderia vislumbrar o horizonte. Duas horas e meia foi o tempo que demorei a fazer os 10 quilómetros do Pico do Areeiro até ao Ribeiro Frio, ultrapassando os primeiros 1020 metros de D+. Mais uma descida muito técnica, com terra húmida de cor castanha, que se confundia com as rochas e com as raízes tal como no início da prova. Troço concluído e foi altura de recuperar posições nos 4 quilómetros com 500 metro de D+ até ao Poiso. Foi uma subida rápida onde mais vez recuperei alguns lugares. Checkin feito, líquidos reabastecidos, comi um caldo de canja (porque já não havia massa nem frango), e sigo para o trilho que a Portela está já ali. O Poiso era o último ponto de controlo antes do controlo na Portela onde era obrigatório passar antes das 2h00 da manhã. Quando ia a sair estava a chegar um casal que estava também a fazer o MIUT pela primeira vez, e que algo desanimado estava na perspectiva de ficar ali, pois não se sentiam com forças para chegar à Portela antes das 2h00 da manhã. Eu que coxo, e que desde a descida para Curral das Freiras andava a trocar de posições com eles, ora fosse o percurso a subir ora fosse a descer, sabia perfeitamente que eles eram capazes de ir até à Portela dentro do tempo limite, afinal tinham/tínhamos 2 horas e meia para fazer 9 quilómetros quase sempre suaves e a descer. Dei-lhes umas palavras fortes de motivação, disse-lhes que tinham 5 minutos para comer qualquer coisa e arrancarem, e foi com satisfação que os vi chegarem-se a mim a meio caminho da Portela, todos satisfeitos por os ter motivado a continuarem. Este também é o espirito do trail, não deixar os companheiros de corrida irem abaixo em qualquer momento de dúvida. E assim segui mais satisfeito até à Portela, onde cheguei por volta da 1h30 da manhã, 30 minutos antes do tempo limite. Aqui permiti sentar-me um pouco e recuperar do stress provocado pela segunda noite de prova e pelo facto da atenção necessária a ver onde colocava os pés. O ambiente na Portela era quase de celebração. Apesar de faltarem um pouco mais de 16 quilómetros para a chegada, quem ali estava e quem ali ia chegando, tinha a certeza (quase absoluta) de que agora já nada ia impedir de chegar ao final. Sentia-se alegria e boas vibrações no ar, e quase todos brindámos com uma canja quentinha, desta vez com tudo a que tínhamos direito: caldo, massa e galinha.

Pico do Areeiro – Foto do Madeira Island Ultra Trail

Dos cinco troços com tempo delimitado para chegar este, que acabava na meta, era o que permitia o ritmo mais folgado, o que me deixava algo desconfiado pois o troço era curto e seria quase sempre a descer. Parti da Portela com toda a vontade do mundo para terminar o MIUT, e dirigi-me com convicção em direcção às Funduras onde seria o próximo ponto de controlo. Os quilómetros ou melhor os metros, teimosamente passavam devagar. Passo após passo, curva após curva, descida após descida, olhava para o relógio e aquilo que aquela hora me pareciam quilómetros, não eram mais que poucas centenas de metros. Eram quatro da manhã e há cerca de 43 horas que estava acordado, (lembram-se de ter dito que a sesta antes da partida ia fazer muita falta?), e o sono começava a querer manifestar-se. Nunca tinha feito uma prova onde necessitasse de duas noites consecutivas e estava algo curioso para perceber como se iria manifestar o efeito da Privação de Sono. Entre estes e outros pensamentos chego a Funduras de onde sigo imediatamente para o ponto de controlo seguinte em Ribeira Seca. Esperava-me agora um segmento de pouco mais de 6 quilómetros e 450 metros de D-, o que tinha tudo para ser tranquilo até ao final, mas como já disse no MIUT não há coisas fáceis. Vou controlando os quilómetros que passam, um, dois, três, quatro, cinco, e… descer que é bom, nada que se veja, nem nada perto dos 450 metros de D- anunciados… Quase seis quilómetros do segmento, quase o final do segmento e toma lá uma descida com 450 metros de desnível negativo, daquelas sem muitos pontos de apoio, boa para ir largos metros em slide, pular para outro ponto e ir em slide de novo até rebentar a sola das sapatilhas. É claro que para quem ia como eu ia, sem poder esforçar o tornozelo e obrigatoriamente a descer em passada mais curta que baby steps, esta foi apenas a última descida aos infernos que o MIUT teve para me oferecer, tendo sido mesmo celebrada com uma espectacular bolha na lateral traseira do pé direito, que controlava a navegação e o escorregar descida abaixo. Feita a descida, continuei a viagem nocturna por um trilho que deveria ser muito perto da arriba, pois já se ouvia o mar ali mesmo ao lado. E aqui quase sem dar pelo tempo passar cheguei ao inicio da levada que iria levar quase quase a Machico. Estes últimos quatro quilómetros foram aqueles em que a privação do sono se manifestou, pelo menos de maneira que eu percebesse. Iniciei o percurso na levada, já com vista para os arredores de Machico à nossa direita, e estava convicto de que já tinha corrido ali. Cada passo que dava, cada ponto de referência que passava, cada sombra no chão, cada movimento das plantas, eram pequenos déjà-vu que tinha a certeza que já tinha vivido ou presenciado. Continuava a percorrer a levada e não me conseguia recordar de quando ali já tinha passado, mas tinha a certeza de que já o tinha feito. Quase que podia antecipar cada um dos meus passos e cada uma das sombras que via no chão que percorria ao lado da levada. A determinado momento fez-se luz e pensei a brilhante conclusão: “esta é a levada que percorremos na partida, mas agora em sentido contrário, não faz sentido nenhum repetir esta parte do percurso”. E assim, feliz por ter percebido de onde conhecia já o percurso, devo ter percorrido mais umas centenas de metros quando um dos pouco neurónios ainda semi acordados, se deve ter espreguiçado e clicado em algum botão que me fez agora pensar: “ó estupido, a levada da partida está a mais de 100 quilómetros do outro lado da Ilha, como é possível que a levada seja a mesma?!”. E pronto, com este pensamento parece que acordei de novo, tinham passado talvez uns quatro quilómetros desde o início da levada, e aquilo que me parecia tudo um enorme déjà-vu voltou a parecer-se com um percurso perfeitamente normal e desconhecido para mim. Entretanto chego ao último trilho a descer até Machico. O cheiro a meta era cada vez mais forte e agora, mesmo que torcesse os dois tornozelos, era só rebolar até lá abaixo. Termino o trilho e é claro que ainda teria de passar por uma dezena de degraus a descer, não fosse eu esquecer-me, por algum motivo extraordinário, dos vários milhares de degraus subidos e descidos nas horas anteriores. Passei por um atleta espanhol que mesmo com bastões já não conseguia andar direito e ofereci-me para o ajudar a ir até à meta, que distaria uns 200 metros dali. Gentilmente disse-me para seguir que ele iria devagarinho e assim fiz. Segui até à meta que cruzei com 30h44 de prova, feliz e satisfeito por ter conseguido cumprir tal empreitada em condições tão frágeis, mas insatisfeito por não ter podido correr durante o percurso e convicto que em condições normais iria demorar umas boas menos seis ou sete horas a concluir o percurso. Quem sabe se em 2016 não volto de novo ao MIUT para tirar esta dúvida.

O MIUT é uma prova classificada como Future do Ultra-Trail World Tour, e provavelmente para o próximo ano irá mesmo entrar neste calendário, o que aumentará em muito a exigência à organização da prova. Este ano a prova de 115 Km do MIUT contou com 375 atletas à partida, numero que possivelmente duplicará se a prova entrar mesmo no calendário do Ultra-Trail World Tour. A prova é bonita, espectacular, dura e muito bem organizada, e merece por si só a oportunidade de fazer parte de tão privilegiado calendário, mas há sempre aspectos que podem ser melhorados e optimizados, sobretudo se forem esperados o dobro dos participantes.

Pré-prova

O secretariado foi rápido e eficiente. Tenho por hábito estudar os pormenores todos das provas, de maneira que não tinha grandes dúvidas quando lá cheguei, mas daquilo que pude observar tenho a certeza de que só ficaria com dúvidas sobre algum tema quem quisesse ou quem não perguntasse.

Não existia uma grande feira de Expositores, estava limitada a quatro empresas que apresentavam algum material, sem grandes novidades, e que à falta de alternativas terão feito alguns negócios.

O local de refeições e onde decorreu a Pasta Party era contiguo ao secretariado, e foi suficiente para albergar todos os que optaram por esta refeição. Massa bem confeccionada, com várias alternativas de molhos e possibilidade de repetir, gostei bastante. Eventualmente se para o ano forem o dobro das pessoas, terão de considerar dois turnos de refeições ou outro local para este fim.

Durante a Prova

Há três pontos a realçar durante a prova: os pontos de controlo, os abastecimentos e as marcações.

Os pontos de controlo foram muito e quase sempre efectuados de forma electrónica. Outras vezes eram efectuados de forma manual, por voluntários ou membros da Guarda Florestal, que se encontravam à entrada e saída de troços de dificuldade acrescida. Houve alguns pontos de controlo electrónico que não funcionaram correctamente devido à falha de energia. Umas baterias extra deverão solucionar esse problema em edições futuras.

Os abastecimentos do MIUT não sendo maus também não foram bons. É claro que em 10 abastecimentos há sempre uns melhores que outros, e a experiência vai sempre variar de atleta para atleta, também com o número de pessoas que encontram em determinado momento num determinado abastecimento. Não posso apontar a falta de alimentos em massa como já assisti noutras provas, sendo a distribuição equilibrada entre fruta, salgados, bolos e bebidas. O pior foi nos abastecimentos onde supostamente haveria sopa, e onde na realidade esta faltou muitas vezes. E o motivo para mim é óbvio: numa prova onde esperam 400 participantes de uma prova, que a partir de determinados pontos de controlo esperam o dobro e o triplo dos atletas, à medida que os pontos de controlo absorvem os atletas dos 115, 85 e 42 quilómetros, não se pode fazer sopa numa panela que a minha Mãe utilizaria para fazer sopa para 6 ou 8 pessoas no máximo. Deveriam sim, ter um panelão de sopa sempre pronto a sair. Apenas a partir da Portela vi panelões de sopa nos pontos de abastecimento, até lá foram sempre panelinhas, com o auge no ponto de abastecimento do Poiso, onde só já havia mesmo caldo para comer.

As marcações do MIUT são simplesmente irrepreensíveis. É impossível perdermo-nos, apesar de ter visto alguns atletas perderem-se à saída do ponto de controlo do Rosário e irem em sentido contrário ao da prova. Seguiram um atleta que foi tirar umas fotos e não repararam nas marcações do trilho. Voltando às marcações, estas são fantásticas, de dia ou de noite sempre brilhantes e visíveis com reflector, e ainda com luz pisca-pisca sempre que necessário.

Pós Prova

A prova terminou em Machico e tive direito a uma espécie de refeição, um prego, com duas fatias de pão enormes e meio bife que não acompanhava a grandeza das fatias de pão. Não tinha muita fome e como era o meu pequeno-almoço foi suficiente. Mas penso que poderia estar algo mais reconfortante à espera dos atletas.

O processo de levantar o saco com roupa lavada foi rápido e expedito. Já o local para banhos e duches deixa algo a desejar, de tão pequeno e limitado. É certo que talvez 80% ou mais dos atletas tenha ficado em hotéis da zona de Machico, mas quem não ficou merece tomar um duche em condições antes de se fazer à estrada para outro ponto da Ilha.

Precisamente por estar fora de Machico, não tive oportunidade de assistir à entrega dos prémios, mas dos relatos que me fizeram terá sido uma cerimónia bastante bonita e interessante de se assistir.

Os atletas, os trilhos e o lixo

O ponto que marcou mais negativamente o meu MIUT foram os atletas, mais precisamente o lixo que estes deixaram ao longo de todo o percurso. Esta foi a primeira prova onde me senti triste por constatar que há muitos atletas que participam em provas de trilhos e não respeitam minimamente a natureza. O volume de lixo de embalagens de géis, barras energéticas, e outras coisas tais, não biodegradáveis, deixados ao longo do percurso é indescritível e dará certamente para encher dois ou três sacos de lixo dos grandes. Onde está o espírito de deixar apenas a pegada no trilho? Onde está o bom senso de levar o próprio lixo até ao próximo ponto de controlo? E sim as pontinhas de cima das embalagens de gel também são lixo, muitas pontinhas no chão fazem quilos e quilos de lixo como os que foram espalhados na Madeira. Este é um problema que precisa ser solucionado rapidamente em todas as provas, e que precisa da colaboração e bom senso de todos os que participam em provas de natureza.

Em resumo, o Madeira Island Ultra Trail é de facto uma prova 5 estrelas, diferente, difícil e divertida, que recomendo como experiência a todos aqueles que gostam de correr na natureza. Com a preparação devida é uma prova que se consegue fazer até ao final e as paisagens e os locais que cruzamos valem bem cada minuto do nosso esforço.

Um agradecimento final ao Instituto de Medicina Tradicional e o Kalorias LAV que me permitiram recuperar e treinar para atingir as condições mínimas a fazer o MIUT que vos descrevi, e um abraço especial a todos os amigos que me foram acompanhando ao longo do percurso e mandaram mensagens de apoio e carinho, que foram sem dúvida uma motivação extra para dar mais um passo rumo à meta.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Esquilo, Tartaruga ou Galinha

No período de um ano e três meses recheado de treinos e corridas nos mais diversos trilhos, foram duas as lesões que me importunaram, na realidade uma ainda me apoquenta. Em 2014 uma entorse num tornozelo num treino em Monsanto. Há um mês atrás um estalo no tornozelo e dois ligamentos fora do sítio, num treino em Monsanto.

É uma espécie de Bad Karma com treinos em Monsanto. De ambas as ocasiões no início do treino, em ritmo muito suave e sem terreno irregular que proporcionasse tal desfecho.

Já me cruzei nos trilhos de Monsanto, tal como nos trilhos de Sintra, por elementos e vestígios de rituais, quiçá mágicos, quem sabe se para afastar maus-olhados, quem sabe se para chamar amores. Se calhar é de um destes rituais que eu preciso fazer para afastar esta malapata com os treinos em Monsanto. A dúvida que me assiste é se deverei sacrificar um esquilo, uma tartaruga ou a tradicional galinha!…

Continuação de bons treinos e de boas corridas!!!

(E faltam 10 dias para o MIUT…)

A dor…

Como classificar uma dor numa escala de 0 a 10?

Parece uma pergunta simples e de eventualmente de resposta óbvia, mas para estes loucos que correm, que às vezes fazem (muitos) quilómetros e quilómetros com pés torcidos ou deslocados, por vezes até começam provas de 100 ou mais quilómetros já com estas lesões; que têm dores nas costas, nos joelhos e noutras articulações que nem imaginávamos ter, mas que pensam algo do tipo: só faltam 60 quilómetros não vou parar agora; que sofrem de dores musculares fortes e intensas nas pernas e no resto do corpo, e outras dores tais; como classificar uma simples dor?

Durante provas ou treinos nunca passei por nenhuma situação de grande dor em que tivesse de pensar duas vezes no que estava a fazer, mas tenho muitos amigos que já passaram por situações de dores complicadas e nem sempre tomaram a melhor de decisão, ou seja, parar sem concluir (ou iniciar) determinada prova.

Vem isto a propósito da consulta no IMT para avaliar o meu tornozelo com um ligeiro deslocamento em  dois ligamentos internos, onde me colocaram esta terrível questão. Como classifica a sua dor numa escala de 0 a 10, sendo 10 a pior dor?

Sinceramente lembrei-me do cartoon em baixo e deu-me uma enorme vontade de rir.
http://imgs.xkcd.com/comics/pain_rating.png
Sorri e acabei por responder: menos de 1.

Continuação de bons treinos e boas provas!!! 😉

Resumo do mês de Setembro

Setembro foi um mês misto de sensações boas e menos boas.

Menos boas porque a minha lesão no tibial anterior ainda entrou por Setembro a dentro e não me permitiu concluir pela primeira vez uma prova: a Meia Maratona de São João das Lampas.

Apanhado pelo Pedro Carvalho no treino da coincidência
Sensações boas, porque a partir de determinada altura consegui começar a treinar a sério sem problemas e ainda consegui recuperar um pouco da forma entretanto perdida. Venha agora a Maratona de Lisboa.

Para a história os números do mês de Setembro:

• Contagem: 20 Treinos + 1 Corrida
• Distância percorrida: 233,90 km
• Tempo: 22:09:45 h:m:s
• Ganho de elevação: 1412 m
• Velocidade Média: 10,6 km/h
• Ritmo Cardíaco Médio: 145 bpm
• Calorias Gastas: 14217 Cal

Para o objectivo Maratona de Lisboa deveria ter corrido em Setembro cerca de 75 Km mais. Só assim teria uma preparação ao nível da que atingi para a minha participação na Maratona doLuxemburgo. Fiz o que foi possível fazer e posso dar-me por satisfeito por ter recuperado a tempo de treinar o suficiente para participar na Maratona de Lisboa.

Metade da equipa ACCVCAVI depois das Lampas

Setembro foi o mês da participação na Meia Maratona de São João das Lampas onde tive de abandonar a prova a meio, mas também onde a equipa ACCVCAVI esteve representada em força com nove atletas, tendo (quase) todos conseguido excelentes resultados.

Pessoalmente, ainda tive tempo para fazer dois treinos longos, (29 e 34 Km), e o final do mês já foi em modo “taper” para chegar ao próximo Domingo em condições.
Percurso da Maratona de Lisboa no próximo Domingo, Apareçam!!!

Por falar nisso, Domingo saiam de casa e passem pelo percurso da Maratona de Lisboa. Entre Cascais e o Parque das Nações de certeza que poderão apoiar os atletas em algum ponto da prova. 
Como bónus quem sabe se não ganham o bichinho da corrida e vêm experimentar um dia destes.


Bons treinos e melhores corridas!!!

Quantos minutos valem 20 dias de paragem?

Arrisco-me a dizer que tal como as cartas de amor, todas as lesões são ridículas.

E também eu tive uma lesão ridícula. (No tíbiocoiso que é como quem diz no músculo tibial anterior).

Tão ridícula que é esta lesão que me “obrigou” a suspender os treinos por 20 dias.

No Treino Temático de homenagem a Fernando Pessoa.
Parecem ridículos (os 20 dias), mas a meio da preparação para uma maratona eu é que fiquei ridículo com cada treino perdido.

É a ridícula diferença entre ambicionar correr os 42195 metros em 3h30 e agora ter de esforçar-me o suficiente para os correr em menos de 4 horas.

Parece ridículo, mas acreditem que nos 42 Km faz toda a diferença corrê-los a 5:40/Km ou a 4:58/Km.

Completei há pouco o primeiro treino pós lesão sem qualquer dor durante a corrida. Apesar da má “forma” foi uma sensação ridícula de felicidade.

Faltam 20 dias para a maratona de Lisboa e é com urgência (ridícula) que vou tentar recuperar uma parte da forma perdida.

A verdade é que hoje as minhas memórias dessa lesão é que são ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Nota: O treino ridículo de hoje está disponível aqui.


Bons treinos e melhores corridas!!!

São João das Lampas agridoce

A 37ª Meia Maratona de São João das Lampas que decorreu no passado Sábado, teve para mim um sabor agridoce.
O Perdigão em grande estilo a bater o seu recorde nos 21Km
Por um lado ainda não estava ainda a 100% recuperado da minha lesão o que me levou a abandonar a prova aos 11 Km, por outro lado consegui reunir um grupo de amigos para correr sob o nome da equipa ACCVCAVI, o que resultou numa participação muito honrosa e divertida.
Antecipadamente já sabia que ainda não me encontrava 100% recuperado da minha lesão, estaria, digamos, a 95%, pelo que, apesar de não gostar de desistir de nada, estava preparado para o fazer caso essa se revelasse a melhor opção. O objectivo continua a ser a Maratona de Lisboa e São João das Lampas era apenas mais uma etapa na preparação.
Foi com esta convicção que me dirigi para a partida da prova, onde para além dos 8 atletas que representaram a ACCVCAVI, estavam dezenas de amigos do Portugal Running e de outras equipas.

Iniciada a corrida, a minha ideia era tentar perceber até onde a dor na canela poderia ou não impedir concluir a prova num tempo aceitável, o que para mim e na condição de lesionado seria um ritmo entre os 5:30-5:40/Km. Os primeiros 5 Km foram relativamente tranquilos e consegui manter este objectivo, as subidas eram feitas a bom ritmo e a canela não importunava muito. O pior foi quando começou a descer! As descidas custavam muito mais, a canela não me permitia acelerar e tinha de abrandar para um ritmo acima dos 6:00/Km o que a descer é sempre um contrassenso. A dor na canela fazia-se sentir ainda que longe de ser insuportável, mas às páginas tantas dei por mim a pensar, inconscientemente, em modos de passada que minimizassem todo o impacto e a dor que me acompanhava… Quando tomei consciência deste pensamento, não tive dúvidas que o melhor seria parar por ali de modo a não agravar a lesão ou, pior do que isso, arranjar outra noutra zona diferente do corpo. E assim perto do Km 11, sabendo as subidas e descidas que ainda faltavam para o final, tomei a difícil decisão de desistir da corrida e ir a pé os cerca de 2 Km que faltavam até São João das Lampas.
Uma desistência seja em que circunstância for tem sempre um sabor amargo, mas fico com a esperança que a Maratona de Lisboa possa oferecer um sabor bem doce para compensar este.

Na perspectiva da prova ACCVCAVI, este terá sido um dia histórico. Nove participantes na equipa: eu e o Alexandre como fundadores deste grupo de amigos, e depois o Joost, o Almeida, o Afonso, o Hugo, o Ricardo, o Nuno Lopes e o Miguel Loureiro que substituí-o à última hora o meu amigo Luís Sousa. Cada um de nós tinha as suas expectativas, desde terminar a fazer o melhor possível abaixo das 2h00, à excepção do Joost e do “Canhão” Afonso pertencem claramente a outro nível e iriam correr para fazer um muito bom tempo, algo abaixo da 1h30.

Cinco dos ACCVCAVI: Joost, Alexandre, eu, Almeida e Ricardo


No final os resultados ACCVCAVI foram:

Duas desistências – a minha e a do Nuno Lopes igualmente lesionado;

Ricardo Ribeiro – 2h12’3’” na sua estreia na distância da Meia Maratona, um excelente 
resultado nesta prova de dificuldade elevada, Parabéns!!!

Hugo Fragoso – 2h10’51” um bom tempo para quem anda a treinar para a Maratona do 
Porto, Parabéns!!!

Miguel Loureiro – 2h10’32” um tempo dentro daquilo que eram as sua expectativas, 
Parabéns!!!

Alexandre Perdigão – 1h55’53” a bater o seu record nesta distância e a revelar que se está 
a preparar bem para a Maratona de Lisboa, Parabéns!!!

Nuno Almeida – 1h42’46” igualmente um excelente resultado, Parabéns!!!

João “Canhão” Afonso – 1h31’17” sempre a muito bom ritmo e mais um grande resultado, 
Parabéns!!!

E por fim a “Estrela da Companhia” o Joost de Raeymaeker com o estonteante tempo de 1h21’52”, tinha o turbo ligado e ninguém o apanhava, Parabéns!!!
Parabéns Joost de Raeymaeker! O nosso homem turbo…

Só faltaram ao grupo o meu amigo Camané, que terminou com 1h33’39” e desta vez correu como individual, uma falha que em próximas provas iremos colmatar, e os “fundadores coxos”: João Vargas que anda a banhos lá mais para sul, e o Bruno que continua atrás das ovelhas lá mais para norte.

Por fim dois comentários para a organização:

Um abraço e os parabéns ao Fernando Andrade por conseguir organizar uma prova com este nível com os recursos sempre reduzidos de que dispõe;

Os votos de melhoras para a Xistarca, que ao nível da cronometragem e classificações continua a revelar as falhas de sempre, com atletas que não aparecem na classificação, nomes e tempos trocados, etc., etc..

Findas as hostilidades desportivas, houve tempo para um magnífico churrasco organizado pelo pessoal do Portugal Running, com tudo a que tínhamos direito. Obrigado Henriqueta, Alberto e João.


Para o ano espero ter melhor sorte e poder concluir mais uma vez esta prova cheia de subidas e descidas, mas que faz o encanto de todos os atletas.

Bons treinos e melhores corridas!!!

Resumo do mês de Agosto

Agosto foi um mês para esquecer!… 

Treino na Serra da Arrábida
Dos cerca de 320 Km previstos para o mês de Agosto, apenas consegui correr pouco mais de 165 Km. A primeira quinzena serviu para dar um pouco de descanso às pernas, mas tinha previsto uma segunda quinzena com treinos à seria para preparar convenientemente as maratonas de Lisboa e Porto que se avizinham. Infelizmente uma pequena lesão no músculo tibial anterior, que só agora está perto de debelar, deitou todos os meus planos por água a abaixo, e não me permitiu treinar durante duas semanas. Como consequência principal, terei de redefinir os meus objectivos para a Maratona de Lisboa: tinha previsto correr esta maratona para perto das 3h30, mas com este contratempo irei correr para a terminar e se possível fazer menos de 4h. Será uma maratona ao estilo de um treino longo e transfiro assim os objectivos de Lisboa, e se entretanto conseguir recuperar a forma perdida, para a Maratona do Porto.

Mesmo com contratempos ainda consegui fazer dois treinos interessantes no mês de Agosto:

  • Um treino longo de 41Km pela Serra da Arrábida, que serviu como iniciação ao (light) Trail, e que corri na companhia, entre outros, do Paulo Pires que à data estava a fazer os últimos treinos antes da sua participação no UTMB. Foi um treino forte, onde fiquei sem água a cerca de 10Km do fim, e que por esse motivo se veio a revelar algo penoso de terminar. Ainda assim gostei bastante da experiência e brevemente espero voltar de novo à serra.

Alguns dos companheiros no treino pela Serra da Arrábida

  • Um treino de preparação para São João da Lampas, com rampas e mais rampas para subir a um ritmo forte, onde corri cerca de 22Km. Foi um bom treino, organizado pelo Miguel Pinho, e com uma participação numerosa de pessoal muito bem-disposto.


Treino de preparação para a MM de São João das Lampas
Para a história os números do mês de Agosto:
• Contagem: 12 Treinos
• Distância percorrida: 167,14 km
• Tempo: 16:51:09 h:m:s
• Ganho de elevação: 2370 m
• Velocidade Média: 9,9 km/h
• Ritmo Cardíaco Médio: 141 bpm
• Calorias Gastas: 12558 Cal
Agosto foi para esquecer, mas venha agora a Meia Maratona de São João das Lampas já no próximo Sábado. Vai ser o meu primeiro verdadeiro teste pós lesão, pelo que o ritmo vai ser moderado e sem grandes aventuras. Ainda assim será para bater o meu PB 🙂
A equipa ACCVCAVI deverá contar com 9 atletas nesta prova, um verdadeiro recorde de participações!!!
  

Bons treinos e melhores corridas!!!