Acordar cedo e ir correr

Acordar de manhã cedo e ir correr, é um hábito que custa a encaixar em quase todos nós. Para quem não está habituado a acordar às cinco da manhã (ou mais cedo), para começar a correr às seis horas da manhã (ou mais cedo), passará por um período de adaptação de duas ou três semanas que vai ser “doloroso”, mas depois, essa rotina diária (ou quase diária) torna-se um hábito importante que beneficiará a saúde, o humor e o desempenho.

Oito benefícios que identifiquei ao ir correr de manhã cedo:

1) Menos conflitos

Uma das principais razões para correr logo de manhã cedo, é o facto de existirem relativamente poucas coisas que poderão interferir com o treino. Situações inesperadas, quer pessoais quer profissionais, tendem a surgir ao longo do dia. Se conseguirmos realizar o nosso treino logo pela manhã, conseguimos a maior parte da vezes treinar antes de surgir um qualquer constrangimento inesperado.

2) Qualidade do sono

Há diversos estudos que indicam que quem pratica exercício regularmente após acordar, melhora a qualidade do sono profundo. Melhora também o nosso humor e a concentração durante o dia, ao passo que a sonolência diminui. Sempre que treinamos à noite, o exercício estimula o nosso corpo, pelo que é sempre mais difícil relaxar e obter um sono totalmente tranquilo.

3) Desfrutar da tranquilidade da manhã

O início da manhã é um dos momentos mais tranquilos do dia. As manhãs são calmas e silenciosas, o orvalho humedece os trilhos tornando-os mais fofos, há uma banda sonora de pássaros a chilrear com o nascer do dia, e presenciar o nascer do sol sobre o horizonte e receber a energia suave que dele emana a essa hora é, por si só, um excelente motivo para sair da cama mais cedo.

4) Aumento do metabolismo durante todo o dia

Correr de manhã acelera o metabolismo no início do dia e vai mantê-lo num ritmo mais elevado por mais horas depois do treino.Isso significa que vamos queimar uma maior quantidade de calorias, não só durante o treino, mas também durante o resto do dia.

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Treino a Hora do Esquilo. Com início todos os dias às 6h00 no Parque do Penedo em Monsanto.

5) Aumento da boa disposição

A corrida matinal melhora a boa disposição diária e faz-nos sentir mais positivos. É conhecido que um bom treino ou corrida, aumentam a produção de endorfinas que activam no nosso cérebro as sensações de prazer. Não há como ficar mal disposto logo pela manhã.

6) Aumento da vigilância durante todo o dia

Correr pode aumentar a clareza mental para quatro a 10 horas pós-exercício.Irá aumentar o ritmo cardíaco e o fluxo de sangue rico em oxigénio por todo o corpo, incluindo o cérebro.Fazer exercício aeróbico, como correr, melhora a função cerebral e cognição.

7) Aumento da produtividade ao longo do dia

Treinar pela manhã deixa-nos mais acordados e disponíveis para enfrentar o dia, ganhando-se um impulso de energia extra.Pessoalmente, sinto-me mais energizado durante todo o dia quando corro logo de manhã, o que leva a uma maior criatividade e produtividade nas minhas restantes actividades diárias.

8) Um grande momento para pensar e planear o dia

A tranquilidade matinal é um momento perfeito para resolver e esclarecer os próprios pensamentos e para planear as actividades e os eventos que temos previsto para mais tarde. É o momento ideal para pensarmos em nós próprios, relaxar o corpo e a mente, ou apenas relaxar antes de começar o dia de trabalho.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Novembro, mês de regressos

As últimas 2 semanas foram de descanso e despreocupação total, sem corridas, sem ginásio, com algumas avarias gastronómicas, o que correspondeu a quase mais 5 kg na balança. Isto para compensar e descansar dos 2730 Km com 95000m de desnível positivo que corri nos últimos 12 meses. Um pouco menos que os 12 meses de 2014, mas também com mais paragens quer para curar algumas mazelas, quer para recuperar dos maiores e mais difíceis desafios que corri em 2015.

Hoje foi dia de regressar aos treinos e começar a preparar o ano de 2016, que certamente trará maiores e melhores desafios.

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Nada melhor para reiniciar os treinos, do que acordar cedinho e ir até Monsanto para a Hora do Esquilo. Para início de conversa foram 10 Km numa hora, com pouco menos de 300m de desnível positivo, e que sinceramente pensei que me iam custar bem mais. Há 8 meses, deste este treino de azarada memória, que não corria na Hora do Esquilo, mas hoje soube bem, soube mesmo muito bem, acordar cedo e desfrutar do bonito amanhecer que hoje foi proporcionado nos trilhos por Monsanto.

Amanhã há mais.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Serviços mínimos

O ano passado por esta altura, estava num nível de forma muito bom para mim, o que foi sustentado pelos resultados que obtive no Grande Trail Serra d’Arga, na Maratona do Porto e no Arrábida Ultra Trail. Este ano, fruto do azar de duas entorses num dos tornozelos, tenho feito bastantes quilómetros em treino, mas com bastantes quebras no plano de treinos e longe da intensidade que pretendia para continuar a melhorar os meus resultados. É neste cenário que olho para o lado e constato que grande parte dos meus amigos atletas está num momento de forma invejável.

Grande Trail Serra d'Arga

É vê-los a fazer tempos na casa da 1h30 na Meia Maratona das Lampas, é vê-los a percorrerem o Tor de Geants com grande nível, é vê-los aplicados nos treinos e a preparar os próximos desafios com grande intensidade, e é constatar que dificilmente conseguirei acompanhar o ritmo de quase todos eles nos desafios que se avizinham, o Grande Trail Serra d’Arga e o UTAX. 2015 tem sido um ano de serviços mínimos, simplesmente completar os desafios a que me propus. Resta continuar a treinar e esperar que 2016 me reserve melhor sorte no que diz respeito a lesões, para poder treinar com intensidade e continuar a melhorar os resultados.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Desta já te safaste…

Quem participa regularmente em provas de ultras distâncias, será sempre na minha opinião, alguém que tem uma força de vontade, capacidade de sofrimento e resiliência acima do considerado “normal”. Apesar destas qualidades, a maior parte das vezes, serem positivas no desenvolvimento pessoal, muitas vezes se conjuntas com cansaço físico, muitas horas sem dormir, e alguma teimosia, podem reunir um cocktail perfeito para as coisas correrem menos bem.

Congratulo o meu amigo Paulo Martins por se ter safado desta, uma desidratação forte e feia que lhe valeu 10 dias no hospital, no seguimento da sua participação no Ultra Trail Mont Blanc. Dentro do menos bom as coisas acabaram por correr bem, mas podia não ter sido assim. Espero que recupere totalmente depressa para podermos fazer mais uns treinos pela Arrábida.

PM

Quem corre em montanha, seja ela qual for, mais alta ou mais baixa, menos perigosa ou mais perigosa, com mais assistência ou menos assistência, terá de ter ser sempre uma grande dose de auto critica e de auto avaliação, e perceber quando se deve parar por estar a colocar outras coisas mais valiosas em risco como a nossa saúde ou mesmo a nossa vida. Não há corrida que valha isso.

E já agora nunca esquecer que não somos imortais, como em tempos escrevi aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

O pecado mora ao lado

Enquanto devorava uma caixa de gelado de manga, assistia ao documentário que referi aqui.

No início da peça, colocam uma questão a Colin Jackson, atleta britânico três vezes campeão do mundo na disciplina dos 110 metros barreiras:

– Qual foi a primeira coisa que fez quando deixou de correr?

A sua resposta foi algo como:

– A primeira coisa que fiz foi comer uma sobremesa, uma torta com recheio de compota cheia de ingredientes muito maus, sonhava com ela desde os 16 anos…

É por estas e por outras que nunca serei campeão nem aqui da minha rua!… 😀

Continuação de bons treinos e boas provas!!!

II Summer Trail Camp

O ano passado, fruto da necessidade de ganhar forma depressa e bem, optei por passar uma semana das minhas férias na Serra da Estrela, num misto de férias e treino. Foi uma semana a subir e descer a Serra da Estrela, com cerca de 120 Km em 4 treinos. Correu muito bem, uma semana na natureza, a treinar em trilhos fantásticos e na companhia do Bruno, que partilhou comigo o I Summer Trail Camp.

Este ano o cenário quase que se repete, e na segunda semana de Agosto lá estaremos nós para treinar e ganhar forma, e entrar em Setembro cheios de força para concluir com sucesso os diversos desafios que vamos abraçar.

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A II edição do Summer Trail Camp na Serra da Estrela está praticamente definida.
A base será de novo no Skiparque em Manteigas, que dispõe de uma Praia Fluvial, restaurantes e outros pontos de interesse.
Os treinos previstos serão mais ou menos assim:
Dia 8 26K; Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5026479
Dia 9 13K; Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5027146
Dia 10 Descanso;
Dia 11 24K; Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5026900
Dia 12 10K; Track: Rolador calmo nos arredores da base
Dia 13 Descanso;
Dia 14 53K; Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5026806
Dia 15 40K; Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5026821
Dia 16 Regresso.
O desnível acumulado de todo o evento será coisa para +- 20000m.
Poderá haver uma Bónus Track, em substituição dos treinos roladores, caso seja da vontade de todos 🙂 Track: http://www.openrunner.com/index.php?id=5027271

Quem estiver a pensar treinar nesta altura e se quiser juntar ao grupo, é livre de o fazer. Isto é uma “organização desorganizada”, de amigos para amigos, e os únicos requisitos obrigatórios são a camaradagem, boa disposição e vontade para correr.

Querem-se juntar? Mandem mensagem 🙂

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Balanço Desportivo de 2014

No plano desportivo não posso dizer que ano de 2014 tenha sido mau, pelo contrário foi um ano cheio de novas experiências e de muita aprendizagem.

2014 foi o terceiro ano na prática desportiva da corrida, e o meu ano zero nas corridas de trilhos e montanha. Foi por isso um ano de muitas experiências novas e de muita aprendizagem, que espero poder consolidar pelo ano de 2015, e claro, continuar a aprender e sempre na senda de novas aventuras.

No Gerês Ultra Trail com o Vargas, o Hugo e o Camané

Relendo agora a minha publicação com o balanço de 2013, tinha lá estabelecido 3 objectivos para 2014:

  1. Terminar uma Maratona abaixo das 3h30 de prova, objectivo que tinha sido pensado para a Maratona de Sevilha já em Fevereiro mas que ainda não vai ser possível de realizar. Para cumprir este objectivo terei de esperar pelo segundo semestre do ano;
  2. Repetir a Ultra Maratona Atlântica Melides Tróia e tentar terminar abaixo das 5h30 de prova;
  3. Realizar uma prova de 100 Km de distância, estando esta já definida e agendada; será o Ultra Trail de São Mamede, no final Maio.

Destes três objectivos apenas concretizei um, o de realizar e terminar uma prova de 100 Km de distância, o que de facto aconteceu no Ultra Trail de São Mamede conforme previsto. A minha segunda participação na Ultra Maratona Atlântica Melides Tróia teve de ser adiada, porque em 2014 simplesmente não se enquadrava com o plano de treinos que acabei por delinear para o ano, visão que ainda não tinha à data que tinha definido este objectivo. Por fim, o objectivo de terminar uma Maratona de estrada abaixo das 3h30 de prova, também não foi cumprido. Fiquei lá perto 3h33, e numa prova onde podia ter feito abaixo das 3h30, mas quis a prudência que me poupasse para os 80Km do Arrábida Ultra Trail que seriam duas semanas depois, e esse sim, à data, era o meu objectivo a concretizar.

Quase a terminar o Ultra Tral de São Mamede, já com 102 Km nas pernas

Em Janeiro de 2014 tinha uma perspectiva diferente daquele que teria em Abril/Maio de 2014, e os objectivos que tinha definido em Janeiro deixaram de facto de fazer muito sentido por essa altura, sendo a principal culpada dessa mudança a descoberta da corrida em trilhos e montanha, que de facto me apaixonaram e me fizeram redescobrir todo um novo mundo dentro do mundo das corridas.

Summer Trail Camp na Serra da Estrela com o Bruno Santos

Em resumo, 2014 foi o ano onde corri 3029 Km (mais 10% que em 2014) com 71336 metros de desnível positivo (mais 177% que em 2014), tendo gasto para tal cerca de 350 horas do meu tempo. Participei na minha primeira prova de 100 Km, o Ultra Trail de São Mamede, e baixei o meu recorde pessoal na Maratona de Estrada para 3h33 na Maratona do Porto. Pelo meio participei noutras provas marcantes, como o Gerês Trail Adventure em equipa com o meu amigo João Vargas, O Grande Trail Serra d’Arga, a Ultra Maratona Solidária Toca a Todos, tendo terminado o ano com a participação no Trail do Cabo Espichel, prova onde me estreei no Trail Running no final de 2013. Em 2014 tive oportunidade de correr em estrada, em trilhos diversos e espectaculares, em arribas, em montanha, em trilhos fechados cheios de silvas, na areia quente da praia, no frio da neve fofa, na lama, na água, com muito calor, com muito frio…

Chegada à Meta na Maratona do Porto 2014

2015 já está em curso e os objectivos definidos estão muito condicionados pela sorte…

O grande objectivo do ano de 2015 será a participação no Ultra Trail Mont Blanc. Feitas as provas de qualificação necessárias, resta agora esperar pela sorte e cruzar os dedos para ser um dos sorteados entre todos os inscritos, e assim poder participar nesta mítica prova lá mais para o final de Agosto. Dia 14 de Janeiro será publicado o resultado do sorteio, pelo que vamos aguardar serenamente…

Até ao resultado deste sorteio a única prova que tenho já como garantida, é a participação no Madeira Island Ultra Trail. Será, talvez, o primeiro objectivo do ano: terminar bem e sem problemas.

Nos fantáticos trilhos do Grande Trail Serra d’Arga

Votos de um excelente 2015 para todos os atletas e amigos!!!

DDD ou Dia de Decisão Difícil…

O bom planeamento de uma época desportiva é, talvez, um dos pontos mais importantes para o sucesso na concretização dos objectivos a que nos propomos atingir e, como em todos os planos, aparecem sempre decisões difíceis de tomar.

É certo que todos gostávamos de ir a todas as provas que existem por este país fora, houvesse tempo, dinheiro e sobretudo pernas para isso, mas quando falamos de ultra distâncias e provas separadas por poucos dias ou semanas, é impreterível termos de fazer uma opção.

Foi o que aconteceu comigo a planear o mês de Abril de próximo ano, duas provas míticas mas de características muito diferentes e, onde gostaria muito de participar em ambas: o Peneda-Gerês  Trail Adventure ou o Madeira Island Ultra Trail.

O Peneda-Gerês Trail Adventure são 280Km com cerca de 16000m de desnível positivo distribuídos em 8 etapas pela Peneda e pelo Gerês, locais com trilhos fantásticos para correr, e uma organização experiente e certamente ao nível das que já conhecemos e reconhecemos ao Carlos Sá.

O MIUT são 115Km numa única etapa, com 6848m de desnível positivo, e que atravessa a ilha da Madeira de Porto Moniz ao Machico por trilhos e locais igualmente de uma beleza extraordinária. Em 2015 será a 7ªedição desta prova, que pela primeira vez fará parte da Ultra-Trail World Tour.

Decisão difícil de tomar… mas desta vez a decisão foi pela participação no MIUT.

Vejam o vídeo de apresentação da prova e deliciem-se com os trilhos por onde iremos passar…

E Abril está já à porta!..

Arrábida Ultra Trail 2014

O Arrábida Ultra Trail (AUT), foi talvez, a prova a que assisti com um maior falatório pré prova, acerca das qualidades da mesma e da sua organização. Muitos comentários e muitas dúvidas pairavam no ar, alguns colocando mesmo em causa o desenrolar desta prova. Enquanto observador independente e sem qualquer ligação à organização mas enquanto atleta participante e interessado nesta prova, ia ouvido e processando tais informações e acompanhava tudo o que se dizia. No final devo dizer que a organização no cômputo geral correu bem, obviamente com pequenas falhas fruto de uma primeira edição de uma prova desta envergadura, e que o falatório prévio não teve qualquer razão se existir. Esta característica tão tuga de dividir para reinar ou de querer ser rei no seu quintal, continua a ser um dos grandes entraves ao desenvolvimento local e do nosso país em geral. Quando nos mobilizamos conseguimos fazer actos grandiosos e juntos seremos sempre mais fortes.

Nascer do Sol – Foto de Rui Pires

 

Comecei a interessar-me pelo AUT quando ele foi anunciado em Junho, salvo erro. Faltavam-me dois pontos para obter os oito necessários à candidatura ao Ultra Trail Mont Blanc e até então a alternativa que tinha em mente era a participação numa prova no Parque Natural de Bruxelas, igualmente de 80K e com cerca de 1200 metros de desnível positivo. Esta prova na Bélgica não me entusiasmava particularmente, pois tudo nela indicava que seriam 80K muito rolantes e rápidos, quando a minha preferência iria para algo com mais desnível e com subidas longas, que apresentassem a possibilidade de recuperar folego nas subidas e acelerar mais nas descidas. O percurso original do AUT apresentava um perfil altimétrico de quase 2400m D+, com duas subidas à Vigia, o que encaixava muito melhor no perfil de prova que procurava, para além de ser aqui ao lado de casa e não ter assim custos extras com viagens e alojamento. Estava decidida a minha participação no AUT.

Para meu desalento mas sem grande surpresa, foi passada a informação pela organização do AUT poucas semanas antes da data da prova, de que o percurso tinha sofrido alterações sendo agora um pouco menor o desnível altimétrico e passando a prova a ter 82K no lugar dos 80 previstos. Esta alteração, na minha opinião, foi o ponto mais negativo de toda a organização. Todos os que acompanham há algum tempo o mundo do Trail Running, já terão ouvido falar das dificuldades e dos 1001 entraves que os Parques Naturais colocam a todos os que querem utilizar os trilhos dos parques para eventos deste tipo. Do Gerês à Arrábida as histórias repetem-se. Neste caso em particular parece-me que a organização do AUT não tinha desde o início em que delineou esta prova, a capacidade necessária para mobilizar o Parque Natural da Arrábida a autorizar a passagem por alguns trilhos mais sensíveis e terá tentado arrastar esta situação quase até ao início da prova. Não sei quais são os critérios do Parque Natural da Arrábida para autorizar tal passagem por trilhos protegidos, mas sou da opinião que a organização do AUT deveria ter investido e divulgado desde o início um percurso que não suscitasse dúvidas na sua exequibilidade. Dito isto, se o percurso previsto inicialmente com as duas subidas à Vigia já seria bem rolante, o novo percurso sem estas duas subidas apresentava-se como muito rolante e ainda mais rápido.

Vista da Serra da Arrábida – Foto de Rui Pires

 

Feito este pequeno prelúdio vamos lá falar da prova propriamente dita e da sua organização.

A organização do AUT foi na minha opinião positiva e falo da minha experiência pessoal enquanto participante na prova de 82K, sendo que existiram mais duas provas, uma de 14K e outra de 23K.

Para mim o ritual da prova começou no Sábado com o levantamento do dorsal de atleta no Castelo de Palmela. Duas salas para o efeito, divididas pela distância da prova em que se participava, permitiam um processo de entrega de dorsal e respectivo kit de atleta rápido e expedito. Já a falta de informação de que seria necessário levantar o chip para controlo de tempo numa outra sala noutro local do castelo, originou a que alguns atletas tivessem de lá regressar novamente ou no Domingo antes da partida, para levantar o respectivo chip. É claramente um ponto a melhorar e de fácil resolução em futuras edições da prova.

Um outro ponto a melhorar será o da comunicação via internet. O AUT apresenta um site bonito, de fácil navegação e onde as informações relevantes se encontravam disponíveis, mas para os aspectos de secretariado, como inscrições, resultados, consultas de inscrição, somos redireccionados para outro site. Acontece que ambos os sites tinham informações comuns, que a dada altura divergiam uma da outra, nomeadamente no que diz respeito ao regulamento da prova, o que poderia dar origem a algum problema para atletas que consultassem uma versão em detrimento da outra. Outro ponto de melhoria facilmente ultrapassável.

O kit de atleta para além do dorsal e de alguma publicidade, trazia uma t-shirt técnica (alusiva ao evento mas de baixa qualidade e não muito bonita), um lenço tipo buff (alusivo ao evento e de qualidade duvidosa), uma garrava de vinho da região, um gel energético e uma barra energética.

Trilho dos Moinhos – Foto de Move-Te Nutrition & Lifestyle

 

No final como “prémio” de finisher da prova mais longa foi entregue um crachá aos participantes, igualmente não muito bonito e igual para todos os participantes que finalizaram as três provas em disputa, e que irá destoar bastante ao lado das bonitas medalhas de finisher que tenho de outras maratonas e ultras. Neste aspecto esperava um pouco mais, uma vez que a promoção da prova tinha sido bem feita e apelativa e nada me faria prever que os restantes aspectos de marketing e promoção fugissem a esta regra. Uma t-shirt bonita que o pessoal gostasse de usar e um troféu de finisher em condições, são aspectos em que a organização poderá melhorar se assim o entender e que ajudarão a promover a prova.

Domingo, 4h45, alvorada e saída em direcção ao Castelo de Palmela onde teria início o AUT às 7h00. Muitas caras conhecidas e os habituais votos de boa prova a todos os amigos destas aventuras. Entretanto é anunciado um pequeno atraso na partida por motivo das forças de segurança ainda não se encontrarem no local, o que me fez pensar que alguma coisa poderia correr menos bem ao longo da prova. No entanto o desenrolar da prova veio provar que esse pensamento não teve qualquer razão de existir. A GNR esteve sempre presente em todos os pontos críticos de passagem por estradas onde existisse muito trafego e fosse mais perigoso correr ou atravessar em segurança, e fez um excelente trabalho que merece a minha avaliação muito positiva e o meu sincero agradecimento a todos os agentes que colaboraram com a organização.

O apito da partida soou por volta das 7h12 e lá fomos nós para a serra. O início da prova começou com uma descida, o que foi logico já que começámos num castelo, e percorremos um caminho romano que detesto mas que desta vez nos presenteou com um espectacular nascer do sol atrás do Sado, até entrarmos num single track para a primeira subida. A minha estratégia para esta corrida era a de manter um ritmo moderado ao longo do percurso, fosse a subir ou descer, uma vez que todo o percurso tinha muitas subidas e descidas curtas, e onde me pareceu que a estratégia de descansar a subir para acelerar a descer não iria resultar tão bem. O primeiro abastecimento encontrava-se ao km 15 junto do Teatro do Bando. Foram 15 Km num carrossel de sobe e desce, com alguns trilhos e dois troços de ligação algo longos em alcatrão. Cheguei aqui com menos de 1h40 de prova, sempre a controlar o ritmo para não me “esticar” e esgotar a energia cedo de mais, lá para o final da prova. À saída deste posto de controlo encontravam-se uns actores do Bando que à sua maneira desejavam boa sorte aos atletas, e que bem era precisa, pois a escadaria que nos levava de novo até ao cimo da Serra é muito traiçoeira e algo difícil de se subir.

Trilho dos Moinhos – Foto de Move-Te Nutrition & Lifestyle

 

Depois foram mais 15 Km a rolar num sobe e desce relativamente suave pela rota dos moinhos, até chegar ao segundo ponto de controlo/abastecimento por volta do km 30. Fiz uma paragem rápida mas aproveitei para tomar o pequeno-almoço e comer uma bela da sandes de presunto que faz parte do meu equipamento obrigatório para todas as provas de trail. O próximo abastecimento seria agora dali a 18 km e levava até então pouco mais que 3h30 de prova. Até aqui não encontrei nenhuma alma gémea que levasse um ritmo igual ao meu, e lá ia trocando de posições com o Pedro Cordas e com o Pedro Conceição. Este troço de 18 Km entre os pontos 2 e 3, foi de todos o mais chato na minha prova; longos troços de estradão, alguns troços de alcatrão, rectas infindáveis sem subida ou descida que se visse. Quilómetros que pareciam mesmo muitos quilómetros o que, para quem gosta de um pouco mais de adrenalina, era de facto muito monótono para não dizer penoso. Com a agravante psicológica de quer de um lado quer do outro da paisagem sermos presenteados com lindos trilhos para subir serra acima…

Não sei se era por ir com estes pensamentos menos positivos, se foi o acumular de manter um estilo de corrida lenta e uniforme até então, ou se foi apenas um abuso no ritmo dos treinos nas semanas anteriores, mas por volta do Km 35 apareceram-me as primeiras dores dos quadricípites em particular na perna esquerda. Os quilómetros seguintes foram uma longa e pesarosa reflexão interior sobre o real motivo desta dor, introspeção que demorou quase duas horas até chegar ao abastecimento do km 48, com pouco mais de 6 horas de prova. Nova paragem rápida, reenchi as garrafas de água e meti-me de novo ao caminho, tentando agora variar a passada que até ali tinha seguido com um ritmo muito constante. E resultou, os músculos não regeneraram totalmente mas agradeceram a mudança de passada e as mudanças de ritmo que me impos, melhorando a sua condição significativamente até final da prova. Esta quase segunda metade da prova também era a que apresentava as subidas e descidas mais acentuadas, e apesar de não haver nenhum subida a que pudesse-mos apelidar de “a subida”, ajudou bastante a quebrar a monotonia do percurso da corrida. Próximo abastecimento dali a 14 quilómetros ao km 62.

Este segmento do percurso levou-nos à famosa zona da Comenda. Três subidas mais duras, mas a maior dificuldade foi mesmo a muita lama que se encontrava no percurso. Andar com uma placa de barro agarrada à sola dos ténis não é nada positivo, e as zonas em que podíamos escorregar e dar um valente trambolhão eram mais que muitas. Por duas vezes ia indo ao tapete, mas com um equilíbrio de ninja e muita sorte à mistura lá me consegui escapar a tal desígnio. Por outro lado tentei atravessar todas as zonas de lama com as maiores precauções, mesmo sem correr, para evitar tais acidentes. Chegado ao Parque da Comenda, lá estava o abastecimento mais aguardado por todos, onde inclusive se podia comer uma canja quente. Era este o ponto em que quem tivesse entregue à partida um saco com outro equipamento ou ténis, poderia aproveitar para se mudar para os 20 quilómetros finais. Ia bem e apesar de bom aspecto não quis perder tempo com uma paragem prolongada. Fiz o checkpoint, comi uma laranja, levei três biscoitos para o caminho, e pus-me de novo ao caminho. Tinha lá a minha mochila com uns ténis e um equipamento limpo, mas não senti necessidade de trocar nada. Neste abastecimento apanhei o amigo Telmo que prometeu que me apanharia mais à frente mas desta vez a história da Serra de Arga não se repetiu. À saída ainda deu para agradecer as palavras de motivação oferecidas pelo amigo Serrano que desta vez fez gazeta e foi apenas apoiar o pessoal. Levava agora 8h10 de prova e o próximo ponto de abastecimento chegava aos 72 Km.

Pormenor de um abastecimento – Foto de Rui Pires

 

Este percurso foi marcado por um troço de lama a fazer lembrar-me os Trilhos do Almourol. Atravessei a lama com algum cuidado e apanhei outro atleta que seguia já com alguma dificuldade. Queixava-se que já ia com cãibras, sobretudo nos membros superiores, o que foi algo surpreendente. Ainda rolámos juntos uns quilómetros mas depois tive de seguir sem que ele me conseguisse acompanhar. Ultrapassei alguns atletas que já conhecia de vista do início da prova e começava já a desejar a chegada do abastecimento. Eis que entretanto nem queria acreditar que estava a apanhar de novo o Pedro Conceição. Juntei-me a ele e corremos mais meia dúzia de quilómetros até ao abastecimento do km 72 que afinal se encontrava no km 74. Neste aspecto esta foi a única falha da organização. Toda a marcação da prova estava muito bem feita, com fitas normais e reflectoras a partir do Km 56, e todo o percurso condizia quase milimetricamente ao que foi previamente anunciado. Os abastecimentos encontravam-se todos no quilómetro anunciado excepto este que se encontrava dois quilómetros mais à frente, o que no meu caso não causou constrangimentos de maior, mas que é sempre desagradável para quem tem de gerir os líquidos que transporta consigo e se arrisca a ter de correr mais 15 ou 20 minutos sem água. Relativamente aos abastecimentos estes estavam todos muito bem servidos com líquidos, fruta, bolos e biscoitos, e penso que terá sido mais do que suficiente para todos os atletas. Chegados ao Km 74 eu e o Pedro íamos apostados em fazer um pitstop rápido. Ele meteu um gel e enquanto eu terminava de preparar a minha água com sais e comia uma laranja ele estava despachado e arrancou, nunca mais o tendo conseguido apanhar.

Arranquei também e fiz-me ao último troço do percurso. Levava agora um pouco menos de 10 horas de prova e faltavam oito quilómetros para o final. Finalizar e amealhar os dois pontos que me faltavam para o UTMB era o objectivo principal, mas levava dois objectivos pessoais que iria tentar cumprir também:  1) chegar ao fim ainda de dia 2) tentar finalizar em menos de 11 horas de prova.

Terminar de dia era quase impossível, a prova já começou atrasada e termina pouco depois das 17 horas, pelo que implicava correr a prova em cerca de 10 horas. Num dia perfeito poderia ter acontecido, mas ontem não era o dia.

Já terminar em menos de 11 horas era perfeitamente possível, mas confesso que desanimei um pouco quando por volta do km 79 tive de me resignar à entrada num trilho completamente fechado e fui forçado a retirar o frontal da mochila e usá-lo até ao final da prova. A lama barrenta que existia novamente nos trilhos finais, obrigaram-me a redobrar a atenção e acalmar ainda mais o ritmo nas duas subidas e descidas que faltavam até à meta. Foram 8 Km sem grandes sobressaltos e onde ainda consegui ultrapassar uns três outros atletas.

No final cheguei à meta com 11h06’30”, um excelente resultado para mim apesar de ter ficado um pouco acima das 11 horas. Um papelinho com o resultado dado pela organização ainda me induziu em erro e por alguns minutos ainda pensei que tinha feito mesmo menos de 11 horas, mas afinal aquele tempo estava errado.

Depois foi tempo de recovery. À chegada havia um bom repasto à espera dos atletas, com massa, carne assada, salada, pão, torta de laranja, gelatina, sopa e cerveja à descrição. Comi e bebi bem e recuperei as energias num instante. Soube-me tudo muito bem, não sei se era da fome se era mesmo da qualidade da refeição. A ajuda da Bo Irik também foi preciosa, pois foi-me buscar as mochilas que levava no local onde elas se encontravam, o que teria sido uma tarefa muito árdua para mim naquele momento. Desisti de tomar banho no local e vim para casa onde aí me pude tratar como um rei.

Em resumo foi uma prova positiva pelo resultado que consegui, com uma organização com pontos a melhorar mas a que dou uma nota positiva sem qualquer tipo de dúvida. O percurso não é o mais interessante, pelos motivos que referi anteriormente, e sofre da falta de um ponto mais irreverente. Uma subida à Vigia ou ao Formosinho, e um ou outro trilho no lugar dos longos estradões, dariam um pouco mais de emoção e beleza a esta prova. Pensem e trabalhem nisso para futuras edições.

Os 8 pontos necessários para candidatar-me ao Ultra Trail Mont Blanc já cá cantam. Wish me luck…

Quem gosta de “cuscar” o percurso da prova e outros detalhes da minha corrida pode clicar aqui para o ver.

Continuação de bons treinos e boas provas!!!

Os Imortais

Quantos de nós, que corremos em trilhos e montanha, que já ultrapassámos desafios inimagináveis para muitos e para nós próprios, que corremos distâncias absurdas de 50, 100, 200 e mais quilómetros, que subimos a picos gelados e corremos na areia quente do deserto, quantos de nós nunca ultrapassámos os limites da segurança por uma vez que fosse, ou nunca apanhámos um susto – maior ou mais pequeno, ou nunca reflectimos após uma qualquer acção mais tresloucada: desta vez até correu bem…

Vem esta pequena reflexão a propósito do João Marinho se encontrar desaparecido nos Picos da Europa, atleta que não conheço pessoalmente, mas que a julgar pelas palavras de amigos que o conhecem, só pode ser uma excelente pessoa e um excelente atleta.

Não sei se o João Marinho teve um qualquer percalço ou não, nem de que modo planeou e preparou a sua aventura.

A reflexão que pretendo fazer é que todos nós já arriscámos aqui e ali, seja num trilho urbano à porta de casa, na serra que corremos todas as semanas, ou no estrangeiro num local desconhecido. Já todos tivemos percalços, acidentes, azares e sorte, muitas vezes sem consequências, outras com pequenas mazelas, e por vezes com resultados menos felizes.

Estudem bem e preparem ainda melhor as vossas aventuras. Invistam na vossa própria segurança como fazem no restante equipamento; hoje é muito fácil poder ser localizado em tempo real em quase todo o mundo.

E quando tiverem que se aventurar aventurem, quando tiverem de arriscar arrisquem, mas nunca que se esqueçam que não somos imortais…

“Nothing is as important as passion. No matter what you want to do with your life, be passionate”, o pessoal espera-te de volta João.