Promoção ou despromoção?

Numa altura em que fervilham as “polémicas” no seio do Trail Running Nacional, com discussões sobre associações, circuitos nacionais, regionais, campeonatos e taças, patrocinadores, organizadores, etc., etc., em resumo, a política e o capitalismo no seu melhor, é interessante observar o que acontece quando as pessoas responsáveis não se entendem acerca de um objectivo comum, neste caso, o desenvolvimento de uma modalidade desportiva.

Olhe-se para Itália, para o norte de Itália, mais concretamente para o Vale d’Aosta.

Para muitos o Vale d’Aosta não significa grande coisa, mas para outros é sinónimo de Tor de Geants, uma prova de Ultra Trail com 330 Km e 25000m de desnível positivo, que ocorre naquela região desde 2010.

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Escusado será dizer que esta prova é de dificuldade extrema, e imaginem o esforço que deverá ser organizar uma prova com estas características, com uma distância de mais de 300 Km, em alta montanha, quase sempre com muita neve, e com mais de 140 horas de tempo limite para se concluir.

Ora cá como lá, a política, o dinheiro e os interesses andam todos de mão dada. Por motivos que não estão aqui em análise, alguém achou que a organização deste evento não seria a melhor, e sem demoras replicaram no mesmo local e uma semana antes uma outra corrida, a 4K Alpine Endurance Trail, com características em tudo iguais ao Tor de Geants.

Para se perceber bem o caricato da coisa, é como se alguém decidisse por cá criar uma prova com 115Km na Ilha da Madeira, com o mesmo percurso do MIUT, uma semana antes do MIUT, mas com um nome diferente, tipo Picos da Madeira Ultra Trail.

Quem ganha e quem perde não sei bem. Os atletas penso não ganham grande coisa com estas confusões. Neste caso particular, muitos atletas de topo que costumavam alinhar no Tor de Geants, já se desmarcaram das polémicas e anunciaram que não participam em nenhuma das provas.

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Vamos aguardar por Setembro para perceber como vão coabitar estas duas organizações.

Será que em vez da promoção do Vale d’Aosta não irá acontecer o efeito contrário, e promover o afastamento dos interessados neste tipo de desafios para outras paragens?

Talvez possa servir de case study cá para o burgo e as pessoas finalmente percebam que é a modalidade de Trail Running que deve ser desenvolvida e evoluída, em vez de interesses duvidosos sejam políticos ou pessoais.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

 

Ultra Trail Côte d’Azur Mercantour 2016

Vão abrir na próxima 6ªfeiras as inscrições para a segunda edição do Ultra Trail Côte d’Azur Mercantour 2016.

Numa altura que tantos amigos andam à procura de provas que proporcionem bons desafios, esta é uma prova que recomendo vivamente. São 140 quilómetros com 10000m de desnível positivo, uma organização fantástica e irrepreensível, tudo num cenário muito bonito, com partida em Nice junto às praias do Mediterrâneo, e chegada bem no meio dos Alpes Marítimos.

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Para ajudar a malta, a viagem de Lisboa para Nice é relativamente barata, fruto dos voos directos quer da TAP quer da Easyjet, e com a devida antecedência também se conseguem alojamentos com preços bastante em conta.

Tudo junto, consegue-se um pacote de mini férias com uma excelente prova pelo meio, já que mesmo ao lado de Nice temos o Mónaco e Cannes para visitar.

Quem quiser participar em equipa, os 140 Km da prova principal também podem ser feitos por equipas, em estafeta de 2 ou de 4, provas que tiveram igualmente bastante sucesso na edição deste ano.

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Se precisarem de mais informações sobre esta prova ou quiserem alguma ajuda, procurem aqui no blogue, usem os comentário (em baixo) ou cliquem aqui e perguntem à vontade.

Para seguir para o site oficial da prova cliquem aqui.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!!

Relembro o perfil da edição deste ano:

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Mimos

Lá por fora, algumas organizações levam muito a sério a promoção das provas que organizam.

Na minha opinião não é mais do que auto reconhecer o esforço e o investimento que fazem para que a sua organização seja muito boa e, por outro lado, reconhecer também o que os atletas que nela participam têm na divulgação e promoção dessas mesmas provas.

A Maratona do Luxemburgo é um dos casos que já relatei aqui no passado e, mais recentemente, o Ultra Trail Côte d’Azur Mercantour brindou-me também com um mimo pós corrida que partilho agora aqui convosco.

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Uma simples carta de agradecimento e reconhecimento pela participação na primeira edição do Ultra Trail Côte d’Azur Mercantour, é um mimo que nos calha sempre bem e que certamente não leva qualquer organização ao prejuízo.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Ultra-Trail® Côte d’Azur Mercantour, os primeiros kms

O dia começou cedo contrariando a prevista manhã de descanso antes da partida. Na chegada a Nice, na véspera, já não foi possível levantar o dorsal para o dia seguinte porque a zona de Expo encerrava às 19h00, tendo esta tarefa de ficar adiada para o dia da corrida. O dia começou assim por volta das 8h00, com o objectivo de levantar o dorsal às 12h00, para partir às 13h00. Longe de ser a ideal, foi a gestão possível para esta prova.

11h45 e estava na zona Expo, situada no paredão junto ao Mar Mediterrâneo e onde atletas e acompanhantes se acumulavam já em grande número. A brisa do mar corria muito leve e fresca, enquanto o calor apertava cada vez mais, a rondar já os 30º. Este era um factor de preocupação, já que a previsão era de correr com cerca de 24º e tempo nebulado, que seria bem mais suave do que correr à torreira do sol com 30º. Afastei esta preocupação da mente e fui levantar o dorsal. O processo de levantar o dorsal, englobava também um controlo 0 ao material obrigatório, e foi talvez o processo de levantamento de dorsal e controlo de material mais eficiente em que já participei. Umas semanas antes já tinha recebido um voucher com toda a informação e que deveria entregar para levantar o dorsal. Dirigi-me à fila para o efeito, que já não tinha ninguém à minha frente, entreguei o voucher e a documentação que tinha sido solicitada. Validaram a informação, deram-me um cesto tipo supermercado com o saco com o dorsal e alguns brindes, e tive de lá colocar a mochila com o equipamento. Aí segui numa linha tipo restaurante self-service, e o cesto chegou ao balcão seguinte, onde validaram novamente o número do dorsal e colocaram uma tag identificativa na mochila que ia utilizar. Segui para o balcão seguinte da linha e simpaticamente pediram-me para abrir a mochila e mostrar o material obrigatório, que confrontavam com a lista do mesmo afixada na mesa. Tive de mostrar os bidons para a água, o casaco impermeável, assoprar o apito, mostrar o frontal e as pilhas suplentes, a reserva alimentar, a manta térmica, a ficha médica que era obrigatório levar, e por fim o telemóvel onde se certificaram que tinha gravado o número de emergência da organização. Havia outro material obrigatório no regulamento, mas esta era a lista reduzida de material que era verificado. Foi um processo rápido e eficaz e que, devidamente organizado, não custou nada a efectuar. De seguida ao processo de levantamento do dorsal e controlo 0, fui ainda a outro balcão devidamente identificado para entregar o saco com a muda de roupa e outros acessórios para a Base de Vida dos 75 Km, sensivelmente a meio da prova. Em todo este processo não demorei mais de 10 minutos, fruto da eficiência da “linha de montagem” que ali estava engendrada. Formalidades cumpridas e tive tempo de relaxar mais um pouco, apreciar a zona da Expo, tirar as fotos da praxe de vários ângulos e feitios, e dar uma vista de olhos rápida aos stands dos patrocinadores. Estava pronto para o início, mas ainda faltava quase uma hora para a partida. Os lugares com sombra estavam praticamente todos ocupados por outras pessoas, pelo que o melhor que arranjei foi um lugar entre a ciclovia e o paredão. Tentei descansar as pernas o mais que pude nessa hora, já que o calor não parava de aumentar e o início de prova que previa ser calmo iria ser muito propício a desidratação fácil.

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Faltavam 15 minutos para a 1 hora e começou a festa da partida propriamente dita. O speaker foi para o palanque e não mais se calou, apresentou atletas que ficaram bem classificados no UTMB e no CCC, falou da prova, foi desenrolada uma tarja (ao melhor estilo das claque de futebol) de promoção da prova por cima de todos os atletas que fez um efeito muito giro visto de cima filmado do drone, até que finalmente chegou o Sr. XPTO para dar a partida. Já eram 13h15 e este atraso foi perfeitamente desnecessário. Esta partida não foi a partida oficial da prova, mas sim a partida para um prólogo de 4,5 km que antecedeu a partida oficial da corrida, já mais nos arredores de Nice. A partida oficial era às 14h00 pelo que teríamos 45 minutos para cumprir estes 4,5 Km de promoção da prova. Cruzámos todo o centro de Nice num longo pelotão, já que houve quem aproveitasse para começar a correr forte, e quem aproveitasse para fazer uma simples caminhada de aquecimento. Cruzámos um dos famosos jardins, diversos pontos de interesse de Nice, e a população aplaudia e encorajava os atletas, alguns sem perceberem exactamente que coluna seria aquela. Todo o percurso foi sempre acompanhado pela polícia municipal lá do sítio e pela organização, minimizando o impacto quer para o trânsito quer na progressão dos atletas, o que me pareceu muito bem conseguido. Entretanto chegamos ao local da partida, olho para o relógio e eram quase 14h00. Aquela caminhada tinha feito bem às pernas e sentia-me solto e leve para enfrentar os 141 Km que aí vinham.

O pelotão deveria ter pouco mais de 500 atletas, com cerca de 400 para fazer a prova a solo, e os restantes na variante de 2 ou 4 estafetas. Passavam uns 8 minutos das 14h00 quando suou o tiro de partida.

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Iniciei o percurso num trote suave no meio do pelotão, enquanto tentava enquadrar-me junto de algum grupo de atletas que mantivesse um ritmo semelhante ao que pretendia seguir, mas digamos que isto foi uma tarefa impossível. Mentalmente tinha dividido o percurso em 12 segmentos que correspondiam aos segmentos entre cada abastecimento.

Este primeiro segmento apresentava 11 Km de Nice até Tourrette-Levens. Sendo os primeiros 7Km a subir 690m D+ até ao cume do Mont Chauve. Os primeiros 3 Km foram quase sempre em alcatrão numa zona de impetuosas moradias, que iam rareando à medida que se ia subindo. Os 30 graus apertavam e não foi preciso rolar muito para ficar encharcado de suor. A partida estava já a quase 2 km, mas estava num ponto do pelotão em que todos caminhavam e ninguém ensaiava sequer um pequeno trote, o que me estava a irritar e também a intrigar. Esta era a menor de todas as subidas e se não corresse aqui iria fazer todas as outras de gatas, pelo que recomecei um ligeiro trote e depois uma corrida ligeira e controlada. Aos 3 Km acaba o alcatrão, entra-se num parque e começa o trilho. Finalmente o trilho e a fazer-me relembrar em algumas zonas as Serras da Arrábida e de Sintra. Após o primeiro quilómetro no trilho percebi aquilo que me esperava, muita pedra e muita gravilha ao longo de todo o percurso, o tipo de terreno mais impróprio para os meus pés e tornozelos. Mas já ali estava e agora era para ir até ao fim.

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Subi, subi, e atrás de mim ia deixando uma paisagem espectacular. Sempre que olhava para trás via toda a montanha a descer até à cidade de Nice, a cidade a estender-se até ao mar, e o mar azul a estender-se até ao infinito, e ainda o sol vermelho que estava bem lá no alto, mas brilhava intensamente no mar. Chegado ao cume foi descer tudo até Tourrette-Levens onde existia um abastecimento apenas de líquidos, mas que foi muito importante para repor água nos bidões, já que estes 11 Km com 30º equivaleram a mais de 1 litro de água bebida. Em Tourrette, uma vila pequena, o abastecimento aconteceu no meio de uma praça, com muito público a aplaudir e encorajar os atletas. Não perdi muito tempo e segui para o segundo segmento, este de 8 Km entre Tourrette-Levens e o Col de Châteauneuf, que brindava com uma subidinha de 430m D+. Foi um troço calmo, que confirmou a presença de pedras e pedrinhas ao longo de todo o trilho, feito em ritmo moderado de quem ainda tem muitos quilómetros pela frente. A principal surpresa estava a ser o facto de que o trilho era basicamente um single track. 90% dos primeiros 100 quilómetros seriam percorridos sempre em single track, não daqueles fechados e cheios de vegetação, mas um single track em que apesar do espaço livre à nossa volta não caberia mais ninguém ao nosso lado. Os primeiros 33 Km da prova seriam os mais apertados em termos de tempo, ainda assim pensava ter uma margem bastante confortável para gerir. Saí do abastecimento dos 19 Km e tinha cerca de 1h30 de avanço sobre o tempo limite de passagem. Aqui tive a certeza que tudo o que a organização tinha dito sobre a prova era verdade. Este seria um dos abastecimentos ligeiros, e estes eram compostos essencialmente por líquidos (água, água com gás, coca cola, chá, café e isotónico) e comida ligeira (bolachas de água e sal, bolachas salgadas, frutos secos, batatas fritas e uma espécie de presunto). Todos os sete abastecimentos ligeiros não forneciam mais do que isto. Nada do que havia para comer me inspirou muita vontade, pelo que bebi um café, comi uma das minhas barras e segui em direcção à primeira base de vida aos 33 Km. Este segmento: Col de Châteauneuf – Levens, tinha 14,5 Km e a principal dificuldade seria a subida ao Mont Férion, que apresentava quase 800m de D+ e a respectiva descida até Levens que tinha outro tanto de desnível negativo em cerca de 4 Km. Quase a chegar a Levens assisto ao primeiro acidente. Seguia a descer em bom ritmo na traseira de uma fila indiana de um grupo de mais 4 atletas, quando o segundo da fila fica com um bastão preso nas rochas e voa literalmente pela ravina abaixo. Felizmente, ao contrário de outras zonas da prova, esta ravina não era muito profunda nem pronunciada ficando ele apenas a 3 metros abaixo de nós. Aparentemente a queda “apenas” lhe causou várias escoriações nas pernas e braços, o que a ser assim terá sido uma grande sorte, tal o voo que este deu. É por estas e por outras que pessoalmente nunca utilizo os bastões para descer rápido em zonas de pedra e rocha. O risco de ficarem presos entre rochas é enorme e as consequências podem ser bem graves. Este acidente disparou um pouco de adrenalina extra, o que curiosamente me tranquilizou e segui até à base de vida muito tranquilo. Cheguei com 6 horas de prova e perto de 2200 metros de desnível positivo à base dos 33 Km. Inicialmente tinha pensado fazer a prova o mais depressa possível, mas com bastante tempo para completar a prova, decidi ali que esta seria a prova perfeita para experimentar novas situações que poderão servir de experiência para o futuro. Tomada a decisão, pousei bastões e mochila numa cadeira, sentei-me noutra, e aproveitei a preciosa ajuda da Marisa, para me ir tratar de tudo no abastecimento. Na base de vida havia de tudo. Além das bebidas e da comida que referi nos abastecimentos ligeiros, tínhamos sopa, massa, queijo, bolonhesa, molho de tomate, pão, bananas, laranjas, barras energéticas, e eventualmente mais duas ou três coisas que agora não me recordo. Também havia casa de banho, duche, podologista, fisioterapeuta e zona de massagens com pelo menos uns 10 massagistas. Havia igualmente uma zona de dormida para quem quisesse, já ali, passar pelas brasas.

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Entre comidas, casa de banho e relaxar um pouco, passaram 50 minutos. É muito fácil perder horas parados em abastecimentos, quando estes são confortáveis e estamos cansados.

Saí assim desta base de vida com 7 horas de prova, o que equivalia a uma folga de 1h30 relativamente ao tempo limite para sair desta base. Outra novidade para mim nesta corrida, o controlo electrónico era efectuado à saída de cada base, sendo esse o tempo registado como oficial, e não à entrada dos abastecimentos como é costume cá no burgo, apesar de muitas vezes no regulamento dizer que se tem até à hora XX para sair do ponto de controlo. Por lá também o escrito no regulamento bateu certo com a aplicação prática no terreno.

Era já de noite pelo que tive de ligar o frontal. O objectivo era tentar chegar à próxima base de vida dali a 42 Km ainda de noite, para lá tentar dormir um pouco.

Continua…

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Ultra-Trail® Côte d’Azur Mercantour, a primeira impressão

Estes franceses sabem bem aquilo que fazem, é a minha primeira opinião após a participação na primeira edição do Ultra-Trail® Côte d’Azur Mercantour.

Uma organização muito profissional com um grande envolvimento das entidades políticas locais e da região dos Alpes Marítimos, numa primeira edição que foi promovida sobretudo para consumo interno, mas que agor, após o sucesso desta primeira edição, terá todas as condições para se potenciar como uma das provas muito interessantes do calendário europeu dos ultras trail.

Quanto a mim tive o gosto especial de ser o primeiro português a participar e terminar esta prova, (era o único português em prova), e pela primeira vez cruzei a meta com a bandeira Portuguesa ao colo em provas de trail, o que também me deu um especial orgulho no final.

Lá como cá, o fenómeno das inscrições versus participações em provas parece existir. Inscreveram-se para participar nos 140 Km do Ultra-Trail® Côte d’Azur Mercantour 713 atletas, tendo comparecido à partida apenas 402 atletas, dos quais apenas 28 eram mulheres.

No final concluíram a prova 191 atletas (47,5% dos participantes), tendo desistido ao longo do percurso 211 atletas (52,5% dos participantes). Apenas 6% dos atletas eram estrangeiros e representaram 14 diferentes nações.

UTCAM 2Em termos pessoais o objectivo era terminar a prova cumprindo os regulamentos, objectivo que consegui em 46:44:29, posição 167 da classificação geral, numa prova que teve como principal vantagem poder descobrir como reage o meu corpo a situações novas e descobrir os prós e contras de dormir 1 hora durante a prova, dos efeitos de um duche a meio da prova, dos efeito de uma massagem com gel frio a meio da prova, de uma alimentação diferente durante a prova,… uma série de situações para mim novas, que o simpático tempo limite de 50 horas para concluir a prova, me permitiram testar com vista a outros desafios no futuro.

A prova em si teve tanto de interessante como de dura. O início da prova foi na cidade de Nice e o final seria na vila de Saint-Martin Vésubie, sendo o percurso anunciado com pouco mais de 141 Km, 10000 metros de D+ e 9000 metros de D-. No entanto a prova não começaria no Km 0 como habitual mas sim no Km -4,5 ou seja, existiu um prólogo inicial de 4,5 Km (inicialmente eram para ser 6,5 Km mas a organização “atendeu” às reclamações dos participantes e encurtou este prólogo), onde os atletas partiram do passeio marítimo junto ao mar e cruzaram, ao melhor estilo da Volta a França, alguns dos principais pontos de interesse de Nice, até ao local oficial da partida no Km 0, promovendo a prova junto da população e turistas. Diria que 90% da prova terá decorrido em single tracks e que mais de 90% do percurso era em pedra, pedrinhas, gravilha ou coisas tais, o que obrigava a uma atenção e concentração mais do que constantes para não se correr o risco de torcer um tornozelo, escorregar ou cair. A temperatura durante o dia rondou os 30 graus, o que se tornou um desafio para a gestão da hidratação e à noite, sobretudo na segunda noite sempre acima dos 2000 metros, eram bem negativas.

UTCAM 1Do início ao fim do percurso subiu-se a 12 cumes, dois entre 600 a 1000 metros, dois entre 1000 a 1500 metros, três entre 1500 a 2000 metros, três entre 2000 e 2500 metros e dois acima dos 2500 metros de altitude.

Apesar de esta ser uma primeira edição, a organização mostrou-se muito profissional e efectiva, com uma zona de Expo e levantamento dos dorsais muito eficiente e interessante, marcações no terreno ao melhor nível, bases de vida com condições quase irrepreensíveis, e cerca de 600 voluntários, muitos deles ao longo de todo o percurso, que sabiam exactamente onde estavam e o que estavam a fazer, e que prestavam de facto uma ajuda efectiva aos atletas que precisavam.

Feita a primeira introdução ao Ultra-Trail® Côte d’Azur Mercantour, aguardem agora pelas histórias da prova.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Ainda os Abutres (e a hipotermia)

Não participei nos famosos Trilhos dos Abutres 2015, mas já tanto li, vi e ouvi sobre esta prova que é quase como se lá estivesse estado. Esta prova de 50Km, para quem não sabe, caracteriza-se por ser uma prova dura, com muita dificuldade técnica, em plena Serra da Lousã. Quando há condições climatéricas adversas, o que aconteceu este ano, com muita chuva nos dias anteriores e no dia da prova, os trilhos transforma-me em verdadeiras pistas de lama, e os cursos de água que num dia normal se atravessam sem problema transformam-se em verdadeiros desafios aquáticos para atravessar. Se também considerarmos a baixa temperatura atmosférica que se fez sentir, pode-se afirmar que o grau de dificuldade aumentou grandemente face a um dia em condições normais. Por este motivo muitos atletas, cerca de 40%, foram barrados numa das barreiras horárias impostas pela organização, não podendo assim completar a sua prova até ao fim.

Muitas criticas se levantaram contra a organização da prova, por esta ser intransigente e inflexível no cumprimento deste ponto do regulamento, cujo âmbito me parece mais para proteger os atletas de eventuais acidentes, do que as organizações por terem de esperar mais uns minutos ou umas horas pelos atletas.

Não fazendo eu parte desta ou de qualquer outra organização de provas, a minha opinião é a de que as organizações devem cumprir os regulamentos, sejam eles quais forem. Cabe aos atletas, antes de se inscreverem, lerem, avaliarem e concordarem os ditos, e se considerarem que estão em condições de completar o desafio proposto nas condições apresentadas, então sim inscreverem-se. Infelizmente o que observo cada vez mais, é atletas sem a preparação adequada tentarem completar desafios difíceis sem terem a noção daquilo a que se propõem fazer, e sem lerem sequer uma única vez o regulamento das provas.

No caso particular do Trilho dos Abutres 2015, li relatos de atletas que foram barrados por chegarem com 5 segundos de atraso, mas também li muitas e muitas reclamações de atletas que chegaram ao controlo com mais de 1 hora de atraso, reclamações que me parecem algo insensatas, até face às condições atmosféricas e do terreno da prova naquele dia. Um dos relatos que li e que demonstra bem que a esta organização agiu correctamente é partilhado no blogue quarenta e dois ponto dois que podem ler clicando aqui.

Outro ponto que me impressionou nas coisas que li e ouvi sobre esta prova, foram os diversos relatos de princípio de hipotermia que muitos atletas descreveram. Tal deveu-se à falta de equipamento adequado e à falta de sensibilidade de muitos atletas para as condições de frio e chuva que se faziam sentir. Como se costuma dizer, quem vai para o mar avia-se em terra, e se vamos para a serra ou montanha, e com condições atmosféricas muito adversas, todos os cuidados são poucos.

Primeiros Socorros em caso de hipotermia (Em espanhol mas foi o que se arranjou)

Há sobretudo que planear bem as provas em que participamos, para minimizar todos os riscos que possam ocorrer durante as mesmas, condições atmosféricas incluídas.

Um dos acessórios que transporto comigo em provas ou treinos em que sei que a temperatura pode vir a ser um problema é o Thermo Pad, um saquinho que pesa 30 ou 40 gramas, e que se activa naturalmente aquecendo as mãos até 8 horas, com temperaturas que podem ir até aos 65º!!! É só tirar da embalagem, sacudir, apertar na mão e/ou colocar dentro das luvas e já está. Aquecemos as mãos num instante, e minimizam-se os problemas térmicos que geralmente começam por afectar as extremidades.

Thermopad

E quanto custa esta maravilha da técnica? Menos de 2 Euros na generalidade dos sites que o comercializam. Podem ir ao site original do produto clicando aqui.

Continuação de bons treinos e boas provas (sempre em segurança 😉 )!!!