Outra vez a correr na passadeira

Para quem nunca tinha corrido em passadeira, duas experiências na mesma semana é dose.

Se na terça-feira a experiência no Kalorias foi de livre vontade, hoje foi uma espécie de obrigação.

As organizações das provas de trail running com grandes distâncias e grande desnível, solicitam quase todas um atestado médico que certifique a ausência de quaisquer impedimentos para a prática desportiva. Como ainda não tinha tal atestado e as próximas provas requerem o mesmo, tinha de tratar disso com alguma brevidade e hoje foi o dia.

Após uma pesquisa dos locais que efectuam este tipo de consultas, acabei por optar pelo Centro de Medicina Desportiva de Lisboa, entidade estatal onde os atletas de alto rendimento das diversas modalidades efectuam também os seus exames.

Para o comum dos mortais com mais de 34 anos, a consulta custa 99,80 Euros e é composta por análises ao sangue e urina, exame biométrico e oftalmológico, ECG, RX pulmonar, consulta de medicina desportiva, e prova de esforço com ECG.

Foi a primeira vez que fiz uma prova de esforço e esta seguia o protocolo de Bruce. Para quem não sabe, a ideia da prova de esforço é submeter-nos a uma determinada modalidade de esforço físico graduado e monitorizado com electrocardiograma, aumentando a demanda metabólica do coração, avaliando assim, entre outras coisas, a aptidão cardio-respiratória global e a presença de isquemia no músculo cardíaco. O protocolo de Bruce é uma das maneiras de avaliar e quantificar esse esforço. Basicamente colocam-nos numa passadeira, lá vem a (mal)dita passadeira de novo, (e continuo a não ter jeito para correr na passadeira), onde temos de andar e correr períodos de 3 minutos a determinada velocidade e inclinação, até chegarmos ao nosso limite anaeróbio ou, se formos prós, ir até ao final do teste que poderá durar até aos 21 minutos.

Protocolo de Bruce (Tabela Máxima)

Etapa Minutos

Inclinação (%)

Km/h

METS

1

3 10 2.7

5

2

3 12 4.0

7

3

3 14 5.4

10

4

3 16 6.7

13

5

3 18 8.0

15

6

3 20 8.8

18

7

3

22

9.6

20

Como não sou pró e até já sou entradote, não fui até ao fim do teste, mas para a minha condição actual e com o tornozelo meio empenado até não foi mau de todo, algures na metade final do teste.

O resultado deste teste permite também calcular o VO2Max, existindo fórmulas diversas para esse cálculo, mas isso fica para outro texto.

Do ponto de vista do paciente todo correu normalmente, resta esperar os oito dias para levantar os exames e espero que com estes todos os certificados de provas que pedi para assinarem, atestando a ausência de quaisquer problemas.

O momento alto desta experiência decorreu na fase da consulta com o médico de medicina desportiva. Terminada a auscultação, aponta o estetoscópio na direcção da minha barriga e comenta: “um bocadinho gordinho, andar a correr com isto montanha acima…”

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!

Mr. Bean na Passadeira

Não há nada como sair para a rua e correr. A sensação de experimentar os elementos, sentir a chuva a bater na cara, atravessar um riacho, sentir o calor do sol no pescoço e nas costas, sentir os pés a afundar na neve ou na areia da praia, são sensações únicas e que me deslumbram nos diversos circuitos que uso para correr.

Os pisos encharcados depois de um dia chuva e um tornozelo ainda queixoso recomendavam prudência, e talvez o adiar do treino de 16Km previsto no plano para o dia de anteontem. Como a contagem decrescente para o MIUT não pára pensei numa alternativa para fazer o treino em segurança, e já que ia ao Kalorias pareceu-me que a solução seria fazer os 16 Km numa das passadeiras lá do ginásio. E se melhor o pensei melhor o fiz, chego ao Kalorias e toca a saltar para a primeira passadeira disponível, e foi neste momento que me comecei a sentir um verdadeiro Mr. Bean na passadeira…

Olho para a consola da passadeira e penso qual seria o treino que me apetece fazer. Diversas opções disponíveis, do treino rolante ao escalar uma montanha, tudo é possível. Pensei: “já que tenho de correr 16Km e isto na passadeira é mais mole que correr na rua, aproveito e testo o tornozelo na inclinação e velocidade”. E assim fiz, pareceu-me que a opção de corrida óbvia seria a “Random Hill” e toca a inserir os dados de configuração: velocidade máxima pretendida, inclinação máxima pretendida, peso, idade e duração do treino. Pareceu-me que o tornozelo se aguentaria bem a 5 min/km pelo que estimei 80 minutos para o meu treino de passadeira. Introduzo a velocidade, inclinação, peso, idade e os tais 80 minutos. Teclo 80 e o mostrador passa para 60. Pensei para os meus botões: “estupido, carregaste no 6 em vez do 8”, e enquanto pensei a passadeira começa a mover-se… Toca a parar tudo. STOP, paragem de emergência, e toca a introduzir os dados de novo: random Hill, velocidade, inclinação, peso, idade e 80 minutos, e o raio da passadeira passa de novo para os 60! Enquanto pensava de novo para os meus botões a passadeira começou a mover-se e toca a parar tudo de novo. Parei e pensei: “querem ver que o raio da passadeira não dá para mais que 60 minutos!? Não pode ser… “. Entretanto sou abordado por um instrutor estagiário que se foi apresentar, estivemos cinco minutos na conversa, e quando retomei o treino as palavras que tinha na mente eram “não pode ser…” e repeti tudo de novo na terceira tentativa. Random Hill, velocidade, inclinação, peso, idade e 80 minutos, e o raio da passadeira mete 60 e começa a rolar, e eu a começar a ficar com uma espécie de raiva, carreguei de novo no STOP e parei tudo de novo. Como por defeito sou uma pessoa optimista pensei: “Não vais ser mais teimosa que eu, vou escolher o modo manual e vais fazer o que eu quiser”, e assim fiz. Modo Manual, velocidade, inclinação, peso, idade e 80 minutos, e não é que a teimosa da passadeira me apresenta de novo 60 minutos! Já tinham passado uns bons 15 minutos e quilómetros 0, o treino não estava mesmo a começar bem. Entretanto a passadeira começa a rolar… Toca a para tudo de novo, respirei fundo e estupidamente pensei que tinha de haver maneira de seleccionar 80 minutos. Começo a vasculhar as opções de treino na consola e enquanto pensava nas diversas opções, a passadeira começa a rolar… Cansado desta luta de vitória improvável pensei: “que se lixe, vou mas é correr e depois logo se vê”. Como acabei não seleccionando nenhuma opção a passadeira marcou, não 80, nem 60, mas sim 20 minutos, e resignei-me a esta sorte, convicto que o iria repetir as vezes necessárias até fazer os 80 minutos de treino, a passadeira podia ganhar uma batalha mas não iria ganhar a guerra.

A atravessar um riacho no I Trail do Fluviário de Mora

Lá corri os 20 minutos, brincando com diversas velocidades e inclinações, chegando ao fim do tempo com pouco mais de 4 Km. O que faço agora pensei eu, ainda faltavam 12 Km para o objectivo, pelo que me pareceu óbvio: Random Hill, velocidade, inclinação, peso, idade e desta vez 60 minutos. A passadeira começa a rolar. Rola, rola, mas sempre muito abaixo dos 5min/km que tinha indicado como velocidade máxima, tão abaixo que apenas me permitia caminhar em passo não muito rápido. A inclinação continuava no 0 apesar de ter indicado 20 como inclinação máxima. Desta vez decidi esperar pelo que acontecia e aguardar pelas surpresas do Random Hill. Um minuto, dois minutos, e nem o ritmo nem a inclinação se alteraram. Começo a carregar nos botões da velocidade e da inclinação para criar alguma emoção e lá consegui finalmente correr. Há minha frente um LCD passa o jogo da Liga dos Campeões entre o Mónaco e o Arsenal. Cinco minutos de treino e a passadeira parece ganhar vida, acelera um pouco e eu acelerei também. Na TV o Arsenal carregava sobre o Mónaco enquanto eu corria. De repente a passadeira abranda, dei um passo mais rápido e com a barriga carreguei no “STOP”, o tal botão que para tudo de emergência. Tinha corrido pouco mais de dois quilómetros. Dei-me por vencido e desta vez deixei a passadeira ganhar a guerra. Desci da passadeira, alonguei e fui para o banho.

Continuação de bons treinos e de boas provas!!!