O espirito do trail e os sonhos

Não é que não goste de ser português, mas penso que é quase unânime reconhecer que o espírito dos nuestros hermanos é bem mais fervoroso, não em particular no que diz respeito ao espírito do trail mas antes em qualquer que seja o espírito envolvido. Seja em questões sociais, em questões políticas, e para o que me interessa neste post, em questões desportivas.

É impressionante ver a “movida” espanhola quando qualquer um compatriota se envolve numa competição desportiva, é entrar para ganhar e com todo um país atrás a dar suporte. Exemplos há muitos, desde o Alonso na Fórmula 1, ao Nadal no Ténis, às selecções de Basket, de Andebol, de Futebol, e claro aos atletas de atletismo.

Uma das grandes figuras do atletismo espanhol é Chema Martinez, que tive o prazer de conhecer há três anos atrás por altura da minha estreia na maratona de Sevilha. Era ele a figura que promovia a maratona de Sevilha desse ano, e foi extraordinário sentir a emoção, o carinho e todo o apoio que os comuns espectadores espanhóis nutriam e demonstravam por ele. Um Chema Martinez que já estava na fase final da sua carreira profissional e que ainda assim era acarinhado de uma forma extraordinária. Para quem não conhece, o Chema Martinez ganhou várias medalhas de Ouro e Prata em Campeonatos da Europa de Atletismo em distâncias entre os 5000m e a Maratona. Era um atleta profissional de alto nível, o seu recorde na maratona é de 2:08:09, e é daqueles que em vez de arrumar as sapatilhas decidiu abraçar as corridas de aventura, sobretudo as maratonas no deserto.

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Chema Martinez na Marathon des Sables 2016

Vem isto a propósito da Marathon des Sables que terminou há dias, e em que Chema foi o melhor atleta não africano com um fantástico quarto lugar. Para quem não sabe a Marathon des Sables é uma Ultra Maratona no deserto, por etapas e com quase 290 quilómetros de distância. Chema já tinha partilhado na sua página do facebook algo como: que a armada marroquina esteve muito forte, que ficou em quarto lugar nesta edição mas que sonha com o pódio nesta prova e vai continuar a tentar atingir esse objectivo.

Entretanto hoje partilhou o seguinte:

“Ya estoy en Casablanca, pero mi mente no deja d dar vueltas a lo vivido estos días en Sables!
Cuando cruzas la línea d meta ya eres GANADOR!! Y eso, no te lo va a quitar nunca nadie!
Lamentablemente no todo el mundo lo consigue…así q estas líneas van dedicadas a todos aquellos q no han conseguido su sueño y q seguro volverán para conseguir culminar esta gran gesta!
Nunca debemos dejar de soñar!!”

São palavras que vindas de um atleta de um nível tão estratosférico, com um palmarés tão impressionante no mundo do atletismo e que agora se dedica a estas provas de trail/aventura, dão uma verdadeira dimensão e uma motivação extra a todos os atletas de pelotão, cujo objectivo é mesmo e apenas terminar com sucesso estas aventuras. É este também um pouco do “espírito do trail”, atletas de elite apoiarem, incentivarem e motivarem o mais comum dos atletas do pelotão.

Retive sobretudo as palavras: Nunca devemos deixar de sonhar!!

É este o mote para passar para o não menos fantástico Carlos Sá, que participou nesta mesma Marathon des Sables e terminou num fantástico oitavo lugar. Apesar de não ter um palmarés tão vasto como o Chema, se calhar fruto de ninguém ter reparado e apostado no seu talento quando jovem, o Sá não lhe fica atrás na capacidade atlética e, por exemplo, ainda há dois meses atrás terminou à frente do Chema na The Coastal Challenge, uma Ultra Maratona de 236Km na Costa Rica.

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Carlos Sá na Marathon des Sables 2016

Este ano o Carlos Sá foi participar na Marathon des Sables em equipa, com outros fantásticos atletas de renome do ultra trail mundial (Harvey Lewis (EUA), Jason Schlarb (EUA), Marco Olmo (Itália), Ricardo Mejia Hernandez (México)), para promover a divulgação da causa I Run 4 Hope, e conseguiram um fantástico segundo lugar por equipas logo atrás da equipa marroquina, o que foi um resultado fabuloso.

Partilhou o Carlos Sá na sua página o seguinte: “…este será o meu último ano na maratona das areias, fica por cumprir um sonho que era correr em equipa totalmente Portuguesa e competitiva, para tentar este pódio que acabo de conseguir com a equipa Internacional, mas como sei ser praticamente impossível conseguir sponsors em Portugal para essa mesma equipa vai ficar esse desejo por cumprir.”

Que raio de país é o nosso?!

O Chema em Espanha teve reportagens todos os dias na Marca, com artigos, fotos, vídeos, uma verdadeira promoção do atleta, do desafio e do feito conseguido.

Por cá há a promoção dos admiradores nas redes sociais, e esporadicamente umas linhas em algum jornal, muitas vezes com nomes trocados ou referências de quem não sabe sequer sobre o que está a escrever.

Fosse em Espanha, fosse o Chema Martinez a lançar um desabafo/desafio destes, e aposto que hoje já existiam patrocinadores para promover uma armada espanhola para vencer a Marathon des Sables. E olhem que Espanha tem atletas de trail dos melhores do Mundo…

Por cá, certamente que será difícil uma ou duas grandes empresas patrocinarem com 40 ou 50 mil euros uma equipa portuguesa de topo, para lutar por um lugar no pódio numa prova tão mediática como esta. Atletas de qualidade e vencedores nas mais mediáticas e difíceis provas do calendário mundial não nos faltam, mas infelizmente a visão quadrada de quase todos nós portugueses, não merece muito mais do que isto.

Eu confesso que gostaria de ver uma Armada Tuga de elite na Marathon des Sables 2017, eu confesso que partilho do sonho do Sá e que gostaria de ter uma equipa destas a competir na MDS.

Têm ideias para ajudar este sonho a tornar-se realidade? Partilhem aqui e vamos ajudar uma das maiores figuras do Trail Mundial a concretizar este sonho! 😉

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

 

Ser feliz é obrigatório

“Failure and fight are parts of the game. Be happy is obligatory.”

Estas são palavras da Ultra Atleta brasileira Fernanda Maciel, que entre outros feitos, bateu na semana passada o recorde na subida e descida ao pico Aconcágua, o mais alto da América e situado nos Andes Argentinos, com 6960 metros de altura.

É interessante constatar mais uma vez esta partilha de valores tão simples mas tão sábios por mais uma atleta de elite.

Partilho muito a opinião da Fernanda. O que mais importa na vida é ser feliz.

aconcagua

Correr, definir e alcançar objectivos, ultrapassar os nossos limites, é muito importante e dá-nos uma sensação muito especial, daquelas que é quase impossível traduzir em palavras.

Por outro lado é necessário lutar. Preparar grandes desafios, como uma corrida de 170Km nos Alpes, requer uma dose diária de luta, persistência e inteligência, que nos põe à prova durante longos meses antes de tentarmos atingir o cume da felicidade.

E não menos importante é saber aceitar o fracasso quando algo corre menos bem ou não de acordo com o que sonhámos inicialmente. É importante saber parar, não forçar o corpo a ultrapassar limites que podem causar danos (muitas vezes irreversíveis), e aceitar que perdemos uma batalha mas que vamos continuar na guerra, a perseguir esta felicidade que encontramos a correr nas montanhas.

(Para reflectir.)

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!!

 

UMA ideia que não me sai da cabeça

Desde há uns meses a esta parte que UMA ideia “esquisita” tem andado a remoer na minha cabeça: a Ultra Maratona Atlântica.


Para quem não sabe, a Ultra Maratona Atlântica (UMA) é uma corrida de 43 quilómetros em areia, em pleno verão (este ano a 28 de Julho), de Melides a Tróia e em auto-suficiência, (água e/ou comida tem de ser transportada pelo próprio atleta desde o início da prova).

Diz quem já a fez que é uma prova dura, mas que qualquer um, desde que minimamente preparado a pode fazer com sucesso, isto é, pode chegar ao fim e cruzar a meta.

É estranho o bichinho da UMA não me sair da cabeça, pois ainda nem a minha segunda maratona corri e já estou a pensar na terceira. Diz o poeta que o sonho comanda a vida, e eu acrescento que a realização só acontece quando a vida concretiza o sonho, pelo que decidi acalmar o bichinho da UMA e dar inicio à concretização do sonho, e para tal já efectivei a minha inscrição na Ultra Maratona Atlântica.


Até lá, ainda terei de correr a Maratona do Luxemburgo, e só depois começar o treino e adaptação à corrida na areia. Será mais um passo na doce loucura que é esta vida.

E, parafraseando T.S. Eliot: Só aqueles que arriscam ir demasiado longe ficarão a saber até onde podem ir.