Boa sorte no UTMB 2017

Hoje é dia de dar os parabéns a uma dezena de amigos que tiveram a fortuna de ser sorteados para participar na edição de 2017 do Ultra Trail Mont Blanc.

Mas sensações que se têm quando se é sorteado e se vai participar pela primeira vez são, penso eu, uma mistura de alegria e de temor.

Alegria porque se vai participar numa das provas mais famosas do mundo, temor por que sabemos que ainda só estamos a meio caminho e que ainda vai ser preciso treinar duro nos 8 meses que faltam até à partida.

Participar no UTMB para um mortal como eu, é sobretudo um grande privilégio, pelo que há que ir com dias para desfrutar o evento, toda a semana em que o evento decorre se possível.

Participar no UTMB é como se um “coxo” que só sabe dar dois toques na bola, tivesse a oportunidade de treinar toda uma semana com o Real Madrid e ser titular no Domingo seguinte ao lado do Cristiano Ronaldo e companhia. É poder partilhar eventos com os melhores atletas de trail running do mundo, +e poder correr, ou pelo menos partir, ao lado deles, é desfrutar de uma mega organização, super profissional, onde efectivamente nos parece que tudo está no sítio e a funcionar.

Participar no UTMB é mesmo esse privilégio, de desfrutar o ambiente do evento, de sentir a energia da partida, de usufruir da entreajuda ao longo do percurso.

O Monte Branco é fantástico, subir aqueles picos é enorme, as paisagens são fabulosas, a organização do UTMB é fabulosa.

Vão, divirtam-se e regressem com muitas histórias para contar.

Nota: Os ainda mais “malucos” que vão participar na maior prova do Ultra Trail Mont Blanc, a PTL 290Km pelas montanhas em auto-suficiência, a minha insana solidariedade. O Sr. Ribeiro, o Sr. Manel, o Sr. Julião, o Sr. Bruno, o Sr. Diogo, o Sr. Gonçalo, entre outros, têm o meu respeito e estão mesmo no topo da loucura! Força e vou acompanhar a vossa aventura à distância mas com muita atenção. O Sr. Ribeiro vai ter histórias para partilhar nos próximos 5 anos…

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Agradeço desde já a vossa participação.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

A caminho de Santiago III

O segundo dia parecia-me que seria o mais crítico. Depois da sova dos 44Km do primeiro dia de caminho, a primeira etapa começava com 15Km até Pontevedra.

O despertar foi suave. A ideia era sair às 7h mas acabamos saindo já bem depois das 9h00. Aproveitámos para recarregar a energia das pernas e tomar um pequeno-almoço reforçado antes da saída do hotel e assim iniciar a primeira etapa do dia igualmente com o estômago revigorado.

O sol despontava com vergonha pelo que a manhã estava um pouco fria, mas a paisagem da Ria de Vigo com o sol a despontar atrás da serra aquecia a alma enquanto caminhávamos.

Seguimos até Ponte Sampaio, local onde cruzámos o Rio Verdugo sobre uma monumental ponte de pedra. Este troço do percurso foi muito giro, cruzando a vida serpenteando por um caminho quase sempre a subir, entrando depois num trilho ladeado de árvores com folhas de todas as cores. O calor apertava e tive de fazer uma paragem técnica para trocar o casaco por uma tshirt mais leve. Os relatos que recebíamos de Lisboa indicavam um temporal cá pelo burgo, e nós no norte de Espanha tínhamos um sol esplendoroso.

Este misto de trilho e caminhos rurais levou-nos até Lusquiños, localidade já a poucos quilómetros de Pontevedra.

Ao longo desta etapa cruzámos alguns lugarejos com igrejas e capelas, para variar todas fechadas, excepção feita à Capela de Santa Marta em Santa Comba de Bértola, pequena capela datada de 1617.

Chegámos a Pontevedra por volta das 14h00, preparados para repor energias de preferência com um belo almoço.

Pontevedra é a capital do Caminho Português de Santiago em Espanha, e a mais pequena das cinco cidades galegas com cerca de 80000 habitantes.

Cruzámos o centro da cidade, visitámos a capela da Virgem Peregrina de Pontevedra erguido em 1778, e procurámos um local para almoçar. Cruzámos dezenas de restaurantes no centro histórico de Pontevedra mas nenhum nos inspirou a entrar para o almoço.

Já atravessávamos a Ponte do Burgo sobre o Rio Lérez, quando constatámos que dali para a frente seria mais difícil almoçar e que não tínhamos visitado a Basílica de Santa Maria, uma das mais bonitas igrejas de todo o Caminho, pelo que demos meia volta e fizemos esse pequeno desvio.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
03:29:31 02:54:28 14.47 4.98 12.24 243.00
hours hours km km/h km/h meters

Passámos uns largos minutos sentados a descansar no fresquinho que se sentia no interior da basílica, enquanto contemplávamos toda a arte e arquitectura.

Aproveitámos para carimbar a credencial de peregrino, quando a Marisa repara na porta atrás da senhora que nos carimbou a credencial com a placa: TORRE, MUSEU, VISTA PANORÂMICA. Instintivamente disse-me: vamos ver. Espantado, paguei os dois euros para a entrada e a senhora gentilmente abre a porta para passarmos, ao que a Marisa constata que tínhamos de subir escadas! Distraída e cansada dos 60 Km que já tínhamos nas pernas, nem pensou que “torre” implicaria subir escadas. Mas lá fomos 3 ou 4 andares em escada de caracol até chegar ao topo da torre e assim observar a bonita vista panorâmica ao redor de Pontevedra.

Como há que descobrir algo positivo em tudo o que fazemos, a subida à torre foi providencial; permitiu-nos vislumbrar um spot numa esplanada virada para o sol onde decidimos almoçar e que simplesmente, depois de lá estarmos é claro, constatámos que foi excelente. O restaurante Padal, com um menu de degustação muito simpático, de muita qualidade e preço reduzido, foi a melhor refeição de todo o Caminho, e retemperou-nos o estado de espírito para a etapa da tarde. Se passarem por Pontevedra não hesitem em ir lá petiscar, fica mesmo atrás da basílica.

(continua)

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A caminho de Santiago II

O sol estava quentinho na esplanada onde parámos para o almoço em O Porriño, talvez a nossa pior refeição ao longo desta aventura, o que retemperou o ânimo para a etapa da tarde.

Seguíamos sabendo onde gostaríamos de chegar, mas sem sermos rigorosos no objectivo de chegar a determinado lugar. Seriam as pernas e a vontade a ditar o locar onde pernoitaríamos.

Já passavam das 15h30 quando partimos tranquilamente rumo a Redondela.

No meu pé esquerdo reinava já uma bonita bolha, fruto de mais uma idiotice minha ao utilizar uns ténis que sabia terem uma palmilha danificada, o que motivou uma ida ao supermercado para comprar uns pensos e álcool para tentar remediar a situação.

O percurso até Redondela foi animado com a observação de alguns cruzeiros e a Igreja de Santa Eulália.

Ao longo de todo o caminho até Santiago encontrámos muitas igrejas e capelas que gostaríamos de ter visitado mas, curiosamente, encontravam-se sempre fechadas, fosse a que hora do dia fosse.

O por do sol tinha ficado para trás enquanto percorremos uma longa estrada que ligou O Muro a Redondela, e chegámos aqui já de noite.

O cansaço já se fazia sentir nas pernas e tínhamos agora duas opções, ficar em Redondela ou seguir mais 4Km até Soutoxuste onde sabíamos existir um hotel muito tranquilo com vista para o mar, bonita para o despertar e inspirar as etapas do dia seguinte.

Parecia pouco, a Marisa que tem menos experiência nestas maratonas sentia-se bem, mas quando se vai com quase 40Km nas pernas mais 4 Km podem fazer toda a diferença. Ponderámos os pros e contras e decidimos seguir até Soutoxuste. Iriamos fazer mais 4Km que a etapa oficial, mas no dia seguinte já estariam feitos pelo que nada se perdia tudo se adaptava.

Um pouco como previ estes 4 Km foram longos, muito longos. A Marisa quebrou e acabámos demorando mais de uma hora para chegar ao nosso destino. Lá chegados estávamos como se tivéssemos terminado de correr uma maratona a bom ritmo. Não foi isso mas tínhamos caminhado cerca de 44Km e quando parámos parece que todo o cansaço do dia se acumulou naqueles 30 minutos seguintes.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
04:52:48 04:21:34 22.08 5.07 12.24 364.00
hours hours km km/h km/h meters

Uma canja e um polvo à galega (muito fresquinho), acalmaram o estomago e permitiram que o colchão macio da cama fosse ainda mais bem apreciado (como se tal fosse necessário…).

O cansaço tornou a nossa noite muito calma e tranquila, era tempo de recuperar e não desanimar para o dia seguinte. O objectivo era sair às 7h00 mas mais uma vez esse objectivo não seria cumprido.

Terminámos o primeiro dia do Caminho com 44Km nas pernas.

(Continua)

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A caminho de Santiago I

O objectivo era sair às 7h00, mas estava quentinho na cama e entre acordar e tomar um pequeno-almoço reforçado para ganhar energia para a etapa que nos esperava, acabámos por sair de Valença pouco depois das 8h00.

Cruzámos o interior da imponente fortaleza de Valença, e cruzámos a fronteira a meio da ponte internacional oitocentista, cruzando o Rio Minho e com Tui a esperar-nos na outra margem.

Já em Tui, passamos pela Pousada San Telmo e deparamos com um marco do Caminho de Santiago que marcava 115,454 Km para Santiago. Seguimos em direcção à Catedral de Santa Maria para carimbar a nossa credencial de peregrino.

Seguimos bem-dispostos. Levava uma mochila com cerca de 8Kg às costas à qual ainda me estava a habituar. Nos primeiros quilómetros mal dava por ela, mas com o passar do tempo era necessário ajustar aqui e ali de modo a manter o conforto nas costas.

Seguimos o Caminho utilizando o percurso alternativo à passagem pelo Polígono Industrial d’O Porriño. Seguimos até O Porriño percorrendo os sendeiros e estradas florestais da variante das Gándaras, e depois pelo trilho que serpenteia ao longo do Rio Louro. A entrada parar esta variante é algo confusa, pois existe muita sinalização contraditória, e muitas indicações para a variante pintadas com tinta negra. Felizmente a lição estava bem estudada, e após caminharmos umas dezenas de metros na direcção do Polígono Industrial, voltámos para trás e encontrámos o caminho variante. O trilho desta variante é muito bonito, sendo um percurso densamente arborizado, com diversas pontes de pedra que cruzam as margens do rio.

Chegámos tranquilamente à Capela do Santo Cristo da Agonia em O Porriño, pouco antes das 14h00. De alma cheia mas com o estomago vazio, foi necessário efectuar uma pausa técnica para almoçar e descansar um pouco.

Tínhamos agora 21,4Km nas pernas e faltava percorrer a etapa vespertina.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
04:25:32 04:03:32 21.48 5.29 15.84 281.00
hours hours km km/h km/h meters

Esta primeira etapa é uma das mais interessantes do percurso. A Fortaleza em Valença, Tui, o trilho ao longo do rio, a chegada ao centro de O Porriño, são bonitos de ver e percorrer.

Talvez por ser Dezembro apenas nos cruzámos com um outro peregrino ao longo do percurso e esta seria uma regra que se iria manter até ao final da nossa aventura.

(Continua)

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A caminho de Santiago

2016 foi ano de cumprir um desígnio que há muito andava para ser cumprido: percorrer o Caminho Português de Santiago.

Aproveitei o feriado de 1 de Dezembro agora reposto, acrescentei um dia de férias, e fiquei com 4 dias para ir de Lisboa a Valença do Minho de transportes, percorrer os 120 quilómetros de Valença do Minho a Santiago de Compostela a pé, e regressar de Santiago a Lisboa.

Se eu não teria grandes problemas em fazer esta distância a correr, já a Marisa, que me partilhou comigo esta aventura, não está habituada a correr estas distâncias. Assim o plano era fazer este percurso a pé em 3 etapas, o que dava a bonita média de 40 quilómetros por dia.

O percurso está oficialmente dividido em 6 etapas e tínhamos a consciência de que fazer duas etapas por dia seria mais difícil, mas o plano estava traçado e iríamos dar o nosso melhor no tempo que tínhamos disponível.

As nossas premissas eram as mais simples possíveis: ir o mais longe possível dentro da distância que tínhamos previsto para cada dia, acordar cedo para começar a andar com o nascer do sol, e parar para descansar assim que começasse a anoitecer.

Com isto em mente, chegámos a Valença já noite dentro no último dia de Novembro, depois de uma relaxante viagem de comboio primeiro até ao Porto, depois até Valença.

Tínhamos agora algumas horas para descansar e partir à aventura na manhã seguinte.

(Continua)

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2017 e aqui vamos nós!

Votos de um excelente 2017 para todos!

Muitos quilómetros nas pernas, sem lesões e sempre animamos por esses trilhos ou estradas fora.

Para mim 2017 será o ano de um novo recomeço.

Depois de quatro meses mais preguiçoso pós UTMB, eis que estou de volta aos treinos regulares. Este não será o ano das maiores aventuras desportivas, prevejo um ano calmo a esse nível, mas será um ano de muita felicidade também a correr os trilhos do nosso Portugal.

Entretanto e para começar bem o ano, o Off The Beaten Track foi de novo escolhido pelo site Run Ultra, como um dos nomeados para o Blogger Awards 2017, evento que vai promover a escolha do melhor blogue sobre Ultra Running.

Mais uma vez todos os nomeados são concorrentes de peso, mas conto com a vossa ajuda para votar e tentar levar o Off The Beaten Track o mais longe possível. O Ano passado ficámos no TOP 5, vamos tentar fazer melhor este ano.

Para votarem cliquem aqui, escolham o meu nome para votar no Off The Beaten Track, vão até ao final da página e sigam as instruções que lá estão para concluir a votação e já está.

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Os melhores momentos do Trail World Championships 2016

Os melhores do mundo do Trail Running estiveram no Gerês.

Faltou, talvez, a melhor selecção dos Estados Unidos, para a competição ser ainda mais forte.

Assim o título decidiu-se entre franceses e espanhóis, com o Espanhol Luis Alberto Hernando a conquistar o título individual masculino e a francesa Caroline Chaverot a ganhar o título feminino. Por equipas a França fez a dobradinha, vencendo a classificação colectiva em masculinos e femininos.

Foi uma competição enorme, como se quer de um Campeonato do Mundo, muito bem organizada pelo Carlos Sá e a sua equipa, e de todos os artigos, entrevistas ou reportagens que tenho lido, é unânime que esta foi uma grande prova e uma excelente competição.

A equipa portuguesa também se portou muito bem, e apesar de alguns contratempos com lesões ainda conseguiu um brilhante sexto lugar nos femininos e quinto lugar nos masculinos.

Foi pena não estar presente uma massa humana correspondente à dimensão desta prova a apoiar os atletas nos melhores pontos do percurso, zona da meta incluída, mas mesmo assim considero que estamos a melhorar a nossa cultura desportiva.

Partilho aqui convosco o vídeo com os melhores momentos desta competição.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

Campeonato do Mundo de Trail Running

 

Amanhã muitos de nós terão o privilégio de assistir aos Campeonatos do Mundo de Trail Running. Quem quiser ver ao vivo muitos dos melhores atletas da actualidade desta modalidade, apenas tem de se deslocar até ao Gerês e esperar pela sua passagem, e de certeza que não vai dar o seu tempo por perdido.

As Selecções Nacionais de cada país, estão representadas ao mais alto nível, à excepção talvez dos Estados Unidos que não trás os seus melhores atletas, a adivinha-se uma competição renhida, com destaque, talvez, para as selecções de Espanha e França, que apresentam os seus melhores atletas.

A Selecção Nacional também está muito bem representada, e pode ser que o factor “casa” possa ser uma mais-valia para fazermos um brilharete.

portugal

 

A corrida tem início às 5h00 em Rio Caldo e percorrerá 85Km até à meta em Arcos de Valdevez, onde os primeiros deverão chegar por volta das 13 horas. Podem consultar todo o percurso da prova e os melhores locais para assistir clicando aqui.

Esta é uma oportunidade única de assistir a um evento de classe mundial, com muitos atletas de topo. Aproveitem 😉

Um voto de boa sorte a todos os atletas participantes e em particular para a nossa Selecção!

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

The show must go on…

Ter de desistir no Ultra Trail Mont Blanc foi como falhar o último penálti na final da Liga dos Campeões.

Foi sentir a festa, sentir todo o ambiente à volta da prova, partilhar momentos com muitos outras atletas, sentir as dificuldades e desfrutar das paisagens fantásticas do Monte Branco, e chegar ao fim e ver os outros levantarem a taça.

Não me sinto desiludido pois sei que fiz o melhor que consegui. Sinto-me chateado e irritado comigo próprio porque um erro estúpido, de rookie, mas de qual apenas sou o único responsável, comprometeu tudo o que ficou para trás.

E para trás não ficaram apenas os quase 100Km que corri no UTMB, ficaram também, os 1400 Km de treino específico para esta prova, os 150 Km do Ultra Trail Cotê d’Azur, os 115 Km do MIUT, os 82 Km do Arrábida Ultra Trail, e os mais de 3500Km com que preparei estas provas que me permitiram qualificar e participar no UTMB.

Sabia bem ao que ia, daquilo que fiz deu para perceber que o UTMB não é mais duro que o Ultra Trail Cotê d’Azur. Estava relativamente bem preparado (para o meu nível) e, nos 100Km que percorri, não cheguei a conhecer o homem da marreta. Muscularmente estava bem e tinha a percepção que podia ir mais longe sem problemas.

Literalmente, eu tinha a marreta nas mãos e deixei-a cair nos meus pés.

Decisão de última hora antes da partida, decidi calçar umas meias mais grossas do que aquelas com que treinei nos últimos meses. Pior do que isso, apesar das centenas de quilómetros que já corri com aquelas meias, nunca tinha experimentado o binómio meias + ténis com que iniciei o UTMB. O muito calor que se fez sentir e o acumular de quilómetros, fez com que os meus pés inchassem mais que o normal. Em conjunto com umas meias mais grossas que o habitual e os pensos que levava nos dedos, criei uma mistura explosiva que começou a surtir efeito logo a partir do Km 16 quando se iniciou a descida para Saint-Gervais. Não sentia os pés confortáveis, os dedos queriam sistematicamente ultrapassar a frente dos ténis, e ou os encolhia ou os deixava roçar na malha. Cheguei a Saint-Gervais com essa sensação de desconforto, mas os longos quilómetros seguintes sempre a subir atenuaram essa sensação de desconforto. O pior veio a seguir com a descida para Les Chapieux. Sem perceber bem porquê cheguei lá em baixo com os pés desfeitos e os dedos dos pés quase mortos. A subida seguinte atenuou novamente a dor, mas a descida até Lac Compal foi novamente demolidora e, sei agora, acabou com o que restava dos meus dedinhos. Cheguei a Lac Combal e fiz aquilo que já deveria ter feito há mais tempo, descalçar-me e trocar as meias. Too late. A unha de meu dedo grande do pé direito estava completamente em sangue e a cada passo a descer era como se me espetassem um prego quente na parte da frente do pé. Subi até ao Col du Mont-Favre a pensar no que seria a descida até Courmayeur  e quando comecei a descer foi simplesmente brutal, o misto de sentimentos entre a força para continuar e o sacrifício para descer eram contraditórios, e claro correr era impossível, e tive de me arrastar descida abaixo.

Elapsed Time Moving Time Distance Average Speed Max Speed Elevation Gain
22:38:45 18:24:28 96.94 5.27 34.92 6,060.20
hours hours km km/h km/h meters

Chegado a Courmayeur a queimar o tempo limite, apenas tive tempo para tomar um duche rápido e tratar dos pés o melhor que pude. A hora era de decisões: parar ou continuar. Decidi continuar. Tinha esperança que a subida que se seguia me animasse e animou. A subir não tinha dores por aí além e até ao refúgio Bertone ultrapassei umas boas dezenas de outros atletas. A triste realidade veio depois a caminho do refúgio Bonatti, num terreno relativamente rolante, as dores no dedo do pé aumentaram e impediam-me mesmo de correr. Comecei a fazer contas aos tempos e aos quilómetros e achei que o melhor era parar já que a situação do dedo do pé só iria piorar e dificilmente iria conseguir recuperar algum tempo naquelas condições.

Deitei-me na relva a observar as montanhas e decidi dormitar 30 minutos. Não consegui dormir mas a beleza da paisagem valeu cada segundo ali dispensado. Prossegui em direcção ao Refúgio Bonatti lentamente e a desfrutar a montanha. Cheguei ao refúgio e abandonei a prova. Falhei o penálti mas a vida continua.

Hoje foi dia de regressar às corridas. O dedo do pé direito continua em recuperação, meio dormente, ainda não totalmente recuperado da aventura, mas já aguentou 10 quilómetros sem problemas.

The show must go on!

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

UTMB 2016, o adiar de um sonho…

A minha aventura no Ultra Trail do Mont Blanc teve de terminar a pouco mais de meio.

Detesto ter de desistir ou abortar a conquista de um objectivo a meio, custa muito ter a consciência de que se está a adiar um sonho, mas sendo a corrida um hobby, continuar a correr em condições físicas deficientes e/ou que poderiam colocar em risco mais grave o meu estado físico seria um enorme disparate, pelo que, ciente de todos os factos, sei que esta foi a decisão correcta a tomar.

Ainda assim foram quase 100 Km à volta do Monte Branco, com as pernas em muito bom estado, tendo sido atraiçoado pelos pezinhos de Cinderela que neste fim-de-semana não estavam para ali virados e, assim, sem poder correr ou andar em condições lá tive de abandonar.

Mas, na realidade, estou convencido que a culpa deste abandono foi do Vargas, que lá onde ele está, deve estar desconsolado com tudo isto.

Antes da partida tinha partilhado aqui que esta era a nossa corrida e que sabia que ele me ia ajudar nos momentos difíceis que surgissem durante a corrida.

Esperto como ele é, conhecedor que sou muito céptico acerca das ajudas divinas, estou convencido de que me mandou os pés dele cá para baixo, bem maiores que os meus, para me ajudar a ter mais aderência a subir e a descer. O malandro esqueceu-se foi de de me enviar um par de ténis 3 números acima, e assim a coisa não correu bem.

Para o ano, se tiver a sorte de lá voltar, não me vou esquecer desta possibilidade e assim trazer o “nosso colete de Finisher“!

Tenho centenas de mensagens de apoio de muitos familiares e amigos que agradeço desde já, e irei responder a todos assim que me for possível, pois hoje já é dia de regressar ao trabalho.

O sonho continua vivo e novas aventuras virão.

Ainda continuo a digerir toda esta aventura, mas se tiver sorte no sorteio para 2017, lá terei de voltar para fechar esta porta que se encontra escancarada.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!