Tabata para Dummies (e para runners)

A definição de modas e a reinvenção de exercícios é cíclica. Volta e meia há uma nova palavra, um novo exercício ou um novo conceito, que circula com alguma insistência no meio em que estamos inseridos e que, mais tarde, tão discretamente como apareceu, desaparece e quase fica esquecido para sempre.

No meio das corridas, uma das palavras que por estes dias tenho ouvido com alguma regularidade é Tabata, pelo que presumo que o Protocolo de Tabata deve ser uma das modas do momento. Nada de mais até aqui, não ouvisse igualmente alguns verdadeiros disparates sobre este protocolo e o modo como é aplicado, suponho que pela ausência de conhecimento de muitos dos utilizadores desta palavra.  Vou então tentar esclarecer o que é e como funciona o Protocolo de Tabata.

O Professor Izumi Tabata, japonês, é um cientista e investigador na área do treino desportivo e em particular dos treinos intervalados de alta intensidade, também conhecidos como HIIT do acrónimo inglês High Intensity Interval Training.

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Para perceber o Protocolo de Tabata, é necessário ter presente a definição de VO2Max (capacidade máxima de consumo de oxigénio de um atleta durante um exercício de intensidade crescente) que já expliquei num outro texto e que podem reler clicando aqui. Não sendo este o único factor que afecta os corredores de longas distâncias, podemos dizer que se todos os restantes factores forem iguais, um atleta com um nível de VO2Max mais elevado terá sempre um melhor desempenho que outro atleta com um nível de VO2Max inferior. Portanto, ao aumentarmos o nosso nível de VO2Max vamos seguramente obter um melhor desempenho em corridas de longas distâncias.

Nos anos 90 o Prof. Tabata fez o seguinte estudo, onde comparou dois protocolos:

O Protocolo 1 consistiu num de treino de 60 minutos em bicicleta estacionária, 5 vezes por semana, pedalando cada atleta a 70% do seu VO2Max. Esta intensidade corresponde a cerca de 82% do batimento cardíaco máximo estimado para cada individuo. Para uma pessoa de 35 anos deverá corresponder a 150 batimentos por minuto.

O Protocolo 2 consistiu num treino intervalado igualmente 5 vezes por semana. Os atletas pedalavam em bicicleta estacionária, 7 ou 8 séries de 20 segundos a 170% do seu VO2Max, descansando 10 segundos entre cada série. Este exercício demorou apenas 4 minutos.

Quais foram os resultados?

O Protocolo 1 melhorou o VO2Max (capacidade aeróbica), sem melhorias na capacidade anaeróbica. Era este o resultado esperado.

O Protocolo 2, agora conhecido como o “Protocolo de Tabata“, resultou num aumento de 28% na capacidade anaeróbica, o que já era esperado, mas aumentou também o VO2Max ou capacidade aeróbica, tanto como no Protocolo 1.

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Este protocolo de 4 minutos, 5 vezes por semana, corresponde aos aumentos de capacidade aeróbica de 5 horas de treino semanal de intensidade moderada!

Muitas das pessoas a quem ouço referirem-se ao Protocolo de Tabata, fazem este exercício mal. Não basta fazer 8 intervalos de 20 segundos e descansar 10. A intensidade é o factor crucial e se não se atingirmos os 170% de VO2Max os resultados nunca serão os anunciados pelo protocolo. Atingir 170% de VO2Max não é fácil, e se se aplicar correctamente o Protocolo de Tabata o exercício vai “doer” e vão ser quase sempre os piores 4 minutos das nossas vidas. Vamos chegar ao ponto de ter náuseas, de não querer repetir mais este exercício no dia seguinte ou desejar ter feito antes o treino de uma hora de corrida a ritmo moderado.

Como encaixar o Protocolo de Tabata no plano de treinos habitual?

O Protocolo de Tabata é excelente quando a nossa disponibilidade de tempo para treinar é reduzida. Por ser um exercício de alta intensidade, é importante não o fazer com o estomago cheio, e dar particular importância ao aquecimento, de preferência aquecimento dinâmico acrescentado de alguns minutos ou quilómetros de corrida, de modo a evitarmos o surgimento de alguma lesão.

Depois é programar o relógio ou usar uma das milhares de APPs que existem para telemóveis e iniciar o exercício. Correr o mais rápido possível durante 20 segundos. (Pessoalmente recomendo que se comece a desacelerar nos 15-17 segundos da série, para conseguirmos parar exactamente aos 20 segundos do intervalo. Isto não é batota, pois a desaceleração pode consumir tanta energia como a aceleração.) Descansar 10 segundos e repetir mais 7 vezes. No final andar em ritmo tranquilo umas centenas de metros para relaxar, e concluir com os tradicionais alongamentos de final de treino.

Nunca esquecer que a intensidade é o factor chave para o sucesso do protocolo. Se não “doer” é porque estamos a fazer alguma coisa mal ou a não puxar até aos 170% de VO2Max.

Em apenas 20-30 minutos, consegue-se fazer um exercício completo e intenso, e estamos prontos para seguir para as restantes actividades do dia-a-dia.

Para quem tem mais tempo (e mais estomago) existe também a variante longa do Protocolo de Tabata.

Esta variante consiste em fazer 6 intervalos de 20 segundos com VO2Max a 170%, descansando 10 segundos entre séries. Descansar 1 minuto. Fazer de novo 6 intervalos de 20 segundos com VO2Max a 170%, descansando 10 segundos entre séries. Descansar mais 1 minuto. E fazer novamente 6 intervalos de 20 segundos com VO2Max a 170%, descansando 10 segundos entre séries.

Isto perfaz um exercício de 11 minutos que, se bem executado, vai “doer” ainda mais que o exercício de 4 minutos. Não esquecer o aquecimento (muito importante) e o cool down e alongamentos como em qualquer outro treino.

Este tipo de exercício faz-se muito bem em pista, mas também pode ser feito numa ligeira (ou não tão ligeira) subida, ou em escadas, se precisarem de aumentar (ainda) mais o nível desafio.

Continuação de bons treinos e de boas aventuras!!!

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A intensidade de treino

A intensidade do treino é uma das dúvidas mais frequentes que ocorrem a quase todos os atletas, quando se começa a treinar e a correr com alguma regularidade. Para ajudar à festa, existem também múltiplas designações como intervalos, séries, fartleks, que muitas vezes são confundidas no âmbito e no objectivo por quase todos nós. Jack Daniels é um ex-atleta, treinador e professor de educação física americano, (não confundir com o Whisky), actualmente já conta com 82 anos de idade, que nos anos 70 estudou uma série de factores sobre o treino e acabou por determinar uma fórmula, conhecida como VDOT, que não é mais que uma adaptação da fórmula original do VO2max.

De uma forma resumida, enquanto a fórmula VO2max determina a capacidade máxima de consumo de oxigénio de um atleta durante um exercício de intensidade crescente, a fórmula VDOT com base num resultado numa prova de certa distância, consegue determinar a performance equivalente desse mesmo atleta para provas de outras distâncias, bem como as intensidade de treino ajustadas à capacidade do atleta. De um ponto de vista prático, é indicar por exemplo qual o melhor tempo numa prova de 10Km e obtemos a previsão do que conseguimos fazer na meia maratona ou na maratona por exemplo, e/ou os ritmos para treinar para essas distâncias.

Na sua filosofia de treino, Jack Daniels identificou cinco intensidades de treino. O método não é consensual, mas é um dos mais utilizados a nível global, existindo também diversas variações do método original. Os cinco ritmos são:

Ritmo Fácil (Easy Pace)

Âmbito: Corrida num ritmo leve ou fácil, indicada para aquecimento, recuperação pós-treino, recuperação entre treinos específicos e geralmente utilizado em treinos ou corridas longas.

Intensidade: Geralmente na faixa de 59-74% do VO2max ou 65-79% do ritmo cardíaco máximo (RCmax). Em geral, o ritmo fácil é um ritmo de corrida confortável, um ritmo onde se consegue correr e conversar sem problemas, e que pode variar dependendo da nossa disposição diária. Pode variar entre até 20 segundos mais lento ou mais rápido do que o ritmo especificado para um determinado dia.

Função: Correr ao Ritmo Fácil promove benefícios fisiológicos que ajudam a construir uma base sólida, a partir da qual podemos efectuar treinos de maior intensidade. O músculo cardíaco é fortalecido, os músculos recebem um maior volume sanguíneo e aumenta a capacidade de processar oxigénio fornecido pelo sistema cardiovascular.

Ritmo Maratona (Marathon Pace)

Âmbito: Corrida a um ritmo estável ou com repetições longas, por exemplo 2x 6 Km em ritmo maratona.

Intensidade: Geralmente na faixa de 75-84% do VO2max ou 80-90% do RCmax.

Função: Usado para treinar em condições de ritmo de corrida para aqueles que pretendem correr uma maratona ou simplesmente como uma alternativa ao Ritmo Fácil para os dias de treino longo dos atletas menos experientes.

Ritmo Limiar (Threshold Pace)

Âmbito: Corridas prolongadas a um ritmo estável ou corridas “intermitentes” com intervalos de descanso.

Intensidade: Geralmente na faixa de 83-88% do VO2max ou 88-92% do RCmax. O Ritmo Limiar é já um ritmo difícil, mas ainda confortável, tanto para treinos com repetições de 5 ou 6 km ou repetições de 5 a 15 minutos, com de 1 a 3 minutos de descanso entre cada repetição.

Função: Melhorar a resistência.

Ritmo Intervalado (Interval Pace)

Âmbito: Corridas no VO2max com intervalos.

Intensidade: Geralmente na faixa de 95-100% do VO2max ou 98-100% do RCmax. O Ritmo Intervalado é difícil mas não impossíveis de realizar. Geralmente são a um ritmo que se poderia manter por 10 a 15 minutos numa corrida a sério. Os intervalos são melhores se forem utilizados em períodos de corrida de 3 a 5 minutos cada, (800m e 1000m são distâncias típicas de intervalos, com recuperações de jogging de duração semelhante, não necessariamente igual, à do intervalo de corrida.

Função: Stressar a potência aeróbica (VO2max). A duração dos intervalos deve situar-se nos 3 a 5 minutos, uma vez que demoramos cerca de dois minutos para acelerar ao ritmo necessário para atingir o VO2max. Ultrapassar os 5 minutos poderá colocar-nos na zona anaeróbica que vai resultar numa maior produção/acumulação de ácido láctico.

Ritmo de Repetição (Repetition Pace)

Âmbito: Corrida com repetições curtas e rápidas.

Intensidade: As repetições são rápidas mas não necessariamente difíceis, porque as séries de corrida são relativamente curtas seguidas de um perídio de recuperação relativamente longo. As recuperações são para ser longas o suficiente para que cada série de corrida não seja mais difícil do que a série anterior, porque a finalidade das repetições é melhorar a rapidez e a performance e não conseguimos correr mais rápido (ou mais “performantes”) se não estivermos a treinar descontraídos. Se demorarmos três minutos de recuperação entre repetições de 400 metros, então é isso que é necessário. Reduzir o tempo de descanso entre as séries individuais não produz um treino melhor.

Função: Melhorar a velocidade e a performance de corrida.

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Com estas cinco intensidades de treino, sejam elas consensuais ou não, consegue-se definir com algum rigor os ritmos de treino ideais (ou perto disso), para melhorarmos a nossa performance enquanto corredores. É aplica-las ao plano de treinos, treinar com intensidade e os resultados aparecerão mais à frente.

Podem determinar o vosso VDOT e respectivos ritmos em diversos sítios na internet, deixo aqui a ligação para um deles, basta clicar aqui.

Continuação de bons treinos e de boas corridas!!!