Portugal Divide – Dia 2

Acordei bem-disposto e com um objectivo ambicioso: chegar a Penha das Torres, o ponto mais a Este e ainda descer até Miranda do Douro, o que seriam no percurso que defini, pouco menos de 180 Km. A manhã estava nebulada mas sem ar de chuva, apesar da previsão meteorológica para aquela zona indicar que a probabilidade de chuva era elevada a partir das 13 horas.

Saí de Verín às 9h20, talvez com um par de horas atraso face ao que pretendia e para começar bem o dia a jornada iniciou com uma subida de 16 Kms com média de 5% de inclinação, onde entre outras, apanhei uma parede com mais de 30% de inclinação, onde obviamente a bicicleta foi à mão. Ainda assim tentei afastar-me da possibilidade de chuva o mais depressa possível. Esta subida terminava numa cota pouco mais elevada que os 1000 metros, mas à medida que progredia na subida tinha a sensação que o tempo estava a piorar e que estava mesmo a chegar às nuvens, o que veio a acontecer durante os últimos 2 quilómetros da subida. Com a entrada nesta nuvem que estava no topo da serra comecei a apanhar os primeiros chuviscos, primeiro suaves como a seda, mas depois a aumentar de intensidade até se tornaram numa chuvada intensa onde era difícil ver mais de 10 metros à nossa frente. Felizmente e apesar do mau tempo, estava calor, e todo este diluvio era acompanhado por um vento temperado ou mesmo ameno que não me arrefecia enquanto pedalava. Parece um pormenor, mas depois da difícil subida foram 10 quilómetros sempre a descer, debaixo deste diluvio enorme, onde todo o cuidado foi pouco na pilotagem da bicicleta, e se o vento fosse gelado tudo teria sido bem pior certamente. O final desta descida coincida com a entrada de novo em território português e, como por magia, com a entrada em Portugal a chuva parou para não mais voltar a aparecer neste dia.

O que voltou a aparecer de seguida foi uma nova subida com mais de 7% de inclinação, desta só uns meros 6 quilómetros para pedalar.

E esta foi a tónica do dia, um verdadeiro “parte pernas”, sempre um sobe e desce constante tal e qual uma montanha russa das boas, com subidas longas e empinadas, com muitas pendentes com mais de 15% de inclinação, onde cansava menos ir a pé do que a pedalar, e que obviamente atrasaram e muito o ritmo que tinha idealizado.

Chegado aos 130 quilómetros pedalados neste dia, o lusco-fusco desaparecia e estava a entrar noite dentro. Ainda faltavam cerca de 45 Km para completar a etapa que tinha previsto, o que equivaleria com o desnível correspondente, a 3 ou mais horas a dar ao pedal. Implicaria também chegar a Penha das Torres totalmente de noite, não desfrutando assim da paisagem que seria uma das mais bonitas do percurso. Foi altura de tomar decisões e assim abortei a etapa inicialmente prevista e arrepiei caminho até Vimioso, onde pernoitei e jantei no Hotel A Vileira o que se revelou uma excelente decisão, pois tive oportunidade de descansar e repensar uma nova estratégia para abordar os dias seguintes, já que esta de percursos mais curtos mas com pendentes pouco recomendáveis estava a atrasar-me bastante face ao meu plano inicial.

No restaurante A Vileira, para repor a energia após mais de 3000 m de D+

Algures durante este percurso, o descanso central que levava na bicicleta resolveu soltar-se, e como não tinha ferramenta para o apertar de novo convenientemente resolvi tirá-lo e não o utilizei mais até ao final do desafio. Foi só mais um peso extra que transportei, e que aqui e ali serviu para ajeitar a garrafa de água que levava no porta-bagagens. Na realidade o conjunto bicicleta/descanso nunca funcionou bem ou de forma eficiente, tinha sempre a sensação de o descanso não suportava bem a bicicleta e que esta poderia cair a qualquer momento, o que veio mesmo a acontecer numa das minhas paragens, quando soprou uma rajada de vento ligeiramente mais forte.

Refiro este pormenor insignificante, porque imagino que terá sido nesse momento que um pacote de aveia que transportava num dos alforges rebentou, por acaso o alforge onde levava a roupa. Quando no quarto retirei do alforge a t-shirt para ir jantar, o movimento foi acompanhado por uma chuva de confetis de aveia, que se espalhou por todo o quarto e que obviamente tive de apanhar. Felizmente limpar o alforge e a restante roupa foi bem mais fácil que apanhar toda a aveia do chão.

Resumo da jornada Verín – Vimioso:

Distancia 141,3 km
Elevação + 3.225 m / -2.951 m
Inclinação máxima 30,3%
Inclinação média 3,1%
Velocidade média 14,5 km/h

Sobre mim…

Chamo-me Nuno Gião e sou um atleta de pelotão que gosta de correr longas distâncias. Se há uns anos atrás me tivessem dito que ia correr uma meia maratona eu chamaria louca a essa pessoa. Imaginem se me dissessem que em 2014 iria correr uma prova 100 Km... Actualmente corro Ultra Trails, participo em desafios de endurance na natureza e é sempre uma enorme satisfação que cruzo as mais fantásticas paisagens. Tento superar os diversos desafios a que me proponho. A vida é demasiado curta e bonita para ser desperdiçada sentado num sofá.

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